El Niño forte: os riscos climáticos e a reflexão da fé
Doutor e pesquisador em tecnologia ambiental e recursos hídricos analisa riscos do El Niño e o cuidado com a criação

O Centro de Previsão Climática (CPC), da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), confirmou em seu boletim de agosto de 2026 que o El Niño está ativo e deve se intensificar até o fim do ano, com 97% de probabilidade de persistir até o início do outono de 2027. O fenômeno, que se origina do aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, tende a intensificar extremos climáticos em diferentes regiões do planeta. Essexs extremos vão desde chuvas volumosas a estiagens prolongadas. Isso volta a colocar em alerta gestores públicos, comunidades e instituições.
Para entender o que significa o fenômeno, a Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) conversou com Alesi Teixeira Mendes, doutor em Tecnologia Ambiental e Recursos Hídricos pela Universidade de Brasília (UnB) e mestre em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), instituição onde também se formou engenheiro civil. Atualmente, ele é pesquisador na Diretoria de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais (Dirur) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e engenheiro civil no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Ele também integra o grupo Cientistas Adventistas, iniciativa que reúne pesquisadores adventistas dedicados a dialogar sobre ciência e fé.
Leia também:
Na entrevista a seguir, ele explica os mecanismos por trás do El Niño, os riscos concretos para a América do Sul e as medidas de prevenção mais eficazes. Ao final, propõe uma breve reflexão sobre o que o fenômeno pode revelar a respeito da responsabilidade humana com a criação.
Como o senhor explicaria o que é o El Niño e por que ele altera o clima em continentes inteiros?
O El Niño é um fenômeno natural que tem a ver com o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. O impacto dele é tão abrangente porque esse aquecimento acarreta modificação da circulação atmosférica. Ele modifica a direção dos ventos, por assim dizer, e isso altera a formação de nuvens, os regimes de chuva e a distribuição de calor em escala global.
Estamos vivendo um episódio classificado como forte. O que isso significa na prática?
Um episódio é classificado como forte ou fraco em termos comparativos. Isso significa que as anomalias de temperatura identificadas estão significativamente acima da média histórica. Na prática, isso aumenta a probabilidade de ocorrência de extremos climáticos. Não significa que todas as regiões sofrerão impactos severos, mas que eventos como chuvas intensas, estiagens prolongadas, ondas de calor e alterações na disponibilidade de água se tornam mais prováveis. É importante lembrar que a intensidade do El Niño não determina, sozinha, a intensidade dos impactos locais. Outros fatores atmosféricos e oceânicos também influenciam o clima regional.
Quais regiões da América do Sul tendem a ser mais impactadas, por chuva excessiva ou seca?
Os efeitos variam, mas há padrões relativamente conhecidos. Em geral, o sul do Brasil, Uruguai e parte do norte da Argentina tendem a registrar chuvas acima da média, aumentando o risco de enchentes e deslizamentos. Já a Amazônia e partes do Norte brasileiro costumam enfrentar redução das chuvas, favorecendo secas e queimadas. No Nordeste, principalmente sua porção setentrional, também costuma apresentar chuvas abaixo da média. Países da costa oeste da América do Sul, como Peru e Equador, também podem sofrer episódios intensos de chuva.
Quais os riscos mais concretos do ponto de vista da engenharia ambiental?
Os impactos são bastante abrangentes. Eu diria que os principais riscos são de natureza geohidrológica, ou seja, envolvendo a água, seja pelo excesso ou escassez, e os movimentos de terra. Entre os principais riscos estão as enchentes urbanas, os deslizamentos de encostas e os processos erosivos. Mas outros derivados, por exemplo, da redução das chuvas, podem ser a redução dos níveis de reservatórios e, se prolongada a estiagem, o comprometimento do abastecimento de água. Além disso, o aumento do risco de incêndios florestais.
Há diferenças entre este episódio e os anteriores (2015–2016 e 2023–2024) que preocupem os pesquisadores?
Cada episódio possui características próprias. O evento de 2015–2016 foi um dos mais intensos já registrados e teve repercussões globais importantes. Já o de 2024 também apresentou forte intensidade, ocorrendo em um contexto de temperaturas oceânicas globais excepcionalmente elevadas. O que mais preocupa, em geral, é compreender como um planeta mais aquecido pode modificar os impactos futuros do El Niño. Ainda há muitas pesquisas em andamento sobre essa interação, e não existe consenso de que todos os eventos futuros serão necessariamente mais intensos.
Qual a relação entre El Niño e mudanças climáticas de origem humana?
São fenômenos diferentes. O El Niño faz parte da variabilidade natural do sistema climático. Já as mudanças climáticas decorrem principalmente das emissões humanas de gases de efeito estufa, que elevam a temperatura média do planeta. Hoje, muitos cientistas entendem que essas mudanças podem intensificar alguns impactos associados ao El Niño, como ondas de calor mais severas ou chuvas mais intensas em determinadas regiões. Entretanto, ainda há incertezas sobre como o aquecimento global influencia a frequência ou a intensidade do próprio fenômeno.
Que preparação realmente ajuda a mitigar danos?
A melhor resposta combina infraestrutura, planejamento e informação. As ações de prevenção mais comuns são: monitoramento meteorológico contínuo, sistemas eficientes de alerta precoce, manutenção de redes de drenagem urbana e proteção de encostas vulneráveis. Mas outras medidas igualmente importantes envolvem o planejamento multissetorial, como o desenvolvimento e aplicação de planos municipais de contingência, ocupação adequada do solo, evitando áreas de risco, e fortalecimento da Defesa Civil. Investimentos em prevenção costumam ser muito mais eficientes e econômicos do que reconstruir após um desastre.
Que orientações práticas o senhor daria a instituições e comunidades?
Para instituições, a principal recomendação é trabalhar com planejamento antecipado, utilizando previsões climáticas para orientar decisões sobre infraestrutura, abastecimento e resposta a emergências. Para a população, vale acompanhar os alertas oficiais, evitar ocupações em áreas de risco, economizar água quando houver perspectiva de estiagem e seguir as orientações dos órgãos responsáveis durante eventos extremos. É importante lembrar que os impactos do El Niño são prolongados e não se trata de um evento pontual isolado.
Como conciliar o olhar científico com uma visão de fé diante de fenômenos como este?
Essas perspectivas não precisam ser vistas como opostas. A ciência ajuda a entender como o mundo funciona. E a fé, dentre outras coisas, envolve responsabilidade e ética diante da criação.
Esse fenômeno aponta para alguma responsabilidade humana de cuidado com a criação?
Eventos como o El Niño nos lembram como nossas vidas estão profundamente relacionadas à criação. Do ponto de vista ambiental, isso reforça a importância de proteger ecossistemas, reduzir a vulnerabilidade das cidades, planejar o uso do solo e enfrentar as causas das mudanças climáticas. Esse compromisso pode ser entendido como uma expressão do cuidado com a criação e da responsabilidade pelas gerações futuras.
Você também pode receber esse e outros conteúdos diretamente no seu dispositivo. Assine nosso canal no Telegram ou no WhatsApp.
Quer conhecer mais sobre a Bíblia ou estudá-la com alguém? Clique aqui e comece agora mesmo.