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Coluna | Leonardo Godinho Nunes

A cidade santa e suas relações com o Jardim do Éden

Relação presente nos livros do Gênesis e do Apocalipse mostra pontos em comum entre o Jardim do Éden e a santa cidade.


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Ilustração da Nova Jerusalém, tal como descita no livro do Apocalipse. (Foto: Good Salt)

Em uma contemplação sistemática podemos observar possíveis relações entre os primeiros capítulos da Bíblia hebraica (Gênesis 1:1-3:24), com os últimos capítulos do cânon bíblico grego (Apocalipse 21:1-22:5). E especialmente pelo fato de ambos evocarem o tema do santuário para si. A cidade santa é referida como o tabernáculo de Deus, onde Ele “tabernaculará” com os homens (Apocalipse 21:3). Ela é descrita como sendo um cubo perfeito, bem como o lugar santíssimo do santuário terrestre (1 Reis 6:20) e acha-se coberta da glória de Deus (Apocalipse 21:11; conforme Êxodo 40:38). Já o jardim do Éden tem sido sugerido como um tipo de “santuário arquetípico”. Davidson propõe que Moisés, sob inspiração divina, claramente retrata o jardim como o primeiro santuário terrenal, ou seja, o santuário celestial tinha um correspondente sobre a Terra mesmo antes do tabernáculo mosaico. Pensando nisso, percebemos possíveis correspondências textuais, funcionais e teológicas entre o Éden e a nova Jerusalém.

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  1. A primeira possível relação entre a cidade santa e o Éden – “santuário arquetípico” está ligada à criação a luz no primeiro dia e a sua existência durante os três primeiros dias sem o auxílio do Sol e da Lua, visto que estes luminares foram criados por Deus somente no quarto dia da criação (Gênesis 1:3, 14-19). Possivelmente a luz dos três primeiros dias provinha do próprio Deus, levando em consideração que “Deus é luz” (1 João 1:5; ver Salmos 36:9; 104:2). Parece haver um paralelo entre o relato da nova Terra com o da criação, em razão da cidade não precisar do “Sol nem da Lua para brilharem sobre ela, pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua lâmpada” (Apocalipse 21:23; 22:5).
  1. Ocorrência da árvore da vida em ambos os relatos. No meio do jardim, Deus havia plantado a árvore da vida juntamente com a árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:9). Em correlação a esta narrativa está a descrição da árvore da vida na nova Jerusalém no meio da praça principal de uma a outra margem do rio da vida (Apocalipse 22:2). Porém, há um aspecto transformado. É possível perceber a ausência da árvore do conhecimento do bem e do mal, não havendo nenhuma referência à ela. Manifestando, assim, que o período de prova está acabado e que o povo de Deus foi reivindicado. O relato da nova Terra revela que aqueles que lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro terão direito à árvore da vida e nunca mais será posto diante dela querubins com espadas flamejantes para impedir que seres humanos tenham acesso a seu fruto (Apocalipse 22:2, 14; Gênesis 3:24).
  1. Outra possível correspondência está ligada à morte e suas consequências. No Éden, Deus deu a ordem que se poderia comer livremente de todas árvores do jardim, menos da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque, se dela comessem, certamente morreriam (Gênesis 2:16, 17). O casal edênico desobedeceu e foram expulsos do jardim para que não tomassem do fruto da árvore da vida, comessem e imortalizassem assim o pecado/rebelião (Gênesis 3:3-24). O ato de desobedecer a Deus trouxe aos seres humanos sofrimento de âmbito integral e ocasionou a morte (Gênesis 3:19). Contudo, Deus não deixou o homem sem esperança. Mesmo diante da rebelião, o Senhor fez vestimentas de peles e os vestiu e prometeu o Descendente Salvador (Gn 3:15, 21). João parece fazer alusão a este episódio quando ele diz que “o Cordeiro foi morto desde a fundação do mundo” (Apocalipse 13:8). Uma possível relação é feita com o meio utilizado por Deus para resolução da morte e suas consequências eternas, visto que os salvos serão aqueles que lavaram as suas vestimentas no sangue do cordeiro (Apocalipse 22:14; ver 7:14). Ambas narrativas (criação e nova Terra) apropriam-se dos resultados da expiação de Cristo. O aspecto de viver vida eterna, proposto ao casal edênico, será restaurado na nova Jerusalém. E a mentira apresentada por Satanás à mulher – “certamente não morrereis”, bem como a sentença de morte declarada por Deus ao homem – “porquanto tu és pó, e ao pó retornarás” - receberão a sua sentença definitiva no encerramento do conflito cósmico (Apocalipse 20:10; 21:8). Até mesmo a morte e o inferno (sepultura) serão destruídos no lago de fogo (Apocalipse 20:14). E é iniciado, então, um novo reinado planejado por Deus para os novos Céus e nova Terra (Apocalipse 21:4-5).
  1. Fontes de águas. No Éden, havia um rio que fluía do centro que se dividia em quatro braços e irrigava o jardim (Gênesis 2:10). Essa descrição parece estar em paralelo ao rio da vida que fluí do trono de Deus e do Cordeiro para a cidade santa (Apocalipse 22:1-2).
  1. Outra possível relação pode ser vista entre as pedras valiosas. Na descrição do jardim, é relatado que nele havia ouro, bdélio e ônix (Gênesius 2:12). Pedras preciosas são mencionadas em conexão com o santuário terrestre. Por exemplo, o bdélio no Antigo Testamento aparece somente em conexão com o maná (Números 11:7). A pedra ônix aparece sobre o ombro e peitoral do sumo sacerdote (Êxodo 25:7; 28:9, 20), e o ouro por todo o tabernáculo terrestre, em suas paredes e mobílias (Êxodo 25:10-40). A cidade santa é descrita como sendo de ouro puro e os fundamentos de seus muros são ornamentados por um conjunto de doze pedras preciosas (Apocalipse21:18-21).
  1. É indicado que a obra designada por Deus ao homem no jardim será restaurada na nova Terra. “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e guardar” (Gênesis 2:15). A palavra cultivar significa literalmente trabalhar, servir, ministrar, e aparece ligada ao serviço realizado pelos levitas no tabernáculo terrestre (Números 8:11, 19; 16:9; 18:6-7). Essa correspondência pode revelar a possibilidade de que a obra designada ao casal edênico tinha também conotações sacras/religiosas, além do cultivo do jardim. Da mesma forma, a palavra guardar também aparece em relação ao santuário terrestre e com a obra realizada pelos levitas (Levítico 8:35; Números 3:7, 38).
  1. Além dessa possível relação observada com santuário terrestre, podemos inferir uma certa ligação em relação à obra que será realizada pelos salvos na nova Terra, pois é declarado que os remidos servirão a divindade (Apocalipse 22:3). É preciso entender que o termo servirão significa “servir, ministrar, adorar”, e que transmite a ideia de serviços sacros/religiosos tais como os vocábulos cultivar e guardar (Gênesis 2:15). Por isso, podemos ver uma indicação que a obra dada no princípio ao casal edênico será restaurada por Deus na nova Jerusalém.

Companheirismo, intimidade, convívio com Deus, estes eram os privilégios que Adão e Eva desfrutavam no jardim. Porém, perderam todas essas prerrogativas em consequência do pecado/transgressão. Após a expulsão, o estado pecaminoso deles os impedia de se encontrarem com Deus face a face, por isso, sacrifícios eram realizados na entrada do jardim (Gênesis 4:4-5). Querubins foram postos a vigiar o caminho da árvore da vida para que o homem não imortalizasse o pecado comendo do fruto (Gênesis 3:24).

E para Deus não perder o relacionamento com o homem, Ele idealizou formas para restabelecer a relação até onde era possível através dos santuários terrestres (Êxodo 25:8; 1Re 6:13; 8:10). Apocalipse 21:1 a 22:5 indica que todos os privilégios vividos por Adão e Eva com a Divindade no Éden serão restaurados e elevados a um patamar muito mais glorioso na nova Jerusalém.

Perceba os contrastes: o homem rejeita o santuário feito por Deus; Deus habita no santuário feito pelo homem; Deus visita o homem no “santuário arquetípico” (jardim do Éden) e o homem visita/encontra a Deus nos santuários/templos terrestres. Finalmente, nessa concepção de encontros o homem voltará ao santuário de Deus e viverá para sempre com Ele (Apocalipse 21:3).

Artigo escrito por João Renato Alves da Silva, em coautoria com o titular da coluna.


Referências:

DAVIDSON, Richard. Comic Metanarrative for the Comiing Millenium. Andrews University: Journal of the Theological Society, 2000.

DEDEREN, Raul (editor). Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia. Tradução de José Barbosa da Silva. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2011.

Associação Ministerial da Associação Geral. Nisto Cremos: as 28 crenças fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Tradução de Helio L. Grellmann. 9. ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2016.

WHITE, Ellen G. Testemunho para a Igreja. Volume 6. Tradução de Cesar Luis Pagani. 2ª edição. – Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004.

STRONG, James. Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002.

Leonardo Godinho Nunes

Leonardo Godinho Nunes

Conexão Profética II

Profecias, no seu contexto, explicadas para quem quer entender o tempo em que vive.

É casado com Beverly S. M. Nunes e pai de Larissa e Eduardo. Pastor há mais de 25 anos, dezesseis dos quais atuando como professor de teologia. Doutor em Teologia Bíblica pela Universidade Andrews. Atualmente trabalha como Coordenador do Seminario Adventista Latino Americano de Teologia no Instituto Adventista Paranaense.