Igreja Adventista em Porto Alegre inaugura sala voltada à regulação emocional de autistas e outros públicos
"Sala da Calma", no templo do bairro Sarandi, em Porto Alegre, também pretende sensibilizar a comunidade sobre a importância da inclusão

A Igreja Adventista do Sétimo Dia do bairro Sarandi, em Porto Alegre, inaugurou na manhã do último sábado, 29, a primeira Sala da Calma em um templo da denominação no Rio Grande do Sul. O espaço foi criado para acolher pessoas neurodivergentes e outros membros que, por causa dos estímulos do culto, precisam de um ambiente de regulação emocional. A iniciativa integra o Ministério Adventista das Possibilidades (MAP), área da denominação voltada ao cuidado de públicos que enfrentam desafios específicos nas áreas sensorial, emocional, física e social.
Atuando em sete frentes – surdos, saúde mental e bem-estar, cegos e baixa visão, deficiência física e mobilidade reduzida, enlutados, cuidadores e crianças órfãs ou em situação de vulnerabilidade – o MAP busca garantir que cada grupo encontre pertencimento e condições adequadas de participação na vida comunitária. É dentro dessa lógica de inclusão ampla que a Sala da Calma se insere, como resposta direta às demandas apresentadas por famílias do distrito e à filosofia do ministério.
Na ocasião, os líderes do MAP para o Sul do Brasil e região central gaúcha, pastores Gustavo Marques e Wagner Willyam, respectivamente, compareceram a inauguração, mostrando apoio a iniciativa.
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Marques explicou que a criação de ambientes como esse reflete a prioridade de acolhimento da igreja. Após mencionar o receio comum de muitas famílias em participar de cultos por causa dos comportamentos naturais de crianças autistas, ele resumiu a mensagem que o espaço comunica. “A sala da calma não é um espaço para isolar, mas para acolher. Muitas mães de filhos autistas ficam com medo do julgamento da igreja, de acharem que o filho aparenta não estar se comportando, mas não tem nada a ver com isso. Esse filho precisa vir para um local seguro e acolhedor, onde ele possa regular suas emoções com menos estímulos. Então, um espaço como esse é um recado que a igreja dá a todas essas famílias dizendo assim: ‘podem vir para a nossa igreja, nós estamos preparados para receber vocês’”, analisa.
A implantação foi conduzida pela equipe local do MAP, liderada por Keiny Goulart, que explicou por que a igreja do bairro Sarandi entendeu que era hora de avançar nessa direção. “Entendemos que nós temos um público já com mais de 400 membros e, dentre eles, temos muitas pessoas neurodivergentes, pessoas com cadeira de roda, vivendo crises de ansiedade e outras singularidades”, afirmou. Ela destacou que a primeira responsabilidade da igreja era garantir acolhimento aos seus próprios membros antes de ampliar o alcance à comunidade. “Era necessário criar um espaço como esse para acolher primeiro os de dentro da igreja e depois abrir para a nossa sociedade”, ressalta a também cofundadora da Rede Adventista de Apoio a Família Autista (RAAFA).

O pastor distrital, Diego Stingelin, observou que a sala contempla demandas reais da comunidade e fortalece o serviço voluntário dos membros envolvidos no ministério. “De maneira local, isso contempla a necessidade real da igreja para as famílias, cuidadores, atendidos e também proporciona que os nossos membros voluntários do Ministério do MAP possam também prestar esse serviço, conscientizando a igreja sobre o acolhimento e abordagem necessária e correta”, explicou o líder espiritual.
Para ele, o ambiente em si também é importante por fazer com que famílias não precisem abreviar sua permanência no culto. “Existe uma oportunidade em que outras pessoas, famílias, que às vezes têm algum desafio devido a todo o movimento, o áudio, a equalização de som e a ambientalização do culto da igreja, possam também ter esse local de acolhimento sem ter que retornar para casa, ou seja, sem encurtar a presença aqui no culto e terem essa valorização que, como igreja, nós podemos aqui prestar também”, afirma o pastor.
O impacto do novo espaço
O espaço emocionou famílias que lidam diariamente com desafios sensoriais e motores. A mãe da Milena, Bruna Moraes, descreveu a inauguração como uma resposta às orações que já vinham sendo levadas à liderança. “A gente como família fica muito agradecido, né? É um presente que Deus está nos dando, contar com um espaço onde a gente consiga se regular e regular a criança. Nós temos uma filha com paralisia cerebral e não-verbal”, contou. Ao falar sobre o assunto, ela resgata memórias do passado e reflete sobre como a trajetória da família mostra como Deus ampara, mesmo nos desafios. “Quando eu me batizei aqui na igreja, eu estava grávida na Milena e eu realmente não sabia assim que ela seria uma criança tão especial para nós, mas Deus, em seu infinito amor, nos alcança com Sua graça em todos os detalhes”, celebra.
Bruna destacou que o espaço deve beneficiar várias realidades presentes no distrito. “É realmente algo incrível. A gente esperou muito por isso para que pudéssemos contar com um espaço, não só para a Milena, mas para as demais crianças que frequentam a nossa igreja — e não só as crianças, alguns adultos também que têm essa necessidade de regulação, né? Então, ter a disposição um espaço como esse é um presente, um privilégio e uma bênção de Deus", conta.

