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A dívida da ciência com a religião

O estudo científico teve como impulso o método de interpretação da Bíblia redescoberto pelos protestantes

27 de outubro de 2017

Por Glauber Araújo

A partir do exemplo que viram nos intérpretes da Bíblia no início do protestantismo, estudiosos de outras áreas buscaram novas formas de obter conhecimento (Foto: Shutterstock)

Vivemos num mundo estruturado sobre a tecnologia e que, por isso, é incrivelmente dependente dela. Graças ao avanço científico, somos capazes de enviar robôs a outros planetas, carregar computadores na palma da mão ou amarrados ao pulso e até modificar o código genético de espécies.

No entanto, a ciência nem sempre teve essa precisão e status. Os “cientistas” da Idade Média trabalharam em condições bem precárias, comparadas às atuais. E essa diferença não se explica somente pelo abismo tecnológico e de conhecimento que separa os dois ­períodos, mas também pelo modo com o qual as pessoas interpretavam os fenômenos naturais.

Alguns estudiosos defendem a ideia de que existe uma relação íntima entre a forma com que a Bíblia (o livro da revelação especial de Deus) era interpretada e como a natureza (o livro da revelação natural de Deus) era estudada. Este artigo pretende mostrar como o método de interpretar o texto sagrado redescoberto pelos protestantes teve impacto no modo de fazer ciência. 

Do alegórico para o literal

Durante a Idade Média, o método de interpretação alegórico proposto por Orígenes (185-253) foi o mais empregado no estudo da Bíblia. Em seu livro Tratado Sobre os Princípios, ele desenvolve sua teoria hermenêutica (de interpretação) defendendo que todo texto bíblico tem três sentidos: o literal, o moral e o alegórico, sendo que o último deveria ser o mais almejado pelos intérpretes cristãos (The AnteNicene Fathers, v. 4, p. 359).

O método alegórico buscava encontrar o sentido espiritual do texto bíblico. Assim, objetos, animais, lugares ou pessoas relatados na Bíblia representavam verdades espirituais além deles mesmas. As cinco pedrinhas que Davi pegou para matar Golias, por exemplo, eram interpretadas por exegetas (intérpretes) católicos como significando fé, obediência, serviço, oração e Espírito Santo. Por sua vez, para o abade francês Bernardo de Claraval (1090-1153), os dentes da amada de Cantares 4:2 significavam os monges e a vida no mosteiro.

Nesse tempo, tudo era visto de forma simbólica; e esse método era aplicado à natureza também. O valor simbólico da natureza era visto como superior a seu aspecto físico. E somente os fenômenos naturais mencionados nas Escrituras recebiam atenção. Sendo assim, a natureza não era explorada por seu valor intrínseco nem pelo interesse em seus mecanismos, mas era utilizada apenas como um repertório para lições teológicas e morais.

Basílio de Cesareia (329-379), por exemplo, afirmava que “todo animal venenoso é aceito como a representação dos poderes contrários e perversos” encontrados no ser humano (Fathers of the Church, v. 46, p. 207). Agostinho, por sua vez, acreditava que criaturas aladas representassem os fiéis que haviam recebido instrução na fé cristã, e que, assim, poderiam “voar pelos céus” (Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, v. 1, p. 199). 

Pesquisa restrita aos livros

Outro contraste entre a ciência moderna e a medieval é que a daquela época não tinha como base a observação e a experimentação, não era empírica como a de hoje. Os “cientistas”, como podemos chamar os filósofos naturais daquele período, restringiam suas pesquisas às bibliotecas. Quando os oceanos ou as estrelas eram o objeto de estudo, eles recorriam aos livros de pensadores gregos como Aristóteles e Platão, porque não entendiam a pesquisa científica como um empreendimento exploratório ou inquisitivo. Predominava a cultura do livro, na qual a ciência era entendida como uma atividade de preservação e transmissão do conhecimento obtido pelos autores clássicos da Antiguidade (The New Cambridge Modern History: The Reformation, 1520-1559, v. 2, p. 423).

Porém, com o advento do protestantismo, Lutero passou a defender uma hermenêutica literalista da Bíblia. Para muitos protestantes, o que importava era o sentido óbvio que emana do texto. Desse ponto de vista, não mais era preciso depender dos pais da igreja para entender a Bíblia. Cada leitor tinha autonomia para interpretar as Escrituras.

Em busca do sentido literal do texto, os exegetas protestantes se voltaram para as línguas originais da Bíblia a fim de corrigir os erros que haviam sido inseridos nas traduções do livro sagrado e que, consequentemente, influenciaram a distorção de algumas doutrinas cristãs. O esforço deles acabou resultando no retorno à fonte do verdadeiro conhecimento espiritual. 

