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Especialista comenta estudo sobre dinossauros na Bolívia

Pesquisa realizada por adventistas no país sul-americano traz mais dados sobre os curiosos animais, a partir de pegadas que estão sob estudo.


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Pegadas chamam a atenção na região e resultados se tornaram objeto de atenção em importantes publicações científicas (Foto: Instituto de Pesquisa em Geociências).

Instituto de Pesquisa em Geociências (GRI) anunciou recentemente a publicação de um estudo de grande relevância conduzido por Raúl Esperante, cientista sênior do instituto, na revista de acesso aberto PLOS One. Foram documentadas mais de 16.000 pegadas de dinossauros no sítio Carreras Pampas, na Bolívia, atualmente considerado o maior sítio de pegadas de dinossauros já registrado.

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A descoberta registra uma ampla variedade de atividades desses animais ao longo de uma antiga linha costeira, incluindo caminhada, corrida, natação, curvas acentuadas e marcas de arrasto de cauda. A pesquisa descreve pegadas que variam de menos de 10 centímetros a mais de 30 centímetros, deixadas principalmente por terópodes tridáctilos.

Para entender o que significa essa descoberta, a Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) conversou com Michelson Borges. Ele é pastor, jornalista e pós-graduado em Biologia Molecular pela Universidade Cândido Mendes. É autor de vários livros sobre criacionismo, história e mídia e é editor da revista Origens, além de manter desde 2005 o blog www.criacionismo.com.br.

Importância

Por que essa pesquisa é importante para a paleontologia em geral?

Do ponto de vista da paleontologia, essa pesquisa é extremamente relevante, porque vai além da simples identificação de fósseis e entra no campo da icnologia, que é o estudo dos vestígios de atividade biológica, como pegadas e trilhas. Diferentemente de ossos isolados, as pegadas preservam comportamento em tempo real. Elas registram como os dinossauros se moviam, interagiam com o ambiente e, possivelmente, entre si.

No caso específico de Carreras Pampas e de Torotoro, o volume e a diversidade das pegadas – milhares de trilhas contínuas, marcas de corrida, curvas fechadas, possíveis rastros de natação e até arrasto de cauda – oferecem um conjunto de dados raro em escala global. Isso permite análises estatísticas mais robustas, algo incomum em sítios icnofossilíferos (vestígios ou traços de atividades biológicas de organismos antigos preservados em rochas).

Além disso, a excelente preservação das superfícies, associada a estruturas sedimentares como marcas de ondulação, ajuda a reconstruir com mais precisão o ambiente deposicional. Para a paleontologia tradicional, isso contribui para refinar modelos sobre ecologia, biomecânica e dinâmica ambiental dos dinossauros, especialmente no período cretáceo.

Modelo criacionista

Existe relação dessa pesquisa com o modelo criacionista?

Existe, sim, uma relação, não no sentido de provar o criacionismo, mas de oferecer dados compatíveis com a leitura criacionista da história da Terra. Estive em Torotoro em 2024.  Uma das coisas que mais chamou minha atenção foi o padrão recorrente de superfícies extensas, plano-paralelas. Há milhares de pegadas preservadas em sequência, muitas vezes sobrepostas, sem sinais claros de erosão prolongada entre uma camada e outra. Ou seja: a catástrofe hídrica que sepultou aquela quantidade enorme de pegadas ocorreu num mesmo período.

Do ponto de vista criacionista, esses dados são interpretados como compatíveis com eventos sedimentares rápidos e de grande escala, em vez de deposição lenta ao longo de milhões de anos em ambientes estáveis. A presença de pegadas bem preservadas exige condições muito específicas: sedimento úmido no momento da passagem do animal e rápido soterramento posterior, antes que chuva, ondas ou outros animais destruíssem os rastros.

Descobertas futuras

O que ainda se pode esperar, no futuro, quanto a novas descobertas sobre os dinossauros?

