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Rodrigo Silva

Rodrigo Silva

Evidências de Deus

Uma busca pela verdade nas páginas da história.

Precisamos atualizar a Bíblia?

Segundo autor, “séculos de história não fizeram Jesus duvidar da relevância das Escrituras”. (Foto: Shutterstock)

Desde os primórdios do cristianismo, a Bíblia Sagrada é reconhecida como a regra de fé e prática dos seguidores de Jesus Cristo. Em todas as declarações conciliares, dos credos católicos e protestantes, relacionadas à sistematização de crenças, como dos adventistas do sétimo dia, a Bíblia figura como legítima palavra de Deus. Ela não somente é a fonte de revelação das verdades divinas, mas é o ponto de referência para decisões que envolvem a reflexão ética e a conduta moral.

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Contudo, ao longo da história, as afirmações bíblicas têm encontrado diferentes formas de objeção. A mais recorrente delas é a dificuldade instintiva de se atrelá-la a regras, normas e obrigações, conforme vemos especialmente nos dias de hoje. Some-se a isso o fato de que a geração do consumo, herdeira da revolução industrial, adotou o humanismo como guia de conduta, de modo que a busca por felicidade e realização se concentra na vontade humana mais do que nas normas divinas.

Contexto histórico e cultural

Outra dificuldade deriva do fato de a Bíblia, a despeito de sua origem divina, ser um livro histórico matizado em um tempo e cultura distantes do contexto em que vivemos. Muitos dilemas da atualidade são completamente desconhecidos dos autores inspirados e algumas regras são completamente inadmissíveis para a sociedade vigente. Por exemplo: apedrejar alguém que transgrediu o sábado ou cometeu adultério.

Situações como estas despertam, em muitos, uma atitude cética quanto ao valor da Bíblia para nossos dias. Outros, por sua vez, veem a necessidade de atualizá-la e há os que afirmam sua literalidade mesmo com o risco de se tornarem fundamentalistas – termo que se tornou bastante depreciado na compreensão moderna.

De fato, propor uma ética bíblica não é tarefa fácil. Minimizar as dificuldades hermenêuticas de aplicação do texto em nossos dias, também, não parece ser o caminho para quem pretende se pautar por um caminho lúcido das normas reveladas por Deus a seus profetas.

Validade para nossos dias

O objetivo desse artigo não é legitimar a palavra de Deus, mas averiguar uma hermenêutica adequada de suas normas para os nossos dias. A partir disso, podemos entender o pressuposto de que a Bíblia continua válida hoje como o foi no passado. “A relva murcha e as flores caem, mas a Palavra de nosso Deus permanece eternamente!” (Isaias 40:8).

Note que este versículo é uma repetição enfática do que foi dito anteriormente, o que implica numa ratificação absoluta. A relva seca, a Palavra permanece, isto é, as promessas de Deus – especialmente aquelas de livrar o povo do cativeiro babilônico – são imutáveis. Consequentemente, as normas de fidelidade a Deus que estão atreladas às promessas também serão permanentes.

Em meio a todas as revoluções humanas, marchas e contramarchas de impérios, surgimento e ocaso de propostas filosóficas as mais diversas, Deus e sua Palavra não têm sua essência alterada.

Como disse Jesus, “até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei até que tudo se cumpra” (Mateus 5:18). Significaria isso que as mensagens divinas não aceitem qualquer tipo de adequação ou atualização?

O dilema pode ser ainda explicitado da seguinte forma: considerando que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça” (II Timóteo 3:16), por que ensinamos a guarda do sábado conforme Êxodo 20:8) e não sancionamos a execução de quem o transgredir conforme Números 15:32-36?

Por que aceitamos as orientações paulinas quanto à Ceia, o casamento e a ordem no culto e não advogamos seu conselho para que um escravo volte a seu senhor e as mulheres permaneçam caladas no ambiente da igreja?

Estas são questões sérias que merecem nossa reflexão e cuidado não somente pelo que elas dizem, mas também pelo que faltou ser dito. Onde estaria o claro “assim diz o Senhor” para definir questões como aborto, eutanásia, pena de morte e alistamento militar? Estaríamos às cegas nestas questões?

Dilemas bíblicos: como entender?

Talvez a primeira coisa que deveríamos fazer seria entender o que é ética e moral à luz da Bíblia Sagrada. Embora sejam conceitos sistematizados em um tempo posterior à produção das Escrituras, podemos seguramente dizer que sua essência é encontrada nas páginas do livro sagrado.

De modo geral, podemos dizer que a ética é o estudo e a reflexão sobre os princípios da moral, das regras de conduta aplicadas a alguma organização ou sociedade. Já moral se refere às regras de conduta que são aplicadas à determinado grupo, em determinada cultura.

