Do Clube de Desbravadores à universidade
Devo muitas das minhas habilidades profissionais e pessoais ao clube de Desbravadores, por isso carrego esse ministério em meu coração

Antes de me tornar pós-doutor, professor universitário e gestor da educação superior, eu já era, sem saber, um educador. Foi entre crianças, adolescentes e jovens, dentro de um clube de Desbravadores, que aprendi na prática o que muito tempo depois eu chamaria de liderança, disciplina, planejamento, responsabilidade, solidariedade, respeito à natureza e compromisso com a comunidade.
Julho de 1979 é uma data que carrego comigo. Foi quando participei da fundação do clube Raios de Luz e assumi também a direção, contribuindo diretamente para sua organização e seu crescimento. Criamos o clube com uma missão clara: oferecer formação integral aos participantes, unindo princípios cristãos, atividades educativas, civismo, saúde, recreação, contato com a natureza e prestação de serviços à comunidade.
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Um ano depois de sua fundação, já reuníamos cerca de 80 membros. Essa conquista era um sinal da confiança que as famílias e a comunidade depositavam no trabalho que estávamos construindo. Recebemos também um reconhecimento da Secretaria de Educação e Cultura do estado do Maranhão.
Mais do que uma organização recreativa, o clube era uma verdadeira escola de formação humana: nas reuniões, acampamentos, cerimônias, projetos comunitários e especialidades, eu via os participantes desenvolverem autonomia e espírito de equipe. Eu também estava me formando junto com eles, pois o clube foi um dos principais alicerces da minha vida: ali comecei a construir boa parte das competências que, anos depois, eu aplicaria na educação, na pesquisa e na gestão institucional.
Uma escola prática de liderança e conhecimento
Dirigir o Raios de Luz me ensinou a planejar atividades, organizar equipes, solucionar dificuldades e acompanhar o desenvolvimento dos participantes. Aprendi que liderar não se resume a dar ordens: era preciso conhecer cada integrante, incentivar os mais tímidos e liderar pelo exemplo, com coerência entre discurso, comportamento e princípios cristãos. Essa forma de liderar me acompanhou quando me tornei professor, pois passei a entender que educar é também acompanhar pessoas e estimular os estudantes a acreditarem em suas próprias capacidades.

As classes e especialidades do clube, como primeiros socorros, saúde, cidadania, natureza, técnicas de acampamento, comunicação, artes manuais e serviço comunitário, me deram uma aprendizagem prática e diversificada e despertaram em mim a curiosidade e a busca por novas habilidades. Foi ali que entendi que a aprendizagem pode acontecer fora da sala de aula: uma caminhada virava aula de Ciências, um acampamento ensinava planejamento e convivência, uma ação solidária ensinava empatia. Essa visão prática eu levei para a universidade, incentivando meus estudantes a desenvolverem projetos e buscarem soluções para problemas reais.
Os certificados conquistados nas classes e especialidades também tiveram peso objetivo na minha trajetória: foram considerados em processos seletivos e concursos acadêmicos, contribuindo para minha pontuação curricular. Aquela formação não ficou só como lembrança afetiva, mas teve valor documental e profissional, e me ajudou a conquistar novos espaços na educação.
Uma formação que acompanhou minha fé e vida acadêmica
Ao longo dos anos, tornei-me professor universitário, conquistei a titulação de pós-doutor e assumi o cargo de pró-reitor da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL). Mesmo com essas conquistas, nunca deixei de reconhecer minhas raízes: a universidade aprofundou meus conhecimentos científicos e administrativos, mas foi o Clube de Desbravadores que me deu as primeiras experiências concretas de liderança e educação de jovens. Para mim, o magistério se tornou uma forma de missão, porque entendi que ensinar, pesquisar e orientar os estudantes tornaram-se maneiras de contribuir para o desenvolvimento das pessoas.
Essa missão sempre esteve ligada à minha fé. Vivíamos, no clube, os valores cristãos do dia a dia: a oração, o estudo da Bíblia, a honestidade, o cuidado com a criação divina. Aprendi ali que a fé precisa se traduzir em atitudes de bondade, justiça e serviço. Este foi um aprendizado que me ajudou a construir uma visão cristã aplicada à vida cotidiana e às responsabilidades profissionais. Nos desafios, essa fé me deu perseverança; nas conquistas, gratidão e humildade. Para mim, ser cristão e ser educador caminham juntos: o conhecimento científico amplia a responsabilidade de usar o saber para promover a vida e a dignidade humana.
Uma missão que continuou em outro local

Minha ligação com os Desbravadores não terminou no Raios de Luz. Em 2000, ao chegar a outro bairro da cidade, fundei o Clube Pioneiros do Alvorada, dando início a uma nova etapa de serviço à juventude.
O Pioneiros do Alvorada se tornou parte da história da minha família. Minha filha, Emily, me ajudou na direção do clube. Hoje, meu filho, Luís Gustavo, é um dos líderes. Vejo nisso um legado que atravessa gerações: prova de que os valores que cultivei não ficaram restritos à minha trajetória individual.
O legado que deixo
Mais de quatro décadas depois da fundação do Raios de Luz, uma convicção permanece em mim: investir na formação de crianças e jovens é plantar sementes cujos frutos podem alcançar toda a sociedade. No meu caso, essas sementes germinaram numa trajetória dedicada à educação, à ciência, à liderança e ao serviço cristão.
Antes dos títulos acadêmicos e dos cargos universitários, existiu um jovem que aprendeu a servir, planejar, liderar e confiar em Deus. E foi sobre esses fundamentos que construí uma vida de realizações, sem nunca esquecer as lições que recebi no clube que ajudei a fundar.

Zilmar Timoteo Soares é natural de Dom Pedro, Maranhão, e atualmente mora em Imperatriz. É casado com Marinete e tem dois filhos: Emily e Luís Gustavo. Hoje é professor na Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL).