Entre vozes acordes e frequências
Segundo Encontro de Músicos e Sonoplastas reuniu cerca de 400 participantes para capacitação e reflexão sobre o papel da música e da sonoplastia nas igrejas.

Uma música pode marcar uma infância. Uma letra pode atravessar gerações. Uma voz pode ajudar alguém a permanecer na fé. Mas, entre aquilo que é cantado e aquilo que chega aos ouvidos de quem está sentado na igreja, existe também um universo de instrumentos, cabos, frequências, microfones, mesas de som e pessoas que quase nunca aparecem.
No último sábado (08), esses diferentes lados da música estiveram no mesmo lugar.
Cerca de 400 pessoas participaram do 2º Encontro de Músicos e Sonoplastas da Associação Sul-Mato-Grossense (ASM) da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), realizado no Teatro Dom Bosco, em Campo Grande. A programação reuniu cantores, instrumentistas, líderes e equipes de sonoplastia de diferentes regiões de Mato Grosso do Sul para momentos de capacitação, troca de experiências e reflexão sobre música e adoração.
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Entre os participantes estava Jaciene Gabriel, de 34 anos, da IASD do Jardim Carioca. Ela canta desde pequena, mas foi por volta dos 14 anos que começou a se envolver de maneira mais ativa com a música.
Sua relação com o canto, no entanto, vai além do microfone.
Durante um período de sua vida, seus pais deixaram de frequentar a igreja. Jaciene permaneceu. E, segundo ela, a música teve participação importante nessa caminhada.
Hoje, ela enxerga no próprio ministério uma possibilidade de fazer por outras pessoas aquilo que a música fez em sua história.

“Por muito tempo, meus pais não frequentaram a igreja. Eles saíram e eu acabei ficando. A música foi muito importante para mim”, conta.
Participando do encontro pelo segundo ano consecutivo, Jaciene escolheu o workshop direcionado aos cantores. “Sou fã de carteirinha do evento. Quando falam que vai ter essa programação, fico esperando ansiosa.”
Se para Jaciene a história passa por quem está diante do microfone, para Jorlando Rodrigues dos Santos ela acabou chegando ao outro lado dele.
Membro da IASD Central de Naviraí, Jorlando atua há cerca de oito anos na sonoplastia. Curiosamente, tudo também começou pela música.
“Comecei na parte do canto. Quando passei a cantar com quartetos, a gente viajava e tinha o nosso próprio som. Precisávamos aprender a fazer as regulagens para realizar as programações. Foi aí que comecei a me apaixonar pela sonoplastia”, relembra.
Com o tempo, ele percebeu que uma boa programação também depende de quem está atrás da mesa de som. E, algumas vezes, basta um ruído para isso ficar evidente.
“A gente vê programações excelentes, a pessoa está pregando bem e, no momento de um apelo, surge uma microfonia. Aquilo dispersa. As pessoas percebem o erro, olham para quem está no som e a atenção se perde”, explica.
Para Jorlando, técnica e propósito não estão separados. “A sonoplastia faz parte de um conjunto para que a Palavra de Deus seja apresentada com qualidade. É isso que Deus merece.”

Além do que se ouve
Mesmo depois de anos atuando na área, Jorlando afirma que ainda existe muito para aprender. Também participante da primeira edição, ele voltou ao encontro e encontrou novos conteúdos, especialmente nas atividades práticas de equalização e operação de mesas de áudio.
“Por mais que eu tenha sete, oito anos trabalhando com isso, teve coisa que foi apresentada aqui que eu não sabia. Estou aprendendo agora.”
Essa integração entre conhecimento técnico e música foi um dos principais objetivos da programação.
Para o pastor Diego Mendes, responsável pelos ministérios de Música da ASM, músicos e sonoplastas não devem funcionar como equipes isoladas dentro das igrejas.
“São duas áreas que precisam trabalhar de comum acordo e de forma muito próxima. Quando a equipe de sonoplastia está bem alinhada com a equipe de música, elas conseguem proporcionar uma adoração mais objetiva, que realmente alcance o propósito de aproximar os adoradores da presença de Deus”, afirma.
Este foi o primeiro encontro realizado desde que Diego assumiu o departamento. Para ele, reunir cerca de 400 participantes também demonstra o interesse pela capacitação nessas áreas.
“Foi uma das experiências mais especiais que vivi. Tenho certeza de que todos estão retornando às suas igrejas levando grandes aprendizados. Precisamos continuar investindo e realizando momentos como esse para que essa área siga crescendo.”