Ou seja, a ética é a reflexão sobre a melhor forma de agir de acordo com as circunstâncias e o contexto, visando o bem comum. Já a moral, está voltada para o cumprimento das regras que a sociedade adota como definindo o que é certo ou errado, o proibido e o permitido, o que pode e o que não pode ser feito. A moral seria o “cumpra-se”. Já a ética é o “pense”.

Exemplo: o princípio dizia para guardar o sábado, a moral buscava meios de cumprir esse mandamento. A ética de Jesus fez os ouvintes pensarem se deveriam proibir uma cura no dia do Senhor, considerando que um boi não seria deixado a morrer num buraco porque caiu ali no dia de sábado. Assim, nada era proposto sem reflexão, adequação e coerência.

Não somente neste caso, mas em muitos outros, a vida de Jesus é o maior e melhor exemplo de aplicação moral e reflexão ética sobre um princípio dado por Deus. Princípios, lembremos, são pressupostos imutáveis, eternos e universais que o Senhor mesmo estabeleceu e nos revelou. Contudo, os princípios estão para a história assim como a substância está para os acidentes em metafísica.

Confuso? Nem tanto. Em metafísica, dizemos que a cor, por exemplo, é um acidente e acidentes são os fenômenos que tornam visível a substância numa matéria. O azul, por exemplo, só se torna visível para nós se houver algo para colorir daquele tom. Pode ser a luz azul, a tinta azul, o lápis de cor azul etc. Da mesma forma, o princípio dado por Deus. Ele é uma substância invisível que se torna perceptível quando se assenta na matéria e são os “acidentes”, isto é, as circunstâncias que permitem essa visualização ou esse “colorido” captável aos nossos olhos.

Veja esses dois casos: em um deles, o governo demanda que todos permaneçam em casa, num toque de recolher, para evitar contágio numa pandemia. Noutro, ordena a todos que abandonem suas casas por causa de um tornado que passará por aquele lugar. Neste exemplo, não importa a posição política do governo, esse não é o assunto em pauta, e sim e ilustração de como um mesmo princípio pode demandar regras até opostas dependendo do contexto em que deva ser aplicado. Em ambos os casos, o que está em pauta é a proteção dos cidadãos, no primeiro caso segurando-os em casa, no segundo demandando a saída imediata.

Ética bíblica

Situações distintas demandam aplicações distintas da lei. O mesmo Deus que mandou apedrejar o transgressor do sábado num contexto propiciou o livramento de uma mulher adúltera em outro. Não se trata de contradição, mas de lógica contextual. Tal compreensão não deve, contudo, ser confundida com a ética situacionista. Para esta última, a verdade tem um valor subjetivo, não havendo imposição moral absoluta. A ética bíblica é dedutiva, isto é, parte do universal adequando-se ao particular, enquanto a ética situacionista é indutiva, pois começa com a própria pessoa e elabora seus próprios interesses acima da lei.

Vamos a mais um exemplo. Imaginemos o princípio do respeito ao nosso semelhante. Esse é dever universal. Como aplicá-lo contextualmente? Bem, se estiver entrando em uma igreja cristã, retire seu chapéu por questão de respeito; se estiver entrando em uma sinagoga, coloque seu chapéu por questão de respeito. Percebeu? O princípio permaneceu o mesmo, sua aplicação mudou de ambiente para ambiente.

O problema está quando as pessoas confundem o princípio com a aplicação histórica do mesmo e criam regras confusas como as que obrigam todos a usarem chapéu diante de Deus ou a tirarem o chapéu diante dele, causando, neste caso, uma quebra do princípio de respeitar o semelhante.

Mas alguém dirá: e como saberemos se a aplicação está correta ou se o ambiente merece mesmo nosso respeito? Afinal de contas, partindo do exemplo da igreja e da sinagoga, podemos entender que é moralmente correto ir nu a uma praia de nudismo pois ali seria um escândalo comparecer de roupas. É neste momento que surge a ética ou o convite para a reflexão sobre os princípios e normas que falamos acima.

Ela não é uma ciência exata, mas é o melhor meio de encontrarmos uma alternativa justa para situações difíceis. No caso dos cristãos, esse exercício de “pensar” deve ser combinado com oração sincera, estudo da Palavra e interação com outros de mentalidade espiritual que talvez não eliminem, mas minimizem a possibilidade de achismos e interpretações particulares que só interessam aos caprichos do indivíduo.

