Do silêncio ao recomeço: uma história de superação com o Quebrando o Silêncio
Entre o bullying, a solidão e a raiva, ele encontrou amizade, esperança e um Deus que restaura
“Eu achava que podia parar quando quisesse. Mas, na verdade, estava dependente das telas e perdi o controle de tudo. O pior é que não percebia o mal que isso me fazia, nem o quanto minha família sofria.”
O relato é de Maurício (nome fictício para preservar sua identidade), que encontrou na internet um passatempo aparentemente inofensivo, contudo acabou vivendo uma das piores experiências em sua adolescência.
Neste mês, marcado pela campanha Quebrando o Silêncio, projeto educativo e social que há mais de 20 anos atua na prevenção e combate à violência e aos abusos contra idosos, mulheres e crianças, a história de Maurício serve como alerta: perigos podem se esconder atrás de hábitos comuns.
Infância comprometida
Sempre fui muito ativo, adorava jogar futebol e brincar. Por volta dos 4 anos, para me entreter e fazer o que precisavam, meus pais colocavam desenhos na televisão ou no celular.
Aos 9 anos descobri novos jogos, a maioria deles por meio de alguns amigos que já tinham celular próprio. Como meus pais não tinham intensão de me dar um, aproveitava as oportunidades para usar o deles e instalava aplicativos sem que percebessem.
Com a pandemia veio o estresse, o medo, o isolamento e o excesso de energia sem poder gastar. Isso me deixou muito mal. As aulas online fizeram meus pais comprarem um computador para pesquisas e trabalhos, mas logo virou meu passatempo favorito.
Assim que a vida voltou ao normal, meus pais voltaram ao presencial e eu ficava sozinho em casa. Fazia algumas tarefas, estudava muito rápido e corria para minha diversão. Os jogos, especialmente os violentos, passaram a ocupar boa parte dos meus dias. Ficava horas na frente da tela, até esquecia de comer, de ir ao banheiro e ficava com muita raiva quando tinha que desligar.
O reflexo no Comportamento
Sem perceber, me tornei um garoto sério, resmungão, impaciente e briguento, principalmente com minha família. Não admitia ordem. Respondia e afrontava minha mãe, só não tinha coragem de enfrentar meu pai.
Na escola, minhas notas caíram, minhas conversas giravam em torno de jogos e animes cheios de violência. Comecei a normalizar comportamentos agressivos e até a reproduzir falas e atitudes dos personagens no dia a dia.
Por ter dificuldades para me expressar, não era bem compreendido, virava motivo de piadas. Sofria bullying e revidava com palavrões, tanto na escola quanto no virtual.
Meus pais ficaram muito preocupados comigo, tentavam conversar, saber o que estava acontecendo, mas eu não queria ouvi-los, queria seguir minhas próprias regras. Um dia vi minha mãe chorando e aquilo de alguma forma ficou registrado. Só que eu queria viver minhas experiências.
Um Convite na Feira
Num sábado enquanto comprávamos frutas na feira próxima de casa, algumas pessoas estavam entregando folhetos, e minha mãe pegou por educação. Chegamos em casa, ela leu o conteúdo e vi seus olhos cheios de lágrimas. Perguntei se estava bem, ela me respondeu positivamente, em seguida foi para o quarto.
No sábado seguinte voltamos à feira e ouvimos um barulho muito grande. Tomei um susto, mas vi que eram adolescentes vestidos todos iguais, tocando instrumentos como se fosse uma banda. De repente uma senhora nos abordou e convidou para uma programação que ia acontecer em instantes. A minha mãe aceitou. Eu fiquei relutante, porque queria ir pra casa, pra jogar, fui contrariado.
Assim que chegamos no local, fomos bem recebidos. Eu me senti envergonhado e me perguntava o que estava fazendo ali e por que aquelas pessoas eram tão alegres. Minha mãe quis entender melhor e eles explicaram que se tratava de um projeto chamado Quebrando o Silêncio e que faziam parte do Clube de Desbravadores.