Para que esse momento seja efetivo, uma equipe de pessoas preparadas estará disponível em escala para atender quem necessitar. Inicialmente, o atendimento ocorrerá durante os cultos aos sábados — quando há maior concentração de famílias — com planos de estender a escala para domingos e quartas-feiras.
A psicopedagoga Magda Brittes, que integra a equipe de acolhimento, explica que é preciso reunir algumas qualidades para auxiliar na autorregulação de pessoas que necessitam de apoio momentâneo. “Além de disponibilidade e boa vontade, a pessoa precisa ter autoconsciência, autogestão, automotivação, empatia, habilidade social, humildade e paciência. É fundamental também que quem atende esteja emocionalmente equilibrado. Não adianta chegar estressado, porque quem precisa do atendimento pode estar em situação ainda mais delicada”, ressalta Magda, que também é estudante de psicologia.
Estrutura que atende vários públicos
A Sala da Calma foi projetada para atender um público amplo, indo além das necessidades de pessoas neurodivergentes. Magda reforça que o ambiente acolhe todas as sete áreas do MAP, incluindo pessoas com saúde mental fragilizada, órfãos e crianças em situação de vulnerabilidade, cegos e com baixa visão, surdos, enlutados, e indivíduos com deficiência física ou mobilidade reduzida. “Às vezes, a pessoa não está necessariamente vinculada a alguma dessas áreas. Basta estar sobrecarregada emocionalmente ou cansada. Pode ser gestante, idoso, enfim... Nesses casos, a pessoa pode permanecer na sala por 15 a 20 minutos e, se necessário, permanecer mais tempo. O importante é que consiga ter seu momento de regulação e tenha condições de retornar ao culto”, explica.
Para auxiliar na autorregulação, o espaço conta com diversos materiais sensoriais, como abafadores de som para quem tem sensibilidade auditiva, papel e lápis de cor para pintura, massinha de modelar e brinquedos sensoriais (fidget toys). No ambiente, também há óleo essencial de lavanda e balas de hortelã. O conforto é garantido por puffs e almofadas, e quem desejar isolamento temporário pode usar uma espécie de barraquinha individual, garantindo privacidade e tranquilidade.
Tons azuis
A escolha por tons azulados na sala está ligada à psicologia das cores. Keiny Goulart, que já auxiliou em espaços desse tipo em eventos itinerantes (como acampamentos para crianças e adolescentes), explica que a ideia de priorizar esse tipo de tom em iniciativas como essa veio de uma consultoria especializada em salas multissensoriais, comuns em locais de grande circulação. “Na época, a Igreja Adventista entrou em contato com uma empresa responsável por salas desse tipo que existem em aeroportos — mas onde pessoas neurodivergentes podem passar 8, 10 ou 12 horas nesses ambientes devido às escalas de voos. O proprietário nos orientou sobre a aplicação da psicologia das cores, no caso, com o azul, que transmite, de fato, uma sensação de calma e de tranquilidade, e os tipos de objetos a serem utilizados, mas adaptados à nossa realidade, com o objetivo de que a pessoa tenha seu momento de regulação e consiga retornar ao culto”, detalha Keiny.

Durante a programação de inauguração, Keiny conduziu uma mensagem sobre o papel do Ministério das Possibilidades e exemplos de como Jesus acolhia pessoas diversas. Para Bruna, a reflexão reforçou a essência do evangelho. “Hoje, assistindo a pregação que Keiny trouxe, eu terminei em lágrimas, né, porque Jesus é isso, né? É sobre trazer todos para perto, né? Todos aqueles que precisam”, reflete. Bruna também lembrou de sua própria história para explicar o quanto essas iniciativas fazem diferença. “Além de ser mãe atípica, ter uma família atípica, eu também fui uma criança órfã. Então, já enfrentei o luto, já enfrentei a questão da vulnerabilidade... Então, saber que tem ministérios que hoje em dia estão responsáveis de tentar administrar de uma melhor forma questões que são tão difíceis, em que às vezes as pessoas se sentem tão abandonadas, é claramente isso mesmo, né? Ver Jesus em todos os detalhes”, conclui.
Com a inauguração, a igreja do Sarandi se torna a primeira comunidade adventista do estado a oferecer um ambiente estruturado para esse tipo de acolhimento. Ela se une a outras igrejas que possuem iniciativas semelhantes, como uma em Itajaí, outra no Rio de Janeiro e também em Brasília. A expectativa é que o espaço não só fortaleça a inclusão de famílias que antes precisavam se ausentar do culto, mas também inspire outras congregações a desenvolver iniciativas da mesma natureza.