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Wilson Borba

Wilson Borba

Sola Scriptura

As doutrinas bíblicas explicadas de uma forma simples e prática para o viver cristão.

Sutilezas do dispensacionalismo

A Bíblia precisa ser estudada com profundidade para que não seja interpretada erroneamente (Foto: Shutterstock)

O dispensacionalismo ‘evangélico’ é um sistema interpretativo futurista de DNA herdado da contrarreforma.[1] De modo sutil e imaginativo, apresenta argumentações aparentemente ortodoxas, cujo efeito complica, e obstrui, importantes ensinos da Bíblia.[2] O objetivo deste artigo é analisar três ataques do dispensacionalismo às Escrituras Sagradas.

1.A inerrância das Escrituras. Uma barricada improvisada pelo fundamentalismo evangélico[3], na qual dispensacionalistas[4] se entrincheiraram, é a teoria da inerrância bíblica[5], utilizada em reação ao liberalismo teológico da alta crítica alemã, e a “desmitologização” das Escrituras.[6] Inerrantistas dizem que “toda a Bíblia é, como Deus, sem qualquer defeito”[7], e “mantida inerrante”[8] em cada detalhe. Ninguém foi autorizado a buscar erros e crer seletivamente na Bíblia, pois “toda a Escritura é inspirada por Deus” (2 Timóteo 3:16). Por outro lado, é inexatidão negar a possibilidade de erros periféricos da parte de copistas e tradutores, os quais não devem nos perturbar, pois apesar deles, seguramente Deus manteve a integridade de sua Palavra inspirada.[9] Ela é a “revelação infalível, suprema e repleta de autoridade de Sua vontade”[10], toda suficiente para nos tornar “sábios para a salvação em Cristo Jesus” (verso 15).

Lamentavelmente, de um lado, liberais hiperhumanizam as Escrituras, extinguindo sua dimensão sobrenatural e divina. Em outro extremo, dispensacionalistas, confundindo autoridade com inerrância, tornam insignificante a dimensão humana da Bíblia.[11] Enquanto o primeiro grupo semeia incredulidade, dispensacionalistas negam ao povo a simplicidade das Escrituras, passo preparatório para acalentá-lo com novelas ficcionais e interpretações bizarras.[12] Segundo Rodor, “qualquer esforço para remover os traços da dimensão humana nas Escrituras resultará somente em “rebaixamento” da visão de inspiração”.[13] Este consequente “rebaixamento” pode ser uma causa do analfabetismo bíblico, e este, por sua vez, um propagador do dispensacionalismo.

2.O divisionismo das Escrituras. Para LaRondelle, a essência do dispensacionalismo “consiste em causar “divisão” nas Escrituras”[14]. Por exemplo, a divisão da Bíblia em dispensações.[15] B. W. Newton chamou-a de “o suprassumo do contrassenso especulativo”.[16] O objetivo acobertado é antagonizar a lei e a graça, ensinando salvação pela lei no Antigo Testamento (AT), e pela graça no Novo Testamento (NT), embora calvinistas insistissem na “primazia da graça em todas as épocas”.[17] A salvação é dom gratuito, recebido pela fé nos méritos todo suficientes de Jesus Cristo (Atos 4:12), o Cordeiro morto desde a fundação do mundo (Apocalipse 13:8). Há apenas um evangelho desde a eternidade (Gálatas 1:6-9; Apocalipse 14:6). A eterna Lei de Deus (Salmo 119:142) não salva, mas revela o pecado (Romanos 7:7; 1 João 3:4), e nos guia a Jesus Cristo para sermos justificados pela fé (Gálatas 3:24). Por detrás do falso antagonismo entre lei e graça está, na verdade, a antiga rebelião contra os mandamentos de Deus (Apocalipse 12:17).

Com ímpeto divisionista, dispensacionalistas ‘arrebatam’ a última semana de anos da profecia das 70 semanas de Daniel 9, levando-a mais de 2000 anos depois. Neste ataque, quebra-se a linha de tempo histórica contínua da profecia, eliminando seu clímax cristológico e messiânico. Outra marca do dispensacionalismo é separar “o Judeu, o Gentio e a Igreja de Deus”.[18] O evangelho não divide o povo de Deus, mas o reúne. Caifás profetizou a respeito da reunião de todos os filhos de Deus, judeus e gentios, em um só corpo. “Ora, ele não disse isto de si mesmo; mas, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus estava para morrer pela nação e não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos” (João 11:52).[19] A igreja é o corpo de Cristo (Efésios 5:29, 30), porque Ele não faz acepção de pessoas (Atos 11:10-34), e por elas morreu.

No afã de dividir a Palavra de Deus, dispensacionalistas declaram que a maior parte do Apocalipse não é para a Igreja, e sim para os judeus.[20] A Bíblia não faz esta divisão. Em reação a esta e outras distorções, o fundamentalista George Ladd escreveu o capítulo “Dividindo a palavra com acerto”.[21] Separar crentes judeus dos crentes gentios é negar que “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Efésios 4:4, 5).

Os heróis da fé de Hebreus 11 representam inumerável multidão de judeus e gentios de todas as épocas salvos pela fé em Jesus Cristo. Juntos entrarão pelas portas da cidade santa, graças ao sangue do Cordeiro (Apocalipse 21:3, 9; 22:3, 4). “Dessarte, não pode haver judeu, nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Gálatas 3:28-29).

