Jovens do centro do RS partilham vivências missionárias em projeto na região amazônica
Em parceria com o Instituto Una Brasil, Igreja enviou 26 voluntários às comunidades ribeirinhas pelo Projeto Send Me

Um grupo de jovens adventistas da região central do Rio Grande do Sul viveu, neste mês de julho, uma experiência inesquecível no coração da Amazônia. Por meio do projeto Send Me — iniciativa do Serviço Voluntário Adventista (SVA), em parceria com o Instituto Una Brasil —, os 26 voluntários se dedicaram a uma jornada de fé, serviço e superação, com destino à comunidade ribeirinha de Vila Monteiro, localizada em uma região isolada do estado do Amazonas.
A missão, que ocorreu entre os dias 17 a 27 de julho, começou em Manaus, com um breve momento de imersão cultural que incluiu visita ao Encontro das Águas e a uma aldeia indígena. Na sequência, os jovens embarcaram em uma longa viagem de barco que durou cerca de 40 horas. A embarcação serviu como meio de transporte e alojamento improvisado, com redes armadas entre colunas de madeira. O calor intenso, as noites úmidas e o convívio constante já antecipavam os desafios emocionais e físicos que os aguardavam.
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A chegada à vila foi marcada por uma recepção calorosa, inclusive do cacique local, com quem alguns voluntários já haviam estabelecido vínculos em missões anteriores. A equipe se dividiu em diferentes frentes de trabalho, oferecendo atendimentos médicos e odontológicos gratuitos por meio de uma clínica móvel, além de iniciar a construção de uma biblioteca comunitária e de banheiros públicos — ações fundamentais para uma população que enfrenta dificuldades até mesmo para acessar serviços básicos.

“Para eles, é caro até conseguir combustível para ir de barco até a cidade mais próxima, sem contar que o trajeto leva cerca de três horas e meia. Então, o atendimento médico talvez tenha sido um dos pontos mais essenciais da nossa missão”, destacou o pastor Wagner Willyam, que lidera os jovens adventistas na região central do Rio Grande do Sul e foi um dos responsáveis pelo grupo no período. As obras envolveram desde escavações e aterros até a coleta de madeira em áreas alagadas, exigindo coragem, resistência física e muito trabalho em equipe. Além disso, os voluntários realizaram momentos de louvor, reflexão bíblica e suporte emocional com a comunidade local.
A saúde emocional, inclusive, foi uma das prioridades do projeto, especialmente entre as crianças e adolescentes da vila. A jovem Nathany da Cruz Santos, de 21 anos, natural de Montenegro (RS), foi um dos destaques nessa área. Estudante do curso de psicologia e líder do ministério jovem em sua igreja local, Nathany realizou o sonho de participar de uma missão ao ser sorteada durante a Vigília Jovem “Conectados”, promovida pelas três sedes administrativas da Igreja Adventista para o Rio Grande do Sul no ano passado. Com a inscrição garantida, mobilizou amigos, irmãos de fé e doações para custear as passagens.
Durante a missão, atuou na reforma da biblioteca da comunidade, colaborando com pintura, instalação de portas, janelas e forros, mas foi nas oficinas com crianças que encontrou sua principal contribuição. Convidada por uma das psicólogas do projeto, conduziu rodas de conversa sobre emoções, reconhecimento de sentimentos e autocuidado. “Foi muito legal ver como elas vivem e se expressam. A confiança com os mais velhos foi sendo construída aos poucos”, contou.
O processo de conexão foi desafiador, já que muitos adolescentes se mostraram extremamente tímidos no início. Com o passar dos dias, Nathany começou a perceber sinais de abertura e transformação. Um dos momentos mais marcantes para ela foi o batismo de uma jovem que até então não se comunicava verbalmente, nem em pequenos grupos. “Ela não falava, mas no dia em que o pastor fez o apelo, com a igreja cheia, ela se levantou e decidiu entregar sua vida a Deus”, relatou com emoção.

Outra jovem que teve uma vivência intensa na missão foi Manoela Fuckner, de Cachoeirinha (RS). Mesmo com 17 anos, já coleciona outra experiência semelhante, vivida no passado, em uma missão promovida pela rede educacional adventista. Ainda assim, considera a viagem para a Amazônia como algo único e transformador. “Às vezes, ficamos tão encapsulados em nossa rotina e, então, Deus vai e nos tira da vida corrida para nos fazer viver em uma realidade completamente diferente”, refletiu a jovem. Segundo ela, os moradores ensinaram os voluntários a conviver como parte da comunidade das mais diversas formas. “Aprendemos a dirigir barcos, a pescar, a buscar madeira... Não era só sobre ajudar, era sobre pertencer”, enfatizou.
A missão teve um significado ainda mais especial para Manoela pois foi durante os dias vividos fora de casa que comemorou seu aniversário de 17 anos. A tripulação do barco improvisou um bolo, encheu balões e cantou parabéns. Em seguida, uma das famílias da vila lhe deu um pequeno remo de presente. “Achamos que vamos levar algo, mas quem mais recebe somos nós, em vários sentidos”, relembrou.
A espiritualidade esteve presente em todos os dias da missão, com cultos, orações e visitas às casas da comunidade. O ápice foi uma noite especial de evangelismo, que reuniu 45 famílias e resultou no batismo de cinco pessoas no rio — um marco inédito na história de Vila Monteiro. “Mais de 30 missões já passaram por lá, mas essa foi a primeira vez que houve batismos. Essa foi a essência do porquê fomos: deixar uma semente no coração das pessoas”, concluiu o pastor Wagner.
A missão foi encerrada com gratidão e o sentimento coletivo de que os dias vividos na Amazônia deixaram marcas eternas. Os jovens retornaram ao Rio Grande do Sul transformados, conscientes de que foram instrumentos de esperança para uma comunidade distante em termos de mapa, mas que permanecerá próxima do coração de cada voluntário. Para Nathany e Manoela, essa foi mais do que uma viagem: foi o início de uma nova forma de enxergar o mundo, o próximo e a própria fé.
