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Projeto Quebrando o Silêncio alerta e conscientiza população sobre suicídio

Mobilização teve o engajamento de milhares de voluntários em mais de 100 ações na zona sul da capital

4 de setembro de 2018

Por Danúbia França

“Aos cinco anos de idade meus pais se separaram e eu sofri muito. Depois do divórcio minha mãe batalhou para suprir minhas necessidades básicas, mas emocionalmente foi difícil enfrentar a ausência do meu pai em casa, nas festinhas e reuniões da escola, no meu crescimento.

O tempo foi passando e em 2013, aos 18 anos, estava n

 

 

 

o último ano do Ensino Médio pela segunda vez. Nessa fase me deparei com a pressão da escolha da profissão entre outros dilemas da própria idade. Além disso, estava envolvida num relacionamento em que minha mãe e padrasto não aprovavam.

Eles viam o quanto me doava e sofria com essa relação que era perturbada, porém estava disposta a levar adiante, porque na minha cabeça o amava. Por fazer essa escolha, várias vezes fui pressionada a decidir entre a família e o namorado. E toda vez, ficava num fogo cruzado.

Certa ocasião, de madrugada, estava ao telefone e a conversa foi interrompida bruscamente. Minha mãe pegou meu celular e computador e leu as mensagens que eu tinha com o namorado. Brigamos, e assim que ela saiu do meu quarto, eu não aguentei tanta cobrança e decidi tirar a minha vida. Eu achava que fazendo isso ia resolver todos os meus problemas. Então, me aproximei da sacada de casa e pulei”.

Esse foi o depoimento de Tamires Cristine Rabelo que hoje tem 23 anos. Depois desse triste episódio, a jovem encontrou razões para não desistir da vida. “Eu precisei de forças para tomar decisões que, sozinha, não iria conseguir. Vejo o quanto perdi tempo em achar que não tinha apoio de ninguém, quando na verdade, todos estavam ao meu lado. O recomeço foi muito doloroso, mas digo que estou vencendo a cada dia. Hoje vivo com pessoas que realmente me amam, tirei minha habilitação, tenho minha profissão, minha fé foi resgatada e tenho um namorado maravilhoso que me ajuda muito. Essa transformação também pode acontecer na vida de quem está passando pela mesma situação que eu passei. Por isso vai meu apelo para não desistir”, insiste a dentista.

Depois do pesadelo Tamires passou ver a vida de outra forma e voltou a sorrir

Estatísticas

Felizmente, o caso da jovem Tamires não acabou em tragédia. No entanto, dados da Organização Mundial de Saúde, mostram que o suicídio tem crescido de forma alarmante e atualmente é a 17ª causa de mortes no mundo. No Brasil, por ano, cerca de 11 mil pessoas tiram a própria vida.

A prática tem sido recorrente entre adolescentes e jovens de 15 e 29 anos, o que deixa o país na quarta posição no ranking de maior número de casos desse tipo e faixa etária. De acordo com a medicina e ciência, não há uma causa específica que motive a pessoa a tirar sua própria vida. Pelo contrário, existem diversas variáveis.

Causas

Entre os fatores de risco estão a depressão, o alcoolismo, a esquizofrenia, o isolamento social, a perda ou separação de pessoas queridas, o bullying, o abandono, a superproteção. A baixo autoestima, os traumas emocionais, a violência, as dificuldades financeiras ou profissionais e a religião também desempenham fator significativo.

Quebrando o Silêncio

Devido a sua natureza polêmica, complexa e multidimensional, o suicídio não é tratado abertamente. Contudo, a temática é séria e precisa ser discutida. Diante da gravidade e do impacto que esse mal causa, ficar calado é contribuir para o aumento do número de incidências.

Para combater e prevenir esse mal, Organizações Não Governamentais (ONGs), órgãos públicos e entidades religiosas têm se mobilizado. Há 16 anos, o Quebrando o Silêncio, projeto educativo promovido pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, trabalha com diversos temas como bullying, violência contra a criança, mulher e idoso, pedofilia e, este ano, a tônica foi sobre o suicídio.

Ação

Para conscientizar a população milhões de pessoas se uniram ao projeto que acontece em oito países da América do Sul. Na zona sul de São Paulo e Vale do Ribeira, por exemplo, milhares de voluntários se envolveram em mais de 100 ações realizadas no dia 25 de agosto.