O programa foi dividido por idades. Minha mãe se interessou por uma palestra e eu fiquei com aquela turma. Fomos embora antes de acabar, mas aquelas cenas não saíram da minha cabeça, como fomos abordados e da animação daquele pessoal.
Ao chegar em casa deixei o material na cama e fui jogar. Minha mãe comentou com meu pai o que tinha acontecido e a partir daquele dia algo diferente aconteceu.
À noite peguei a revista e abri numa página que falava sobre emoções e um dos assuntos era sobre o bullyng, e aquilo mexeu comigo. Chorei baixo, porque era exatamente o que eu estava vivendo há um bom tempo, calado. Tinha um caderno que eu desenhava, e a maioria das imagens representava o que eu gostaria de fazer naquele momento.
Visita Inesperada
Um dia recebemos a visita da mesma senhora que nos abordou na feira, dona Sebastiana (nome fictício). Junto estava um dos meninos de uniforme que vimos na feira, o neto dela, Gabriel (nome fictício). Eles foram nos convidar para uma programação que iria acontecer no bairro.
No dia marcado eu e meus pais fomos. Era uma grande feira de saúde, com várias atividades gratuitas, baseadas nos oito remédios naturais. Minha mãe participou de algumas palestras, passou no psicólogo, fez as unhas e foi embora mais relaxada com a massagem que ganhou.
Eu me isolei em muitos momentos, mas em outros não tinha como escapar, os desbravadores me incluíam em tudo. Eu me senti envolvido e importante para eles.
Amizade Verdadeira
Não imaginava que isso pudesse acontecer, mas meus pais criaram afinidade com a dona Sebastiana. No começo ficava meio ressabiado, mas ela teve muita paciência comigo, me entendeu no momento mais tenso da minha vida.
Eu e o Gabriel descobrimos muitas afinidades; percebi que ele era uma versão minha, só que melhorada (risos). Viramos amigos e essa amizade ajudou a reduzir bastante meu tempo diante das telas. Naquele mesmo ano entrei para o Clube dos Desbravadores.
Fomos ficando cada vez mais próximos da dona Sebastiana. Ela é uma mulher muito cristã, guerreira, otimista e animada, nem parece que tem uma vida sofrida e cheia de lutas com a filha. Por ter a formação de psicopedagoga, ela foi orientando meus pais e sempre buscava ajudá-los quando surgiam problemas em casa.
Começamos a estudar a Bíblia. No início foi muito difícil, eu tinha muitas dúvidas, questionamentos, pouco interesse. Mas cada encontro era diferente e dinâmico. Foi aí que percebi que aquele Deus que eu achava distante e chato era, na verdade, amoroso, justo e pronto para ajudar.
O clima em casa começou a mudar. A oração estava entrando na nossa rotina. Ganhei uma Bíblia em quadrinhos do Gabriel para me motivar a ler. Comecei a terapia e, aos poucos o que estava bagunçado dentro de mim foi se ajustando.
Nova Vida em Cristo
Depois de estudar a Bíblia por mais de um ano, tomamos a decisão de nos batizar, toda a família. Dois meses antes, porém, recebemos uma notícia muito triste: o falecimento da filha da dona Sebastiana. Ficamos muito abalados. Ela não frequentava a igreja e nossos encontros aconteciam apenas nas visitas no Gabriel ou quando ela ia até nossa casa.
No dia do batismo achei que eles não iriam, por estarem ainda em luto. Mas quando vi minha avó e irmão do coração sentadinhos na segunda fileira, eu não aguentei e desabei a chorar. Naquele momento passou a minha história na mente. Agradeci a Deus por ter colocado os dois na nossa vida. Por terem sido nossos anjos aqui na Terra e nos ajudado em nossas lutas, mesmo enfrentando as lutas pessoais.
Hoje, eu ajudo a campanha do Quebrando o Silêncio, levando essa mensagem que eu recebi de prevenção, combate, amor, salvação e esperança a outras pessoas. Esse ano o tema tratou sobre a violência digital e os perigos que a internet pode trazer e sou prova de que não vale a pena viver esse mal. Além disso, tenho o privilégio de fazer parte da liderança do Clube de Desbravadores da igreja que eu fui acolhido e transformado.