É por isso que um antigo credo cristão desenvolvido a partir de pequenas confissões batismais empregadas nas igrejas dos primeiros séculos dizia que cremos em Deus Pai, em Jesus Cristo, no Espírito Sando e o fazemos dentro da igreja. Ou seja, fé comunitária. Deus não nos chamou para ser cristãos avulsos, principalmente em questões de reflexão ética. Afinal, nossa tendência é favorecer nossos próprios gostos e sentimentos como sendo a vontade de Deus e não a nossa.

Ideias finais

Assim, a Bíblia é constituída tanto de princípios, quanto de moral e ética. Um princípio seria pautar a vida pela chegada do Messias. A aplicação moral disso no Antigo Testamento seria participar do sacrifício de cordeiros no santuário e no Novo participar da Ceia do Senhor, uma vez que a vinda de Cristo muda o enfoque didático e litúrgico que passa de um Messias vindouro, a um Salvador que veio, morreu imolado na cruz e voltará para buscar a sua igreja.

Em resumo, podemos dizer que os princípios imutáveis estão bem expressos nos dez mandamentos (Êxodo 20), na regra de ouro (amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, Mateus 22:37-40) e nas bem-aventuranças proclamadas no sermão do monte (Mateus 5). Os desdobramentos bíblicos são aplicações históricas desses princípios e a vida de Jesus e modelo máximo de “faça conforme o Mestre”.

Atualizar ou não?

Uma nota final seria interessante no que diz respeito à essência histórica e profética que a Bíblia apresenta. O exercício de atualizar em sua etimologia original latina (actus+ agere) refere-se ao impulso (agere) de movimentar um ato (actus) que estava por alguma razão inativo. Seria quase um sinônimo de “volta às origens”.

Contudo, a semântica da palavra demonstrou, segundo o dicionário Michaelis, que foi agregado ao seu significado o ato de fazer modificações, introduzir alterações e inovações de conceitos, acréscimos etc. Sendo assim, é possível ver na proposta de alguns a exacerbação teológica da atualização bíblica levando-a para um contexto bem distinto do que foi até aqui apresentado neste artigo. Ainda que inconscientemente, pretende-se passar a ideia de que a Bíblia precisaria quase ser reescrita e complementada para ter relevância em nossos dias. Nada, porém, estaria mais distante do posicionamento de Cristo e seus apóstolos.

Note que 1400 anos separam Moisés de Jesus e Paulo. É muito tempo. Contudo, nenhum deles sentiu necessidade de atualizar a Lei, relativizando seus princípios. Pelo contrário, se houve atualização, foi para torná-la ainda mais radical, pois Jesus considerou que até o insulto seria assassinato e a lascívia adultério. “Aquele que chamar seu irmão de idiota corre o risco de ir para o fogo do inferno (Mateus 5:22). Imagine o que Ele diria aos lacradores internéticos de plantão?

Jesus, de fato, impediu o apedrejamento da mulher adúltera, mas não atualizou a lei afirmando que ela poderia continuar como estava. Sua afirmação foi a de “agora vá e abandone sua vida de pecado” (João 8:11).

Paulo disse que a letra mata e o espírito vivifica (2 Coríntios 3:6). Seria isso uma atualização da lei? Basta ler o contexto. O próprio Paulo disse que os mandamentos são santos, justos e bons (Romanos 7:12). Também lembrou que a ira de Deus se revela contra os que sustentavam práticas sexuais proibidas no Levítico. As regras de Deus não são ruins. A Lei de Deus é perfeita e Jesus mesmo disse que não seria anulada (Mateus 5:17-18).

Mas a perfeição da Lei ressalta nossas faltas e estabelece nossa condenação: a morte. É por isso que a letra mata. Pelo que está escrito na letra da lei, todos estamos condenados. Precisamos da graça para sermos salvos e não de uma atualização que se adeque a conveniências estatísticas. Sim, “conveniências estatísticas”, pois a grande pressão de líderes religiosos de hoje é ceder aos ditames mais populares, ao consenso mais ou menos geral das pessoas que não querem lutar contra o pecado, mas “resolvê-lo” com vícios e atitudes que adormecem a consciência. Talvez o grande desafio homilético e hermenêutico da atualidade seja apresentar um discurso que acalme os aflitos e sacuda os acomodados.

As regras de Deus são boas e são nosso guia moral para a vida. Séculos de história não fizeram Jesus duvidar da relevância das Escrituras. Ele citava Moisés para embasar sua ética, expulsava demônios e cria na historicidade do Gênesis. Mas a modernidade trouxe consigo teólogos mais expertos em Bíblia, que consideram o Gênesis um mito plagiado na Babilônia e as possessões demoníacas um caso para psicólogos. Seria cômico, se não fosse trágico.

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