Da contemplação para a observação

As mudanças propostas por reformadores como Martinho Lutero, João Calvino e Ulrico Zuínglio impactaram a sociedade europeia do século 16 de tal maneira a ponto de mudar a filosofia, a educação e as ciências. A exemplo dos intérpretes da Bíblia, estudiosos de outras áreas perceberam que precisavam urgentemente romper com o pensamento medieval a fim de encontrar novos métodos para a obtenção do conhecimento.

Assim como os teólogos, os cientistas migraram do estudo alegórico ou simbólico da natureza para uma análise literal e concreta do mundo que os cercava. Deixaram a ênfase mais contemplativa para procurar entender os mecanismos naturais por meio da observação e experimentação. O objetivo deles era controlar a natureza a fim de aprimorar a condição humana. De certa maneira, o ideal protestante de encontrar o sentido óbvio do texto bíblico contribuiu para que a sociedade da época procurasse métodos “científicos” de explicar os fenômenos naturais e de utilizar esse conhecimento de forma prática.

Além disso, a leitura literalista do livro de Gênesis ajudou os cientistas a olhar de outra forma para o mundo natural, pois eventos, pessoas e lugares relatados na Bíblia passaram a ser interpretados como reais e históricos. As referências ao jardim do Éden, por exemplo, atraíram esforços de curiosos para identificar sua verdadeira localização e características físicas. “O texto de Gênesis, lido literalmente, proporciona lampejos de volta à época em que a humanidade teve conhecimento completo do mundo natural, exerceu domínio total sobre todas as criaturas e se comunicou numa linguagem natural que fosse perfeitamente capaz de retratar a essência de todas as coisas”, analisa o historiador Peter Harrison, no seu livro The Bible, Protestantism, and the Rise of Natural Science (p. 70). 

O papel redentivo da ciência

Naquele contexto, a queda moral de Adão e Eva também passou a ser interpretada como um fato histórico. Assim, exegetas protestantes começaram a acreditar que toda a perfeição da humanidade, incluindo sua capacidade de obter conhecimento, havia se perdido com a expulsão do paraíso. Por isso, como forma de redenção, os cientistas protestantes passaram a ver na empreitada científica um modo de restaurar a humanidade à sua condição de soberania original.

Essa restauração do ser humano (e da criação, por consequência) deveria se dar em duas frentes. Na primeira, a mente humana restauraria todas as coisas à sua unidade original pelo conhecimento do mundo natural. Na segunda, o ser humano assumiria o controle da natureza, retomando a posição de Adão como mordomo da criação. Como podemos ver, para muitos, a investigação científica se tornou uma atividade redentiva e com motivação espiritual.

Esse foi um conceito especialmente defendido pelo inglês Francis Bacon (1561-1626). Em sua obra Novum Organum, Bacon argumenta que “o ser humano, por meio de sua queda no pecado, perdeu tanto seu estado de inocência quanto seu domínio sobre a criação. Ambas as perdas, entretanto, podem ser reparadas nesta vida de forma parcial – a primeira por meio da religião e da fé; a última por meio das artes e das ciências” (Works, v. 4, p. 247). Movido por esse ideal “restauracionista”, ele conseguiu criar uma “reforma das ciências”, fundamentando-a em seu conhecido método de indução.

Bacon também foi fundamental no estabelecimento da Sociedade Real de Londres, renomada instituição que até hoje patrocina o avanço da ciência no Reino Unido. “O domínio sobre as coisas” era um dos objetivos da sociedade, conforme relata Thomas Sprat, primeiro historiador da entidade (History of the Royal Society, p. 62).

Graças a esse espírito, a Inglaterra foi o berço do método empírico de Bacon e das invenções tecnológicas que viabilizaram a revolução industrial nos séculos 18 e 19. “Se não fosse o conhecido empirismo britânico, fundado por Francis Bacon durante a era elisabetana, as ciências modernas teriam permanecido, em grande medida, um ramo especulativo da ‘filosofia ­natural’”, analisa o filósofo e teólogo norte-americano Carl Raschke, num verbete da Encyclopedia of Sciences and Religions (p. 1751).

Em resumo, podemos concluir que a interpretação literal do texto bíblico resgatada pelos protestantes foi um dos fatores a impulsionar o surgimento da ciência moderna, com sua ênfase no estudo empírico da natureza. É, portanto, uma ironia pensar que, em nossos dias, interpretar literalmente o texto bíblico seja visto como símbolo de fundamentalismo e um obstáculo para o avanço científico. Ao que parece, a moral da história entre ciência e religião é que a primeira tem uma dívida com a Reforma Protestante.  


GLAUBER ARAÚJO é pastor, mestre em Ciências da Religião e editor de livros na Casa Publicadora Brasileira 

(Artigo publicado originalmente na edição de agosto de 2017 da Revista Adventista)

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