Em diversos bairros, atendimentos à saúde foram oferecidos à população. Em Vila das Belezas, uma tenda foi montada a fim de receber os visitantes para verificação de pressão e a realização de testes de glicemia. Além disso, caminhadas em favor da vida aconteceram em diversos pontos da região.

No Campo de Fora, a marcha teve a participação de fanfarras para chamar a atenção dos moradores. No distrito de Salvador Rocco, a passeata ocorreu em umas das principais avenidas e terminou com louvor, informação e a distribuição de materiais informativos numa praça.

Durante o evento, abraço grátis, palavras de conforto e carinho, seção de desabafo e momentos de oração fortaleceram ainda mais a proposta da campanha. “Estava passando e o rapaz perguntou se ele podia orar por mim. De início tomei um susto, porque é difícil alguém se importar com o outro, mas me senti acolhida e importante para alguém que eu nem conheço “, conta Neuza Aparecida de Carvalho, diarista, que foi abordada enquanto ia pra casa.

Para falar abertamente sobre o suicídio, consultorias foram feitas e palestras ministradas por psicólogos em colégios públicos, condomínios, praças e templos. “É necessário ressaltar duas coisas, na maioria dos casos a pessoa não quer morrer, mas sanar os problemas que, na concepção dela, só serão resolvidos colocando fim à vida. Segunda questão, é possível reverter esses casos. Ouvir essa pessoa sem críticas e julgamentos é o primeiro passo”, orienta o psicólogo Esmeraldo Alcântara.

Segundo a organizadora da campanha na região Sul da capital, Maria Teresa de Araujo

a iniciativa serve para, mais do que nunca, conscientizar não só quem está tentando cometer o suicídio, mas um alerta para quem está próximo identificar o comportamento suicida e fazer algo. Por isso, a importância desse movimento que tem o envolvimento desde crianças até idosos. Quanto mais pessoas tiverem informadas, mais vidas serão poupadas”, afirma.

Juntos por uma causa

A escola é o local que o aluno passa parte do tempo. Portanto, se sensibilizados, os profissionais podem identificar comportamentos de estudantes que estejam passando por problemas, como também podem auxiliá-los a identificarem seus estados emocionais e expressá-los de formas construtivas, já que essa é uma fase marcada por inúmeras transformações físicas, emocionais e sociais.

Assista a matéria sobre as ações do Quebrando o Silêncio veiculada no programa Revista Novo Tempo

Aos 17 anos Anna Stopassoli passou por um período muito delicado. Ela tinha depressão e síndrome do pânico. “Eu sempre fui muito independente e desde nova tive que ajudar a criar as minhas irmãs. Era muita responsabilidade, muita cobrança e o pior, é que por ser muito magrinha e pequena, sofria bullying. Acredito tudo isso pesou muito e contribuiu para a minha doença”, desabafa.

Após um tempo afastada da escola, passou a frequentar as aulas, mas não via motivos para continuar vivendo. Foi nesse período que a adolescente descobriu que não era só uma, mas dezenas de pessoas que se importavam com ela. “Foi por conta de um grupo de oração criado pelo professor Amaury Júnior, no Colégio Adventista do Capão Redondo, que a minha vida foi transformada”, conta.

“Criamos esse grupo porque nos sensibilizamos com a situação da Anna e queríamos ajudá-la de todas as formas. Foi quando ela se interessou em participar das reuniões. A Anna mudou muito, pra melhor, no convívio com os colegas, em casa, internamente. Hoje ela também percebe a importância de dedicar tempo para fortalecer a fé por meio da comunhão com Deus”, afirma Amaury.

A proximidade da escola, a preocupação da turma foi muito importante pra mim, mas o que me ajudou muito nesse processo foi resgatar aquilo que eu tinha perdido, a espiritualidade”, assegura Anna.  

 

A princípio era pra ser um grupo e com o tempo as reuniões foram se tornando frequentes e o espaço limitado para o número de participantes. Hoje, com o apoio da escola e da igreja, as reuniões viraram um projeto chamado Porduca – sugestão da própria Anna – que integra alunos, pais e comunidade num salão maior.

A programação que acontece no horário do pôr do sol, toda penúltima sexta-feira do mês,  é realizada pelos próprios alunos, com a supervisão do professor e tem uma roupagem própria para a idade deles.

              Anna e o professor Amaury no laboratório da escola, onde as reuniões aconteciam

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