DNA missionário e planejamento estratégico: o desafio da Igreja Adventista no Norte do Brasil
Comitiva com 94 líderes do Pará, Maranhão e Amapá traçam planos para o futuro da Igreja no norte brasileiro durante concílio sul-americano de administradores e departamentais

A força missionária no Norte do Brasil nunca foi apenas um slogan. O termo “União Norte, União Forte” está no imaginário de muitos líderes, mas a origem é mais profunda. Ela nasceu de rabetas deslizando pelos rios, conduzindo pioneiros como Leo e Jessie Halliwell em suas lanchas Luzeiro. Foi assim que evangelho, saúde e dignidade chegaram a comunidades invisíveis para o restante do país. O estudo bíblico e a missão se multiplicaram a partir desse trabalho.
Hoje, quase um século depois, essa tradição pulsa em números impressionantes. São mais de 345 mil membros em quase 4 mil congregações. O território alcança 1,7 milhão de km², onde cada adventista se torna, de fato, um farol entre a Amazônia e o meio-norte.
Mas o cenário mudou. O mesmo espaço onde barcos missionários abriram caminho agora é atravessado por internet, fluxos migratórios, novos arranjos sociais e uma geração digital que questiona verdades antes aceitas. Nesse choque entre raízes missionárias e novos paradigmas se encontra o desafio da Igreja Adventista no Norte do Brasil. Esse tema ganhou força esta semana em Foz do Iguaçu, durante o encontro estratégico que reúne 1,4 mil líderes de oito países da América do Sul.

O evento termina neste sábado, 16 de agosto, com a presença do líder mundial da Igreja, pastor Erton Köhler. Mais que uma reunião, foi um laboratório para o futuro. Administradores, educadores e líderes de diversas áreas redesenharam o mapa estratégico da denominação para os próximos cinco anos. O plano se apoia em quatro pilares: identidade, liderança, discipulado e novas gerações. A União Norte Brasileira (UNB), que coordena o trabalho nos estados do Pará, Maranhão e Amapá, esteve representada por 94 líderes de sete sedes administrativas e da Faculdade Adventista da Amazônia.
O Norte em perspectiva
A UNB tem um peso diferenciado nesse processo. Sua geografia descomunal, sua densidade missionária (um adventista para cada 49 habitantes) e sua herança de expansão fazem da região não apenas um campo missionário, mas um exemplo de fé e resistência. Sua sede foi inaugurada em 1936, reforçando a longa herança missionária.

O pastor André Dantas, presidente da UNB, resume o dilema:
“O DNA missionário se mantém, mas precisa se reinventar. Temos de reorganizar liderança, pastoreio e evangelismo para continuar estudando, vivendo e ensinando a Palavra nesses novos tempos. Só assim a Igreja no Norte do Brasil seguirá cumprindo seu papel: a pregação do evangelho e o preparo para a volta de Cristo”, afirmou.
Para o pastor Mark Wallacy, secretário da UNB, o desafio é duplo:
“O primeiro é a disposição de cada líder em contribuir para o planejamento a partir da missão, e não apenas do seu departamento. O novo modelo exige contribuição coletiva e equilibrada, pensando no espaço de cada pastor, distrito e membro. O segundo é lembrar que todos os planos devem ser submetidos ao Espírito. Serão os planos do Céu, e não os nossos, que concluirão a pregação do evangelho”, disse.
Planejamento como missão
Na plenária de Foz, ficou claro que o planejamento não é burocracia. É organização espiritual para preparar um povo para a volta de Jesus, como lembraram os pioneiros ao descrever o propósito da Igreja em preparar um povo para a volta de Jesus.
Para os líderes, o plano estratégico da Igreja na América do Sul é mais que gestão. Ele reflete a identidade profética da denominação, fortalece a liderança, aprofunda o discipulado e dialoga com as novas gerações. É também um ensaio para o futuro em uma sociedade líquida, instável, digital e, muitas vezes, indiferente à religião institucional.
No território do Pará, Maranhão e Amapá, os diálogos entre líderes da UNB e das associações reforçaram essa necessidade. Desde abril, a região promove encontros de escuta e criação coletiva. A meta é integrar visão, prática e missão. A partir desses debates, surgiram direcionamentos estratégicos que se transformarão em ações nas igrejas locais, respeitando as diferentes realidades. Foi um exercício de horizontalidade para fortalecer a base, que são as congregações. O objetivo é reafirmar a prioridade essencial, como disse Köhler em seu sermão: uma Igreja fundamentada na Bíblia e focada na missão.

Líderes e membros estão animados. Para Felipe Rossi Paschoal, consultor em estratégia e gestão, o impacto maior será na base:
“O planejamento precisa chegar na igreja local, mas adaptado à realidade de cada comunidade. Não pode ser imposto como método. O discipulado será essencial nesse processo.”
O pastor Jomárson Dias, secretário executivo da Associação Maranhense, reforçou:
“Há muitas prioridades possíveis. Ter isso definido ajuda o pastor, o departamental e o líder a refletirem em ações conectadas a um propósito comum.”
Expectativas para um novo tempo
Nas palavras do pastor André Dantas, o futuro da Igreja no Norte depende dessa equação: manter a paixão que fez as lanchas Luzeiro cortarem os rios e, ao mesmo tempo, adotar a racionalidade estratégica que une oito países em um mesmo plano de ação.
“Um time bem organizado, com missionários preparados, treinados e alinhados para o serviço, trará resultados. Mas não podemos negar a presença e a bênção do Senhor nesse processo”, concluiu Dantas.