Livro trata da relação entre política e a vida cristã
Obra de pastor adventista propõe uma reflexão mais profunda a respeito do cristianismo diante da política partidária.

Nos últimos anos, especialmente após o período agudo de pandemia da Covid-19, foi possivel perceber uma mudança significativa no comportamento humano. E em especial no que diz respeito a posicionamentos públicos politico-partidários. Algumas vezes, as discussões derivam para troca de acusações com pouca consistência argumentativa e e muita irracionalidade resultando em agressividade. Em entrevista à CNN Brasil, o cientista politico e professor de Relações Internacionais, Heni Ozi Cukier, afirmou que “nós estamos numa era de polarização afetiva, ou seja, a política é feita na política identitária, na base de identidade, em que você não raciocina, não são posições, não é nem ideologia, é o que conecta com você, com a sua pessoa, com o seu grupo, quem você é”.
O recém-lançado livro do teólogo adventista Felippe de Amorim Ferreira tenta colocar uma perspectiva equilibrada no assunto de religião e política. A obra se chama Política para cristãos – um guia 100% bíblico para pensar, agir, testemunhar na sociedade e fugir das ideologias. Amorim é teólogo, mestre em teologia e está fazendo dois doutorados: um em teologia pela Universidad Adventista del Plata (UAP), na Argentina; e outro doutorado em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É pastor ordenado, professor da Faculdade de Teologia do Centro Universitário Adventista do Nordeste (Uniaene), autor de 14 livros e apresentador da Rede Novo Tempo de Comunicação. Ele conversou com a Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN).
No livro, você fala do equilíbrio necessário dos cristãos entre exercerem a cidadania e, portanto, envolverem-se com política de forma mais ampla e não permitirem que partidarismo ideológico e religião se misturem de forma perniciosa. Explique de forma resumida qual é a ideia?
A ideia central é simples: o cristão não foi chamado nem à omissão nem à idolatria política. Ele deve exercer sua cidadania com responsabilidade, porque a fé tem implicações públicas, morais e sociais. Mas esse engajamento precisa ser governado pela Palavra, não por paixões partidárias. Quando a política ocupa o lugar da esperança, a fé é corrompida; quando a fé se cala diante da vida pública, o testemunho também se empobrece. O equilíbrio bíblico está em participar sem se vender, influenciar sem ser capturado, servir ao bem comum sem transformar partidos em extensão do Reino de Deus. Em outras palavras, o cristão pode e deve agir na sociedade, mas nunca pode permitir que ideologias ditem sua consciência. Sua lealdade final não é à direita nem à esquerda, mas a Cristo e à verdade revelada nas Escrituras Sagradas.

Instrumentalização da fé
Outro aspecto que você menciona na obra é acerca da importância de se fugir da instrumentalização da fé para finalidades político-partidárias. O que os líderes das igrejas podem fazer para evitar tal tipo de problema?
Os líderes das igrejas precisam, antes de tudo, preservar o púlpito como lugar de Palavra de Deus, não de propaganda. Quando o altar vira palanque, a igreja deixa de formar discípulos e passa a fabricar militantes. Para evitar isso, é necessário pregar todo o conselho de Deus, discipular a igreja para pensar biblicamente, recusar endossos partidários revestidos de espiritualidade e não usar linguagem religiosa para manipular consciências. Também é essencial cultivar uma cultura de prudência: verificar informações, rejeitar boatos, não absolutizar projetos humanos e lembrar constantemente que a missão da igreja é salvar pessoas, não eleger salvadores civis. O líder fiel ensina o povo a exercer cidadania, mas sem confundir reino de Deus com programa de governo. Onde Cristo permanece no centro, a instrumentalização da fé perde força.
Ódio nas redes
Em sua argumentação, você dá a entender que o ódio típico das conversações no ambiente digital e uma cultura contemporânea de não se escutar opiniões diferentes contribuem para esse cenário de polarização política que afeta o convívio no ambiente religioso. O que você quer dizer com isso?
O que quero dizer é que o ambiente digital tem potencializado pecados antigos com velocidade nova. A ira, a mentira, a caricatura do outro e a soberba sempre existiram; agora elas circulam em massa, são recompensadas por algoritmos e passam a moldar a imaginação dos cristãos. Quando alguém se acostuma a não ouvir, apenas reagir; a não discernir, apenas compartilhar; a não tratar o outro como próximo, mas como inimigo, a polarização deixa de ser apenas política e se torna espiritual. O problema não é só haver opiniões diferentes, mas perdermos a capacidade cristã de sustentar convicção com verdade, mansidão e domínio próprio. Igrejas adoecem quando seus membros passam a se relacionar mais como tribos ideológicas do que como corpo de Cristo. O digital revelou, e muitas vezes agravou, essa deformação.
Cristianismo forte
De maneira geral, o que falta aos cristãos para que tornem o cristianismo uma força maior do que as ideologias partidárias?
Falta aos cristãos uma consciência mais profunda de discipulado. Quando Cristo não ocupa o centro de modo real, qualquer ideologia oferece identidade, linguagem, senso de missão e inimigos prontos. O problema, portanto, não é apenas político; é espiritual. Falta maturidade bíblica, discernimento moral, humildade e coragem para submeter convicções pessoais ao senhorio de Jesus. Falta lembrar que a igreja existe para testemunhar o reino, não para funcionar como braço religioso de projetos humanos. Quando o cristão entende que sua identidade principal está em Cristo, ele deixa de precisar que um partido lhe diga quem ele é. E quando a igreja recupera sua missão, que é pregar o evangelho, formar caráter, servir ao próximo e viver a verdade, o cristianismo volta a ser maior do que qualquer ideologia. Sem isso, continuaremos trocando fidelidade por alinhamento tribal.
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Referência:
1. Estamos numa era de polarização afetiva, diz cientista político ao WW - https://www.cnnbrasil.com.br/politica/estamos-numa-era-de-polarizacao-afetiva-diz-cientista-politico-ao-ww/
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