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Coluna | Rodrigo Silva

Progressismo ou declínio? Eis a questão (parte 2)

Enquanto os olhares estiverem voltados para este mundo, o porvir não fará sentido


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O cristão precisa estar atento às necessidades do próximo e aos propósitos divinos (Foto: Shutterstock)

Se um entrevistador lhe perguntasse: “O mundo está melhorando ou piorando?” O que você responderia? “Os índices de pobreza, mortalidade infantil e segurança estão melhorando?” Se sua resposta foi negativa para ambas as perguntas, saiba que você está errado. Você e a maioria dos entrevistados numa pesquisa feita pela Ipsos com a Gates Foundation, realizada com 26.489 pessoas de 28 países[1]. Afinal, para a maioria dos entrevistados, o mundo está socialmente pior, embora não seja bem isso o que os índices sociais apresentam.

Só para dar um exemplo, se não fosse pela crise da covid-19 continuaríamos numa sequência ininterrupta de 25 anos de queda dos índices de pobreza mundial.  Entre 1990 e 2015, o número de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, ou seja, com US$ 1,90 ou menos por dia, caiu de 1,9 bilhão para menos de 656 milhões em 2018. Isso significa que a parcela da população global considerada pobre, por essa definição, caiu de 36% para menos de 10% no mesmo período[2].

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Hoje há muito mais direitos humanos. Mesmo com tantos casos de violência (um mal não erradicado), as mulheres de hoje contam com muito mais recursos para se proteger de um agressor do que contariam as do início do século 20. Mesmo convivendo, infelizmente, com atitudes de segregação racial, uma pessoa negra tem mais chances de agir juridicamente contra um racista do que um norte-americano afrodescendente dos anos 1950. Mesmo assim, continuamos não achando nosso planeta um lugar seguro para se viver.

Várias explicações foram dadas do porquê de tanto pessimismo se os índices sociais estão melhorando. Alguns apontam para argumentos evolucionistas, dizendo que herdamos de nossos ancestrais hominídeos essa vigilância constante, mesmo em períodos de calmaria, pois foi isso que nos fez evoluir e ser preservados mesmo em meio a tantos predadores que hoje encontram-se extintos.

Outros apontam para a sensação de pânico causada por notícias exageradas, fake news e alertas generalizados, sem especificar o contexto de cada evento traumático. Muitos em Israel, ao ouvirem notícias sobre o Brasil, pensam que aqui é perigoso andar desarmado até mesmo n praia de Copacabana. Os brasileiros, por sua vez, imaginam que os israelenses vivem olhando para cima o tempo todo à espera de onde cairá o próximo míssil.

Um cenário atual

Sobre a pandemia, em que pesem os terríveis dados de quase 4,6 milhões de mortos no mundo até ao fechamento deste artigo, isso não se compara aos mortos da Peste Negra que, segundo estimativas, ceifou entre 75 e 200 milhões de vidas apenas na Eurásia. É claro que, olhando assim num mapa, os dados podem ser frios demais. Para quem perdeu um ente querido, um pai, uma mãe, um irmão, a estatística é de 100% e a dor não tem como ser medida.

Contudo, dizem por aí que contra números não há argumentos. Ainda que este seja um ditado discutível, não podemos negar o poder argumentativo que os algarismos nos oferecem. Sendo assim, a sensação humana de piora pode ser mero sentimento psicológico ou ilusório desprovido de uma avaliação real do cenário.

Para os que cremos na Bíblia, no entanto, a questão se torna mais delicada, pois se o santo livro descreveu em tons tão pessimistas os momentos que antecedem a vinda de Jesus, dizer que o pessimismo é uma ilusão corresponde a negar nossa própria fé profética.

As Escrituras nunca falaram do fim em termos otimistas. “Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (2 Timóteo 3:13); “Os homens desmaiarão de terror, apreensivos com o que estará sobrevindo ao mundo” (Lucas 21:26); “Ah! porque aquele dia é tão grande, que não houve outro semelhante! É tempo de angústia para Jacó” (Jeremias 30:7).

Tempos modernos, problemas não resolvidos

Talvez uma forma de entendermos esse paradoxo entre o que previu a Bíblia e o que os dados apresentam seria ampliarmos as considerações da carta a Laodiceia para entender como estaria o mundo no tempo do fim. É claro que a epístola apocalíptica se dirige, em primeiro lugar, ao povo de Deus. É uma advertência interna quanto a nosso estado espiritual. Contudo, compreendendo que a Igreja, como organismo social, tende a reproduzir a sociedade no meio da qual ela vive, podemos dizer que o que vale para a igreja (em termos de repreensão) vale também para o mundo. Afinal de contas, o que é a apostasia senão a permissão dada para que hábitos e costumes mundanos adentrem ao povo de Deus?

