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As festas de Israel e seu significado para nós

O calendário bíblico, com seus tempos sagrados das festas de Israel, tem significado importante que ajuda em nosso desenvolvimento espiritual hoje.

Por Sérgio Monteiro 28 de dezembro de 2020

Festas religiosas, dos antigo Israel, ainda falam muito para nossa realidade espiritual atualmente. (Foto: Shutterstock)

O calendário bíblico estabelece alguns tempos sagrados, nos quais o povo de Israel deveria se reunir para rememorar, descansar e celebrar. Embora os textos fundacionais destes tempos sagrados estejam espalhados pelo Pentateuco, eles são sistematizados em Levítico 23. Números 28 e 29, por sua vez, normatizam os rituais e ofertas a serem apresentadas nesses dias.

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A incorreta compreensão desses tempos sagrados e de seus significados tem levado a dois extremos facilmente detectáveis na história da igreja Cristã, em geral, e na Igreja Adventista em particular. O primeiro extremo é da subvalorização, segundo o qual as festas bíblicas são apenas festas judaicas, sábados cerimoniais, pregados na cruz e sem qualquer valor fora da nação de Israel nos tempos da Bíblia Hebraica.

O segundo é de supervalorização, tornando as festividades bíblicas em norma salvífica, de obrigatoriedade para todos os cristãos, cujos restabelecimento é inclusive visto como parte da missão da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Portanto, compreender o contexto desses tempos sagrados, chamados de chaguim (lê-se rraguim) e seus significados é de importância fundamental para cada um de nós. E não apenas teologicamente, mas também sob o ponto de vista da missão. Antes, no entanto, de falarmos sobre cada uma delas, é preciso entender, de forma geral, o conceito de tempo e de tempo sagrado nas Escrituras.

Tempo

Os egípcios pouco pensaram sobre tempo em termos conceituais. Eles não estavam preocupados com noções como passado, presente e futuro. Tudo o que eles viviam, em sua dependência do Nilo, estava relacionado com o recorrente ciclo de vida.

Já antigos pensadores gregos, dentro do mesmo modelo de observação natural, enxergavam o tempo como uma realidade circular, no qual todos os eventos retornavam de maneira repetitiva e eterna, uma concepção encontrada também entre os hindus.

A concepção bíblica, ao contrário, é de uma história e tempo que possuem um início e se movimentam em direção a um fim, no qual os eventos não retornam factualmente. O que no passado ocorreu, no passado ficou, e não retorna no presente ou no futuro. Paradoxalmente, Deus não apenas incentiva, mas requer que os eventos do passado sejam revividos uma e outra vez. Como se resolve esse paradoxo? Por meio de uma concepção não linear, mas tampouco cíclica do tempo.

A concepção espiralada é justamente esta na qual não são os eventos em si que retornam, mas o seu tempo, e sua lembrança. Isso nos permite vivenciar seus significados, enquanto nos mantêm seguindo na ascendente da espiral, em direção à meta estabelecida por Deus: o reino futuro. E isto se dá pelos tempos sagrados, pelas festividades.

Israel possuía oito grandes tempos sagrados: sábado, Páscoa, Pães ázimos, Primícias, Semanas ou Pentecostes, Trombetas, Dia da Expiação e Cabanas.  As linhas seguintes são um resumo de seu contexto e significado.

O sábado

O primeiro dos tempos sagrados das Escrituras é o sábado, ou shabbat. Sua origem remonta não a um ato libertador de Deus, mas ao ato originador de toda a vida e de todos os outros tempos sagrados: a Criação. É em Gênesis 2 e não em Êxodo 20 que a noção de tempo sagrado aparece pela primeira vez. E não como homem, mas com Deus. Por isso, o sábado é o maior dos tempos sagrados das Escrituras, servindo como modelo para todos os outros.

Páscoa

O próximo tempo sagrado do calendário comemora a libertação do Egito, o ato libertador mais importante da história de Israel. É a comemoração da noite em que o anjo destruidor “passou” por sobre as casas de Israel e preservou os primogênitos, ao contemplar o sangue do substituto nos umbrais. Seu estabelecimento, em Êxodo 12, inicia com a determinação de que aquele seria “…o primeiro dos meses do ano…”, indicando que a vida passada deveria ser esquecida, porque ela não existia mais.

O cordeiro que morreu e a vida nova devem ser vistos juntos nessa festa, porque a vida de cada um brotou da morte daquele cordeiro. De igual maneira, a Morte do Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (João 1:28), é o que permite a “passagem” da morte por sobre nós e a nova vida que podemos ter, iniciando um novo ciclo de vida NELE.

Pães Ázimos

A festa de Páscoa se estendia por oito dias (Lev. 23:6), durante os quais apenas pães sem fermento poderiam ser comidos. O objetivo era lembrar a saída rápida do Egito, quando não tiveram tempo para permitir o crescimento da massa. Não comer fermento simbolizava não parar para esperar que o local atual lhe desse algo. O Egito, o mundo, o mal e o pecado nada têm a oferecer e apenas impedem o rápido cumprimento das promessas de Deus a Seu povo.