Com base no que observei em campo e nas conversas com pesquisadores experientes, estamos apenas no começo. Muitos sítios na Bolívia ainda estão parcialmente expostos ou sequer mapeados, o que significa que novas superfícies com trilhas extensas provavelmente serão reveladas com o avanço da erosão natural ou de estudos sistemáticos.

No futuro, esperamos avanços principalmente em três áreas. Primeiro, análises mais refinadas de comportamento, incluindo padrões de deslocamento em grupo, mudanças de velocidade e interação com ambientes aquáticos. Em segundo lugar, o uso crescente de tecnologias digitais, como fotogrametria, escaneamento 3D e modelagem computacional, que permitem estudar as pegadas sem danificar os sítios e compartilhar os dados globalmente. Terceiro, uma integração maior entre icnologia, sedimentologia e geofísica, o que pode esclarecer ainda mais como essas camadas foram formadas em escala regional.

Do ponto de vista criacionista, essas pesquisas também devem contribuir para modelos mais detalhados sobre a dinâmica do dilúvio, rotas de migração pré-cataclísmica e padrões de soterramento rápido. Em qualquer cosmovisão, o que fica claro é que os dinossauros ainda têm muito a nos ensinar.

Cientistas adventistas

Qual a importância dessa pesquisa feita por cientistas adventistas na Bolívia?

Do meu ponto de vista, a importância dessa pesquisa conduzida por cientistas adventistas na Bolívia é múltipla e estratégica, tanto no campo científico quanto no educacional e institucional.

Em primeiro lugar, ela demonstra que cientistas adventistas não atuam à margem da ciência, mas participam ativamente da produção de conhecimento revisado por pares, publicando em periódicos internacionais respeitados, como a PLOS One. Isso é fundamental para romper o falso estereótipo de que a pesquisa criacionista seria apenas opinativa ou apologética. Estando no campo e acompanhando o rigor metodológico – mapeamento detalhado, medições precisas, análise sedimentológica e documentação sistemática das trilhas –, ficou claro para mim que o padrão científico adotado é o mesmo exigido em qualquer grande projeto paleontológico internacional.

A pesquisa é importante porque coloca a cosmovisão bíblica em diálogo honesto com os dados empíricos, sem forçar conclusões dentro do artigo científico, mas também sem abdicar da identidade criacionista dos pesquisadores. O estudo apresenta os fatos observáveis (milhares de pegadas, padrões de locomoção, contexto sedimentar) e permite que esses dados sejam posteriormente discutidos à luz de diferentes modelos interpretativos. Para a Igreja Adventista, isso é crucial: mostra que fé e ciência não precisam competir, mas podem caminhar juntas com integridade e honestidade intelectual.

Outro ponto central é o impacto formativo e missional da pesquisa. O trabalho na Bolívia tem servido como laboratório vivo para a formação de estudantes, jovens pesquisadores, educadores e líderes adventistas. Estar no local, ver as evidências, aprender como se faz ciência de campo e entender as limitações e potencialidades dos dados transforma a maneira como muitos encaram tanto a Bíblia quanto a ciência. Não se trata apenas de defender ideias, mas de educar para o pensamento crítico e responsável.

Além disso, a pesquisa fortalece a credibilidade institucional do Instituto de Pesquisa em Geociências (GRI) e da própria Igreja Adventista no cenário acadêmico e público. A ampla repercussão na mídia internacional mostra que o trabalho tem relevância real e desperta interesse além dos círculos religiosos. Isso amplia o alcance do diálogo sobre origens e oferece à sociedade uma contribuição concreta, com base em dados e não apenas em discursos.

Por fim, considero essa pesquisa importante porque ela ajuda a igreja a ocupar seu espaço histórico no debate sobre as origens, não por meio de confronto ideológico, mas de investigação séria da natureza. Ao fazer ciência com excelência, transparência e fidelidade aos princípios bíblicos, os cientistas adventistas na Bolívia estão mostrando que é possível defender a fé sem medo das evidências, e investigar as evidências sem renunciar à fé.

Vídeo sobre expedição realizada em Torotoro: