Encontros regionais no RS motivam professores de Escola Sabatina a serem amáveis e acolhedores
Com palestras, homenagens, testemunhos e batismos, eventos em Porto Alegre e Santa Maria reuniram mais de 800 voluntários e reforçaram o papel do professor como alguém que ensina, cuida e discipula

Quando Cláudia Abreu entrou no tanque batismal, em Porto Alegre, sua história já havia começado muito antes daquele momento. Começou em orações e jejuns, enquanto pedia a Deus que a conduzisse a uma igreja onde pudesse conhecer mais profundamente a Bíblia. Em meio a essa busca, conheceu Clara Machado em uma unidade de atendimento de saúde. Ao perceber que Clara lia um livro adventista, iniciou uma conversa e mencionou que já acompanhava mensagens bíblicas apresentadas pelo pastor Rodrigo Silva. Clara ofereceu literatura cristã, fez o convite para que ela conhecesse uma igreja adventista e abriu uma porta que, pouco depois, levaria Cláudia ao templo localizado no bairro Rubem Berta, em Porto Alegre.
Ali, a caminhada ganhou novos contornos e o cuidado de Loiva Oliveira. Em um período de desemprego e dificuldades financeiras, Cláudia encontrou nela apoio, incentivo, amizade e ajuda prática para continuar participando das programações da igreja. “Se não fosse ela e esse sentimento que ela tem, tão humana, eu não teria conseguido continuar”, resume. Hoje, já batizada, Cláudia se prepara para atuar no Ministério da Criança, iniciou sua formação em Pedagogia e também começou a estagiar na rede educacional adventista.
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Na edição de Santa Maria, outra história deu forma à mesma mensagem. Janete Benvenhu, moradora de Nova Esperança do Sul, conta que o nome da Igreja Adventista havia surgido em sua vida cerca de dez anos antes, por meio de Ênio Marques, colega de faculdade de sua filha, que não frequentava aulas nas noites de sexta-feira. Anos depois, sua cunhada Genecilia Benvegnu também contribuiu para aproximá-la da igreja. Mas o ponto de virada ocorreu em junho de 2025, quando Adriano Lentz, professor da Escola Sabatina, começou a trabalhar na mesma empresa que ela.

Depois de um período sem emprego fixo e de muitas orações por uma oportunidade em que pudesse ser útil à obra de Deus, Adriano foi contratado justamente no local onde Janete trabalhava. A convivência abriu espaço para conversas, entrega de materiais cristãos, indicação de leituras e estudos bíblicos. “O Adriano me pediu para lhe mostrar o caminho da igreja, mas foi ele quem me mostrou o caminho para Deus”, afirma Janete. Ao passar a frequentar a Igreja Adventista Central de Santiago, ela encontrou uma rede de apoio formada por professores da Escola Sabatina e líderes da igreja, entre eles Hernani B. da Silva, Ênio Marques, André Sfalcin e o pastor Ronaldo Lima. Para ela, ver esses “professores maravilhosos” presentes em seu batismo, acompanhando sua decisão, “foi o maior presente”.
Os batismos de Cláudia, em Porto Alegre, e Janete, em Santa Maria, não foram apenas momentos de encerramento das duas edições do Encontro de Professores de Escola Sabatina. Eles resumiram, na prática, a principal mensagem apresentada aos participantes: o professor da Escola Sabatina não é apenas alguém que repassa ou recapitula o estudo semanal. É alguém chamado a ensinar, acolher, acompanhar e pastorear pessoas.
Com essa ênfase, centenas de professores voluntários participaram dos encontros regionais promovidos para realinhar a missão e as práticas da Escola Sabatina no centro do Rio Grande do Sul. A primeira edição ocorreu no sábado, 23, no Colégio Adventista Marechal Rondon, em Porto Alegre, reunindo 550 voluntários. O segundo encontro foi realizado no dia 30, no auditório do Hotel Morotin, em Santa Maria, com a participação de outros 330 professores.