3.O literalismo das Escrituras. Na vereda do futurismo e divisionismo, dispensacionalistas insistem no grave erro do literalismo extremado para interpretar profecias do Antigo e do Novo Testamento.[22] Por exemplo, Israel deve significar os judeus, e nunca a Igreja.[23] Eles ignoram que o Novo Testamento é a interpretação cristológica do Antigo Testamento.[24] O Israel de Deus profético (Gálatas 6:16) não é simplesmente uma nação política, mas o resultado do novo nascimento (Gênesis 32:27, 28; João 3:3, 5). As doze tribos de Israel mencionadas no Apocalipse representam este Israel de Deus, composto de pessoas resgatadas pelo sangue de Cristo em todas as nações, inclusive em Israel (Apocalipse 7:4, 9; 14:1-5, 6, 12). Dispensacionalistas consideram o pacto que Deus realizou com Abraão, um pacto incondicional com o Israel nacional, porém, os seguintes textos demonstram a condicionalidade das profecias em relação a Israel (Daniel 9:24; Êxodo 19:3-6; Deuteronômio 7:12-16; 8:19-20).

Cinco coisas para não esquecer: (1) O Antigo Testamento é focado em Cristo, e não em Israel (Lucas 24:27, 44-45).[25] (2) Quando escritores da Bíblia encontram Cristo nas instituições do Antigo Testamento, trata-se de um exemplo claro de interpretação tipológica.[26] Por exemplo, Melquisedeque era um tipo de Cristo, e desde o tempo dos patriarcas, cordeirinhos mortos em cada serviço sacrifical tipificavam o sacrifício de Cristo na cruz (Hebreus 7:1-17; 9:11, 12). (3) “O fato de os Adventistas do Sétimo Dia rejeitarem a crença amplamente defendida de um futuro reino judaico divinamente prometido não justifica a acusação de antissemitismo ou de cegueira ante a realidade política do novo Estado judaico de Israel”.[27] (4)  Deus não rejeitou os judeus (Romanos 11:1, 2), pois Cristo morreu na cruz também por eles. (5) Haverá muitos convertidos entre os judeus, e eles farão parte do Israel de Deus.[28] Amigo leitor, após breves, mas suficientes considerações, oro e apelo a você para que também ore e leia as Escrituras sem as lentes sutis e embaçadas do dispensacionalismo.


Referências:

[1]Ver “O Cavalo de Troia da contrarreforma” (clique aqui).

[2]Entende-se por sutileza quando alguém, sem compromisso com a verdade, usa um argumento com a finalidade de complicar e obstruir o outro. “Significado de Sutil”, http://www.significados.com.br/sutil/ (Consultado em 10.02.2018 às 17:54h).

[3]O termo fundamentalismo neste estudo significa quase exclusivamente grupos cuja principal marca era a crença na inerrância da Bíblia. Ray C.  W. Roennfeldt, Clark H. Pinnock on Biblical Authority  (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 1993), 55.

[4]Os dispensacionalistas tornaram-se um “segmento dominante do cristianismo evangélico”. Kenneth A. Strand, em Hans K. LaRondelle, O Israel de Deus na Profecia, 1ª ed. (Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária Adventista, 2002), prefácio. A seguir: LaRondelle.

[5]John F. Walvoord, Todas as profecias da Bíblia (São Paulo: Editora Vida, 2012), 10, 11. A seguir: Walvoord; C.C. Ryrie, What You Should Know about Inerrancy (Chicago: Moody Press, 1981), 122. A seguir Ryrie.

[6]Desmitologizar, quer dizer eliminar o mito. Rudolf Karl Bultmann, Neues testament und mythologie. Das problem der entmythologisierung der neutestamentlichen verkündigung, 1941.

[7]Ryrie, 41.

[8]“Questions Concernente Inspiration”, The Inspired Word: A Series of Papers (London, 1888), 17, 23; citado em George M. Marsden, Fundamentalism and American Culture (New York: Oxford University Press, 1980), 56. A seguir: Marsden.

[9]Ver: Ellen G. White, Mensagens escolhidas (Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1985), 1:16.

[10]Manual da Igreja, 22ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2016), 166.

[11]Marsden, 62.

[12]Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins, Deixados para trás: uma ficção dos últimos dias (São Paulo: Editora Hagnos, 2010).

[13]Amin A. Rodor, Revista Kerigma, Vol. 1, nº 1, (1º semestre de 2005), 11.

[14]LaRondelle, 13.

[15]Marsden, 59.

[16]Citado em: George Eldon Ladd, Esperança abençoada, 1ª ed. (São Paulo: Shedd Publicações, 2016), 157. A seguir: Ladd.

[17]Marsden, 60.

[18]Ibíd., 59.

[19]“João estendeu a “profecia” de Caifás sobre o sentido da morte de Jesus, fazendo-a incluir os gentios”. Bíblia de Estudos Andrews (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2015), 1387.

[20]Walvoord, 473.

[21]Ladd, 157-165.

[22]LaRondelle, 14.

[23]Ryrie, 60.

[24]LaRondelle, 21-25.

[25]Ibíd., 88-90.

[26]Bernard Ramm, Protestant Biblical Interpretation (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1970), 223.

[27]Questões de doutrina, 1ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2009), 187.

[28]Ellen G. White, Evangelismo, 3ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012), 577, 578.

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