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Atos dos Apóstolos retrata crescimento e desafios do cristianismo primitivo

Guia de estudos sobre o tema traz lições sobre o desenvolvimento e importância dos primeiros anos do cristianismo

27 de junho de 2018

Por Felipe Lemos

Uma parte dos relatos sobre os primeiros tempos da igreja cristã apostólica é narrado em Atos (Foto: Marg Mowczko)

Os primeiros anos da igreja cristã foram considerados decisivos para a expansão da religião que conta oficialmente com bilhões de seguidores em todo o mundo. O início, no entanto, bem diferente da realidade institucional da atualidade, deu-se em um ambiente simples, em região sob domínio cultural e político do antigo Império Romano, com discípulos em sua maioria originários do judaísmo e ainda sensibilizados pela morte precoce de Jesus Cristo. Os primórdios do chamado cristianismo primitivo são esboçados no livro de Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas, que será objeto de estudo de adventistas e outros interessados durante os meses de julho a setembro.

Nas últimos anos, Paroschi tem se dedicado ao ensino e formação de novos teólogos (Foto: Research Gate)

Nas últimos anos, Paroschi tem se dedicado ao ensino e formação de novos teólogos (Foto: Research Gate)

O guia da lição da Escola Sabatina – um produto da Igreja Adventista do Sétimo Dia em nível mundial – que será analisado nesse período tem como autor um teólogo brasileiro: o doutor Wilson Paroschi, que deu mais detalhes sobre o conteúdo da obra à Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN). Natural de Cianorte, Paraná, tem servido a Igreja como pastor distrital, editor e principalmente professor de Teologia por mais de 34 anos. Formado em Teologia (1983) pelo antigo Instituto Adventista de Ensino (IAE), atual Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), concluiu o mestrado em Teologia pelo Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia (1992) e o doutorado em Novo Testamento (Ph.D.) pela Universidade Andrews (2003), nos Estados Unidos da América (EUA). Em 2011, realizou estudos pós-doutorais na Universidade de Heidelberg, na Alemanha.

Paroschi publicou vários livros e artigos tanto no Brasil quanto no exterior (EUA e Europa). Sua obra mais recente, Origem e Transmissão do Texto do Novo Testamento, publicado pela Sociedade Bíblica do Brasil (2012), recebeu da Associação de Editores Cristãos (ASEC) o Prêmio Areté 2013 de Literatura na categoria Estudo Bíblico. Em janeiro deste ano, Paroschi se transferiu para a Schoool of Religion da Southern Adventist University, nos EUA, onde ensina disciplinas de Novo Testamento. Casado com Eliane Paroschi, professora de Pedagogia, eles têm duas filhas: Keldie e Keilyn.

O que o senhor tinha em mente ao escrever a lição sobre o livro de Atos, que é um grande e interessante registro histórico do Novo Testamento?

Minha intenção era apresentar um retrato fidedigno dos primeiros 30 anos da igreja cristã, que é o período coberto pelo livro de Atos. Há muita incompreensão sobre esse período, que costuma ser romantizado como se a igreja apostólica fosse um exemplo perfeito de piedade e fé. Na verdade, muitas foram as dificuldades que eles enfrentaram, tanto fora quanto dentro da igreja. Não obstante, talvez foi o período em que a igreja mais cresceu. O diferencial foi a vinda do Espírito e a dedicação de homens como o apóstolo Paulo.

Que principais lições o senhor acredita que os leitores desse material poderão aprender a partir do estudo desse livro durante três meses, com vistas à aplicação em sua vida cristã cotidiana?

São muitas as lições. Talvez a primeira, como vemos já em Atos 1, é que Jesus intencionalmente deixou os discípulos em dúvida quanto ao tempo de Seu retorno à Terra. Em vez de lhes responder a pergunta quanto à restauração do reino (versos 6-7), Ele os comissionou a levar o evangelho ao mundo (verso 8). Aqui econtramos uma importante verdade: o tempo da segunda vinda não deveria jamais ser motivo de especulações ou sensacionalismo cronológico. A melhor maneira de se aguardar a volta de Jesus é testemunhando dEle e se envolvendo na missão da igreja. A expectativa do breve retorno sem o envolvimento na missão pode conduzir a um falso reavivamento e até fanatismo, ao passo que o foco na missão sem o devido preparo para o breve encontro com o Senhor em paz pode conduzir, como de fato o faz, a uma ênfase despropositada em números e o batismo de pessoas despreparadas. Ambas as coisas, devem ser evitadas. Alguém disse: “Devemos estar prontos como se Cristo fosse voltar hoje, mas testemunhar dEle como se Ele ainda fosse levar cem anos para voltar.”

Em Atos é retratado o período da igreja cristã primitiva. Quais eram os principais desafios que essa nova organização enfrentou internamente e, sob o ponto de vista externo, e o que a caracterizou, promovendo seu crescimento rápido e consistente?

Capa da versão para adultos do guia de estudos sobre o livro Atos escrito por Paroschi (Arte: Thiago Lobo / Casa Publicadora Brasileira)

Como disse, muitos foram desafios, tanto dentro quanto fora da igreja. Um deles, talvez o maior, tinha que ver com a missão aos gentios. Exclusivistas como eram, os judeus, incluindo-se os apóstolos originais, ainda não compreendiam a natureza universal do evangelho. Para eles, a salvação estava limitada aos membros do concerto abraâmico, o que os levou a insistir na circuncisão dos gentios conversos, como se eles precisassem primeiro se tornar judeus para, então, ser admitidos à comunidade de fé. Isso, porém, era uma grave distorção do evangelho, visto que privilegiava um grupo em particular (os judeus) e exigia a intervenção humana em se guardar a Lei (a circuncisão).

Não fosse por alguém como Paulo, a igreja nunca teria se tornando o fenômeno mundial que se tornou em apenas poucos anos. A batalha foi quase que inglória e, por fim, acabou custando ao apóstolo a própria vida. A conclusão de Atos, porém, mostra o triunfo do evangelho por ele pregado.

O senhor é um dos maiores especialistas em Novo Testamento e se dedica, também, a produzir materiais que atestam a credibilidade dos escritos dos evangelhos. Por que podemos confiar na autenticidade do que hoje lemos no Novo Testamento, levando em conta que o que está disponível para análise, conforme se divulga, são cópias de cópias e, pelo que se sabe, o processo de copiar conteúdos manuscritos não era uma tarefa tão precisa como se imagina?

De fato, a Bíblia chegou até nós por mãos humanas. Ela não caiu pronta do céu. Foi assim na sua composição, foi assim na sua transmissão ao longo dos séculos. Mãos humanas simples e imperfeitas foram empregadas no processo de cópia e recópia das Escrituras. Por causa disso, diversos erros foram incorporados aos manuscritos. Felizmente, o número de cópias disponíveis hoje é tão abundante que podemos, mediante cuidadosa comparação, identificar os erros e corrigi-los. A ciência que faz isto é chamada crítica textual, que nada mais é, senão, o exame minucioso dos manuscritos com a intenção de restaurar o texto das Escrituras à sua forma original.

Talvez convenha destacar, porém, que a grande maioria dos erros envolve questões de pouca ou nenhuma importância, e que mesmo se somados eles não são o bastante para alterar o conteúdo essencial da Escritura. Isso significa que, independentemente da qualidade do manuscrito, a mensagem bíblica nunca foi comprometida. Podemos estar seguros disso.

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