Em Porto Alegre, a abertura ficou a cargo do pastor Ilson Geisler, presidente da Igreja Adventista no centro do Rio Grande do Sul. Ele destacou o poder unificador da Escola Sabatina, lembrando que a lição é estudada mundialmente, alcança diferentes faixas etárias e níveis de compreensão, e ajuda a manter a identidade bíblica e doutrinária da igreja. Segundo Geisler, a Escola Sabatina fortalece a comunhão em torno da Palavra, amplia o senso de missão e ajuda cada membro a compreender seu papel na vida espiritual e missionária da comunidade.
Quatro pilares para pastorear a classe

O conceito do professor como pastor local foi aprofundado por Fábio Correia, líder de Escola Sabatina para o Sul do Brasil. Ele apresentou quatro pilares fundamentais para o pastoreio na unidade de ação: cuidado, relacionamento, missão e discipulado. A proposta reforça que o professor não deve limitar sua atuação ao momento da recapitulação da lição, mas acompanhar a vida espiritual dos alunos, perceber ausências, promover vínculos e incentivar cada participante a viver a fé de forma prática.
Correia também relacionou essa atuação às prioridades estratégicas da Igreja Adventista para os próximos anos: identidade, liderança, discipulado e novas gerações. Dessa forma, o trabalho desenvolvido nas classes foi apresentado como parte essencial da missão da igreja, não apenas como uma atividade semanal ou departamental.
Na sequência, Evandro Silva, líder de Escola Sabatina no centro do Estado, apresentou a dinâmica da Escola Sabatina Viva, iniciativa que busca equilibrar ensino, cuidado e relacionamento. Ele alertou que uma das razões para a queda na frequência das classes está na transformação da recapitulação em um monólogo, muitas vezes semelhante a um segundo sermão antes do culto divino. Para tornar o momento do estudo mais vivo, defendeu uma condução mais participativa, com espaço para diálogo, interação e aplicação prática da lição. Ao mesmo tempo, reforçou que a vitalidade da Escola Sabatina também depende de vínculos construídos fora da classe, por meio de visitas aos lares, encontros sociais e momentos de convivência, a exemplo do tradicional “junta panelas”.
Acolhimento que vai além da classe
A importância do acolhimento foi ilustrada no palco por meio de uma encenação realizada por jovens. A peça reproduziu a história real de Lucas, um recém-chegado que, ao ser recebido sem pressões por membros como o jovem Vitor, sentiu-se parte do grupo, estudou a Bíblia, foi batizado e, posteriormente, tornou-se também um discipulador. Se a história de Lucas mostrou o impacto do primeiro acolhimento, o vídeo-testemunho de Normélio, conhecido como Melo, apresentou a importância do cuidado contínuo. Depois de passar anos afastado da igreja, ele decidiu retornar e encontrou na classe da professora Eliane, que atua na Escola Sabatina em Garibaldi há cerca de 28 anos, um ambiente de acompanhamento constante.
Mais do que receber materiais de estudo, Melo foi cuidado de forma pessoal. A professora mantinha contato com ele, fazia ligações nos fins de semana e o integrou a encontros extraclasse, fortalecendo vínculos que ajudaram a consolidar seu retorno definitivo e sua permanência na comunidade ao longo dos últimos sete anos. O testemunho mostrou, na prática, como o professor pode contribuir não apenas para o ensino da Bíblia, mas também para a retenção, o cuidado e o amadurecimento espiritual dos alunos.
Na mesma linha, o pastor Wagner Willyam orientou os professores da Classe Jovem a abandonarem o papel de meros transmissores de conteúdo para se tornarem mediadores de diálogo. Segundo ele, o bom professor precisa “motivar antes, mediar durante e desafiar depois”, conduzindo os jovens a interagir com o tema estudado e, principalmente, a praticar durante a semana aquilo que foi aprendido na classe.
