Mais de mil líderes refletem sobre identidade adventista durante Concílio de Ancionato
Concílio do Ancionato da Associação Rio Fluminense fortalece identidade adventista, capacita mais de mil líderes e reafirma o compromisso missionário da Igreja com o envio de famílias para cidades sem presença adventista

Na estrutura da Igreja Adventista do Sétimo Dia, o termo “ancião” vai além do sentido comum de pessoa mais velha ou experiente. Derivado do latim, o título designa líderes espirituais eleitos pela própria congregação para auxiliar o pastor no cuidado pastoral da igreja local.
São eles que proporcionam liderança espiritual, lideram cultos, pregam, visitam membros, participam da administração das ordenanças e promovem o crescimento missionário da comunidade. Considerados auxiliares dos pastores, o ancionato atua lado a lado com o pastor distrital, juntos cuidando da vida espiritual, do bem-estar dos membros e do avanço da missão na igreja local.
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Foi para fortalecer, capacitar e renovar o chamado dessas pessoas que a Associação Rio Fluminense reuniu, neste fim de semana, mais de mil participantes no maior Concílio de Ancionato de sua história. Realizado em duas cidades (Itaboraí e Campos dos Goytacazes) do território que atende o centro, a serra e o norte do estado do Rio de Janeiro, o encontro reuniu anciões, anciãs e cônjuges de igrejas de todo o campo sob um tema que atravessou cada mensagem, seminário e momento de reflexão: Identidade.



Entenda: o que é o ancionato?
Na Igreja Adventista do Sétimo Dia, o ancião é um líder espiritual eleito pela igreja local para auxiliar o pastor no cuidado da congregação. Em muitos distritos, onde um pastor atende diversas igrejas, os anciãos desempenham um papel essencial no discipulado, na visitação, na liderança dos cultos, no fortalecimento da comunhão e no incentivo à missão. Homens e mulheres podem exercer essa função, de acordo com a organização e as diretrizes da Igreja em seu campo de atuação.
Um chamado que chega de formas inesperadas
Joanna Assed é advogada, ocupa um cargo na Procuradoria Geral do município de Campos dos Goytacazes e é mãe de uma adolescente de 13 anos. É também anciã e diretora da Escola Sabatina da Igreja Adventista Central de Campos. A combinação pode parecer improvável, mas, para ela, o caminho até o ancionato foi uma sequência de confirmações que não dava para ignorar.
Tudo começou quando o primeiro ancião da igreja passou a dizer que ela estava se preparando para assumir o cargo. “Eu achava que era brincadeira e não levava muito a sério”, conta. Mas a brincadeira se tornou oração, duas semanas pedindo a Deus clareza sobre o chamado.
No meio desse período, uma amiga que não sabia de nada a visitou com uma mensagem incomum: havia sonhado com Joanna na frente da igreja, com uma placa embaixo do seu nome escrita “anciã”. “Fiquei muito impactada, porque ela não era uma pessoa com quem eu dividia esse tipo de pretensão”, relata. Logo depois, o pastor a visitou com a confirmação: ela havia sido votada pela congregação. “Aí eu entendi que realmente era um chamado de Deus e aceitei a função.”
Hoje, Joanna define o ancionato com clareza: “Ser anciã vai muito além de exercer um cargo na igreja. É cuidar, é acompanhar de perto, é entender a necessidade, olhar no olho, abraçar, ouvir, aconselhar. Para isso, tenho pedido a Deus constantemente sabedoria e entendimento, para que eu possa ajudar as pessoas na minha igreja, fazendo com que sejamos mais unidos, fortalecidos e imbuídos na missão de pregar o Evangelho.”
Sobre o tema do concílio, ela foi direta: “Quando vi o tema Identidade, falei: isso fala muito ao meu coração. Conhecer a história do passado nos faz entender o que estamos fazendo no presente e nos faz olhar para o futuro, para as novas gerações. Nós somos um povo que não surgiu do acaso.”