Um dos convidados especiais da programação foi o cantor Weslley Fonseca, da gravadora Novo Tempo, integrante do trio Discípulos e apresentador do programa Caixa de Música na TV Novo Tempo. Mesmo com uma trajetória profissional ligada à música, Wesley aponta para a igreja local quando fala sobre onde tudo começa.
“Falar para a igreja, para mim, é um senso de retorno à base. Eu vim da igreja.”
Segundo ele, as comunidades locais também funcionam como espaços de descoberta para crianças, adolescentes e jovens que começam a cantar, tocar instrumentos ou desenvolver outras habilidades.
“As igrejas são uma grande escola. É o lugar onde o jovem, onde a pessoa que quer se envolver com música, aprende e percebe que existe um espaço reservado para ela.”
É uma experiência que Weslley reconhece na própria trajetória.
“Com as oportunidades que me foram dadas, fui percebendo que a música seria a ferramenta que eu usaria. Foi por conta da música que descobri o amor de Deus.”

Por isso, retornar a encontros voltados a quem vive a rotina musical das igrejas também representa reencontrar histórias semelhantes à sua.
“É lindo falar com esse povo de igreja por saber que as histórias estão se repetindo.”

Música que atravessa gerações
Se a igreja é uma escola, como define Wesley, nela também convivem alunos de diferentes gerações. E isso significa reunir formas distintas de ouvir, fazer e compreender a música.
O pastor e músico Sullivan Dutra, diretor do grupo Novo Tom e um dos convidados do encontro, abordou justamente essa convivência entre o tradicional e o contemporâneo.
Para ele, antes da discussão sobre estilos, é preciso compreender as diferentes funções da música.
“A principal função é adorar a Deus, mas ela também tem uma função evangelística. Quando falamos dessa função, estamos dizendo que a música é uma ferramenta que carrega teologia”, explica.

Nesse cenário, Sulivan considera que estilos e formas de apresentação podem variar sem que o propósito seja abandonado.
“Muitas vezes essa música vem com uma embalagem um pouco mais moderna, outras vezes com uma embalagem mais tradicional, mas ela não pode perder a essência. A essência é louvar ao Senhor e transmitir a teologia através da música.”
Para explicar como essas diferenças podem conviver dentro de uma mesma comunidade, ele recorre à imagem de uma família.
“A música faz parte da família. E, como toda família, temos o vovô, a vovó, o netinho, a netinha. É um desafio caminhar por todos esses ambientes, mas precisamos caminhar.”
E é justamente na família que a música encontra outra de suas características: a capacidade de guardar memórias.
“Existem várias músicas que canto hoje e que me fazem lembrar da minha infância. Lembro da fé da minha avó, lembro da fé do meu avô”, afirma Sulivan.

Para ele, em uma rotina cada vez mais acelerada, recuperar o hábito de cantar em casa também pode ajudar a aproximar diferentes gerações.
“A música está muito ligada à memória e à lembrança. Hoje a vida é corrida, mas precisamos separar tempo como família para cantar juntos, porque a música também traz esse resgate da fé da nossa família.”
Além dos workshops e palestras, o 2º Encontro de Músicos e Sonoplastas contou com apresentações musicais e a participação de uma orquestra formada por músicos de Campo Grande.



Ao fim da programação, instrumentos voltaram aos estojos. Microfones foram desligados. Cabos foram enrolados. A mesa de som, depois de horas de trabalho, também silenciou.