E qual era o grande problema de Laodiceia? Achar que tinha tudo e não tinha nada. O paradoxo entre os índices sociais e do que que a profecia apresenta é retratado nas ironias da carta. “Eu sei as tuas obras, que nem és frio nem quente. Tomara que foras frio ou quente! Assim, porque és morno e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.  Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” (Apocalipse 3:15-17)

Vejam que contraste: hoje, uma edição normal do New York Times contém mais informação do que uma pessoa comum poderia receber durante toda a vida na Inglaterra do século XVII. No entanto, o excesso de informação está provocando uma angústia típica dos tempos atuais e levando à conclusão de que, às vezes, saber demais é um problema. “Quanto mais sabemos, menos seguros nos sentimos. É a sensação de que o mundo está girando a muitas rotações a mais do que nós mesmos”, disse Wayne Luke.

Nunca na história se produziram tantos livros sobre criação de filhos. E o que mais encontramos são pais perdidos sem saber o que fazer com seus rebentos. Técnicas de didática e aprendizado se acumulam aos montes e os jovens estão cada vez com mais dificuldade de compreensão, raciocínio lógico e capacidade de interpretação. As pessoas continuam se desentendendo, mesmo com meios de comunicação funcionando à velocidade da luz, pois não é necessário nem um segundo de tempo para que uma mensagem via WhatsApp cruze o atlântico e vá de um celular em São Paulo a outro em Lisboa.

Aplicativos de tradução cada vez mais sofisticados estão desmotivando o surgimento de novos poliglotas, pois ficou fácil conversar com um coreano mesmo sem saber nenhuma palavra de seu idioma. O irônico, porém, é que quanto mais nos comunicamos, menos nos entendemos uns com os outros.

Olhos fixos em outro lugar

Este é o nosso mundo, que se acha tão esperto, tão rico, tão abastado que não precisa de nada, nem mesmo de Deus. Este mundo está adentrando às igrejas e precisamos estar em alerta quanto a isso. Lá fora eles dizem não precisar de Deus. Aqui dentro dizemos precisar de Deus, mas vivemos como se não precisássemos. No fim, tudo acaba sendo uma espécie de ateísmo inconsciente. Dizemos crer em Deus e vivemos como se Ele não existisse.

Pior ainda é quando colocamos o ser humano acima de Deus ou no lugar dEle, trocando humanitarismo (que é um dever bíblico) pelo humanismo (o ser humano no centro de todas as coisas).

Como cristãos e, ao mesmo tempo, cidadãos e cidadãs, temos uma responsabilidade social para com esse mundo, e ninguém deve se eximir disso. Devemos, sim, acolher os necessitados, preservar o meio ambiente, condenar a desigualdade, combater a discriminação. É o que está em Tiago 1:27 “A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo.”

O problema é que muitos pulam a última parte, que diz: “e não se deixar corromper pelo mundo”. Pensam que tudo se resume a ativismo social. Esse foi o terrível erro da falida teologia da libertação que transformou profetas em líderes sindicais e o discurso de Cristo em um ato revolucionário.

Não podemos é cair na cilada de que é nosso papel atuar como ativistas na construção de um mundo melhor, justo e ideal. De acordo com a orientação bíblica, esse mundo só virá por ocasião da vinda de Cristo. Nosso ativismo, portanto, dever ser no sentido de aguardar e apressar a vinda de Cristo.

É o que encontramos em 2 Pedro 3:12 e 13. “Aguardando o Dia do Senhor e apressando a sua vinda. Naquele Dia, os céus se dissolverão pelo fogo, e todos os elementos, ardendo, se dissiparão com o calor. Todavia, confiados em sua Promessa, esperamos novos céus e nova terra onde habita a justiça.”

Negligenciar o dever social é cair na filosofia do mal servo que não faz nada na certeza de que seu Senhor tarde virá. Por outro lado, enfatizar em demasia tais pautas pode resultar numa desnecessária preparação para o segundo advento. Afinal, o paraíso é aqui e agora com as mudanças sociais que conseguirmos construir. Se isso ocorrer, estaremos em sério risco de perder nossa identidade e, à semelhança do mundo lá fora, continuaremos nos sentindo vazios e inseguros mesmo com tantos recursos ao nosso dispor.


Referências

[1] https://www.ipsos.com/sites/default/files/ct/news/documents/2017-09/Gates_Perils_of_Perception_Report-September_2017.pdf Acesso em 03/09/2021

[2] https://www.worldbank.org/en/topic/poverty Acesso em 03/09/2021

Rodrigo Silva

Rodrigo Silva

Evidências de Deus

Uma busca pela verdade nas páginas da história.

Teólogo pós-graduado em Filosofia, é mestre em Teologia Histórica e especialista em Arqueologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Doutor em Arqueologia Clássica pela Universidade de São Paulo (USP), é professor do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), curador do museu arqueológico Paulo Bork, e apresentador do programa Evidências, da TV Novo Tempo.