Rosemeire Peres Prazeres Pintor Rodrigues, anciã da Igreja Central de Itaboraí, carrega esse chamado com clareza de propósito. “O que me trouxe à igreja há quase quatro décadas foi o testemunho de dois anciãos, meus pais na fé, que não só representavam a identidade da Igreja, como viviam o que pregavam. Saber o passado e o futuro deste chamado nos ajuda a viver o presente com o foco na missão”, contou.
Para ela, revisitar as origens da Igreja é também uma fonte de força para o presente. “Reviver as lutas dos pioneiros e o amor ao Evangelho nos inspira a enfrentar as próprias lutas na certeza de que Deus ainda guia a Sua Igreja. Por palavra e exemplo, preciso levar os membros a desejarem abreviar a volta de Cristo.”
Rildo Duques, ancião da Igreja do Rio Várzea, em Itaboraí, saiu do concílio marcado por uma palavra que atravessou toda a programação: desprendimento. “O que me marcou ao rever a história da Igreja foi o desprendimento dos nossos pioneiros. Eles prezavam mais o crescimento do Evangelho do que a própria vida. Isso me marcou muito”, disse.
Para ele, o encontro foi também um momento de honestidade consigo mesmo. “Olhando para os pioneiros, com tão pouco e tanto resultado, me dei conta de que hoje, tendo tantas coisas, estamos um tanto quanto negligentes. Isso me fortaleceu.” O compromisso que leva de volta para sua congregação é claro: “Vamos buscar utilizar mais os nossos dons e os mecanismos que temos para a aplicação do Evangelho. Temos tudo para que o Evangelho cresça, assim como no passado.”



Identidade como fundamento
Um dos destaques da programação foi a participação do pastor Edwin Mayer, que trouxe uma narração da história da Igreja Adventista e do pastor Renato Stencel, historiador adventista e diretor do Centro White, que abordou os elementos que definem a identidade adventista. Para ele, o compromisso com a Palavra de Deus é o ponto de partida. “A identidade adventista se caracteriza primeiramente pelo compromisso com a verdade da Palavra de Deus. A partir do conhecimento da Bíblia, nós podemos desdobrar para outras áreas, nosso estilo de vida, a forma como adoramos a Deus, a maneira como nos relacionamos com as pessoas e a nossa teologia”, explicou.
Ele destacou ainda o papel de eventos como esse na formação da liderança. “O ancião é um representante da igreja local, um termômetro que traz a realidade do que está passando no seu campo. Cada evento de capacitação é uma oportunidade que a liderança tem de ouvir seus líderes locais, e os líderes locais, de ouvir a liderança mais ampla.”
Para o pastor Felipe Andrade, presidente da ARF, revisitar a história da Igreja é necessidade. “Revisitar a nossa história é lembrar que a Igreja Adventista nasceu com senso de urgência, fidelidade bíblica e compromisso missionário. A história nos lembra quem somos, por que existimos e para onde devemos caminhar”, afirmou. Sua mensagem ao ancionato foi direta: “Identidade e missão caminham juntas. Não basta sabermos quem somos; precisamos viver aquilo que cremos. Cada ancião é um guardião espiritual da identidade da igreja local e também um mobilizador da missão.”



Um momento histórico: famílias enviadas para cidades sem presença adventista
Um dos pontos altos do concílio foi a consagração de famílias missionárias que irão atuar em Cambuci, Varre-Sai e Trajano de Morais, três municípios do território da ARF que ainda não contam com presença adventista local. O momento reuniu emoção e compromisso, traduzindo em gesto concreto o tema do encontro.
“Esse é um momento histórico e profundamente espiritual. A consagração dessas famílias representa a Igreja em movimento, saindo de onde já estamos estabelecidos para alcançar lugares onde ainda não há presença adventista. Cada família missionária enviada é uma resposta ao chamado de Deus”, declarou o pastor Felipe Andrade.



O que a ARF espera ver nas igrejas
Ao encerrar o concílio, a liderança da ARF expressou a esperança de que os dois dias vividos se traduzam em transformação real nas comunidades de cada líder presente. Para o pastor Moisés Oliveira, secretário da ARF e um dos responsáveis pela organização do evento, o propósito foi claro desde o início. “Buscamos renovar o chamado de homens e mulheres que servem como líderes espirituais em suas igrejas. O ancionato é composto por líderes que são parceiros indispensáveis do ministério pastoral no cuidado do rebanho, no discipulado dos membros e no avanço da missão. Quando a liderança local é fortalecida, toda a igreja cresce em comunhão, relacionamento e missão.”
Ele completou com a expectativa para o que vem depois do concílio: “Esperamos ver igrejas onde a comunhão com Deus seja fortalecida, a identidade adventista seja vivida com convicção e cada membro seja envolvido no discipulado e na missão. Desejamos que os líderes retornem às suas igrejas inspirados a cuidar das pessoas, fortalecer as novas gerações e conduzir a igreja para uma vida de fidelidade e evangelismo.”



A história já começou
O concílio se encerrou com um momento que se tornou um símbolo concreto do que foi pregado nos dois dias. Pedro, morador de Trajano de Morais, foi batizado no segundo dia de concílio, na cidade de Campos dos Goytacazes. Trajano de Morais é uma das cidades que receberá uma das famílias missionárias consagradas durante o evento, um município que ainda não conta com presença adventista. O batismo de Pedro aconteceu antes mesmo de uma igreja existir em sua cidade.