Primícias

O dia após o sábado de Páscoa era o dia para apresentar os primeiros frutos da terra, segundo Levítico 23:10. Era um tempo de agradecimento pela provisão divina que dava o pão a seu tempo, enquanto servia de penhor de uma colheita farta. Ela era o resultado das chuvas tardias, que amadureciam o grão. O apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 15:21-24, utiliza uma figura retirada dessa festividade para apresentar a ressurreição de Cristo como penhor da ressurreição dos que creem Nele.

Semanas

No mesmo dia em que as primícias eram apresentadas, de acordo com Levítico 23:15ss, iniciava-se a contagem de sete semanas inteiras. Embora as atividades diárias fossem mantidas, a elas era agregada uma expectante contagem, chamada de sefirat haomer.

Esse intervalo, no qual a colheita era terminada, ligava a saída do Egito a uma nova festa, ou tempo sagrado, ao final, chamado de Shavuot. O evento comemorado é, ainda, a libertação do Egito, e o tempo de expectativa e entrega de destino ao Eterno. Por outro lado, é também, de acordo com pensadores judeus, o período que culmina com a entrega da Lei no Sinai. Se isso for verdade, há uma relação especial com o dito por Jesus no Seu diálogo com os discípulos dobre o Espírito Santo, em João 14-15: A Lei é a Instrução Divina (Deuteronômio. 30-32) e o Espírito Santo é o Instrutor (João 14:15ss).

Festa das Trombetas

Após um período sem festas, chegamos à festa das trombetas, descrita em Levítico 23:24-25. O objetivo dessa festividade parece ser apenas apontar para o futuro. Mas ela é chamada de memorial, anunciado ao som de trombetas, ou do shofar. A primeira menção do shofar nas Escrituras é no Sinai (Êxodo 19:16ss), no contexto da revelação divina e da Lei. Seu toque repetido no início do sétimo mês objetivava trazer à memória as obrigações religiosas de Israel, seu compromisso com a aliança e lembrar que tudo isso estava naquele dia sendo trazido a juízo.

Dia da Expiação

O Dia da Expiação era, das grandes festas, a mais importante, pois lidava com o perdão (Levítico 23:26-32). Curiosamente, o dia em si, não era de juízo. Era dia de purificação do acampamento, do santuário e do povo, conforme Levítico 16. Apenas esse dia possuía um ritual plenamente elaborado com detalhes que buscavam impactar o povo com a certeza de que Deus os estava perdoando. Ao mesmo tempo que os julgava, não apenas por seus atos do ano, mas por suas intenções. Nesse dia, todo pecado de Israel era retirado da presença de Deus e sua existência era destruída.

Durante o ano, o ofertante via o pecado ser retirado de sua vida, e transferido para o santuário. Mas, nesse dia, o pecado era tirado do santuário e do acampamento para ser eliminado. O ritual elaborado, descrito em Levítico 16 e na literatura posterior, tinha a intenção de impressionar a mente com a profundidade da misericórdia de Deus e do Seu perdão. E nisso reside seu maior em mais profundo significado: o juízo de Deus, anunciado com trombetas no início do mês. Não resultava em morte, mas em perdão, porque “nenhuma condenação há para os que estão” no Messias.

Cabanas

Finalizando o ano litúrgico, a festa das cabanas (Levítico 23:34ss) iniciava no dia quinze do sétimo mês, e celebrava o tempo que Israel passara no deserto. O objetivo era lembrar que a Terra em que habitavam era herança do Eterno e que seu direito de ali habitar foi dado por Deus e não por direito natural.

Por isso, deveriam sair de suas habitações e viver por sete dias em cabanas, como os antepassados. Há uma ponte dessa festa com o milênio, no qual os santos viverão fora de sua Terra por um período temporário. O objetivo do milênio, portanto, não é turismo celestial, mas nos lembrar que a Terra que pertence ao Eterno nos será dada por Herança, por Seu Mérito e por Sua Graça.

Conclusão

Cada festividade de Levítico 23 possui características próprias, mas todas partilham de dois aspectos essenciais: 1. Não são de Israel. São de Deus. São tempos de lembrança de ações divinas em favor de Seu povo, Israel; 2. Apontam para o futuro, para além delas mesmas, declarando em sua própria conformação, que possuem uma realidade maior: o Messias e Sua Obra.

Nesse binômio entre memória e expectativa, podemos encontrar uma resposta para nossa pergunta quanto à importância das festas e sua relação conosco. Elas seguem como eventos comemorativos da ação de Deus para libertar Seu povo, por meio do qual o Messias veio a este mudo e a Sua Palavra chegou a nós.

Por isso, são relevantes no aprendizado de um Deus que se relaciona, liberta e dirige.  Apesar disso, estas festividades não possuem obrigatoriedade salvífica, nem devem ser tomadas como métrica de relacionamento com Deus, uma vez que a realidade por elas tipificada chegou e é essa realidade é que deve ser a métrica.

Sérgio Monteiro é teólogo, capelão e membro do Instituto de Estudos Judaicos Feodor Meyer, membro da Adventist Theological Society, International  Association for the Old Testament Studies e Associação dos Biblistas Brasileiros.

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