Crianças, adolescentes e formação espiritual
No âmbito do Ministério da Criança e do Adolescente, Samara Zabel apresentou o novo currículo Vivos em Jesus, criado pela autora Nina Atcheson. Ela explicou que as lições são estruturadas em três pilares práticos: Graça, Caráter e Missão. A proposta, segundo Zabel, é ajudar crianças e adolescentes a compreenderem o amor de Deus, desenvolverem valores cristãos e participarem da missão desde cedo.
A líder também lembrou que professores de crianças e adolescentes não são apenas contadores de histórias. Eles participam diretamente da formação moral e espiritual das novas gerações. “Cada gesto de amor pode marcar eternamente o coraçãozinho de uma criança”, declarou, ao reforçar que a maneira como a igreja ensina também comunica cuidado, segurança e pertencimento.
Ensino com profundidade e preparo
Para que o pilar do ensino seja sólido, o doutor em Teologia Vanderson Domingues incentivou os professores a não se acomodarem com um conhecimento superficial da Bíblia. Lembrando que “a verdade é progressiva”, ele destacou a importância de estudar o texto bíblico com mais profundidade, considerando contextos culturais, recursos de linguagem e formas de expressão presentes nas Escrituras. A ênfase foi na responsabilidade de ensinar com fidelidade, clareza e relevância, conduzindo os alunos a uma compreensão mais madura e aplicável da Palavra de Deus.
Domingues reforçou que o professor da Escola Sabatina precisa buscar intimidade com a Palavra para “manejar bem a palavra da verdade” e, assim, conduzir os alunos a uma compreensão mais madura e encantadora da Bíblia. A ênfase não foi apenas no domínio do conteúdo, mas na responsabilidade espiritual de ensinar com fidelidade, clareza e relevância.
Reconhecimento a quem ensina há décadas
Além das palestras e dinâmicas, os encontros também reservaram momentos de homenagem a professores com mais de 15 anos de atuação voluntária e àqueles com maior trajetória no ministério do ensino. Em Porto Alegre, foram aplaudidos de pé voluntários como Orivaldo Marques, com 37 anos de serviço, Teresa Leal de Souza, com 50 anos, e dona Vera Genes dos Santos, homenageada por seus 62 anos lecionando na Escola Sabatina.

A programação também contou com a formatura de dezenas de voluntários que concluíram um curso on-line de capacitação para professores, oferecido pela sede da Igreja Adventista para o Sul do Brasil. O projeto já alcançou 27 mil visualizações e tem contribuído para ampliar o preparo de quem atua semanalmente nas classes.
O foco está nas pessoas
Na reta final, Evandro Silva fez um paralelo com a trajetória da Kodak, marca que se tornou símbolo de perda de foco diante de mudanças que já estavam diante dela. A comparação serviu como alerta para que a Escola Sabatina preserve sua essência sem se prender a métodos que, com o tempo, podem deixar de cumprir plenamente sua finalidade. Segundo o líder, o risco não está em valorizar a lição, os registros ou a organização, mas em permitir que esses elementos ocupem o lugar das pessoas. “O foco da Escola Sabatina está nas pessoas. Não está na lição, não está nos registros, não está no conteúdo. O foco principal está nas pessoas, porque foi pelas pessoas que Deus derramou o Seu precioso sangue”, ressaltou.
Após os batismos, nas duas edições, Evandro Silva conduziu um apelo aos professores, convidando-os a se colocarem nas mãos de Deus como instrumentos de acolhimento, ensino e discipulado. A reflexão apontou para a esperança de que, na eternidade, muitas pessoas possam reconhecer que a atitude espiritual e cuidadosa de um professor da Escola Sabatina fez parte do caminho que as aproximou de Cristo. Em seguida, o jornalista e cantor Willian Vieira interpretou uma versão adaptada da música “Obrigado”, gravada por Fernando Iglesias, com uma letra voltada à influência de professores que ensinam com amor e ajudam a conduzir vidas ao Reino de Deus.
