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Isael Costa

Isael Costa

Conexão Profética I

Profecias, no seu contexto, explicadas para quem quer entender o tempo em que vive.

Daniel 2 e a missão de Deus na história

“Este é o sonho; também a sua interpretação diremos na presença do rei. Daniel 2:36”

Estátua do sonho do rei retratada no segundo capítulo de Daniel é discutida há muito tempo, inclusive por Isaac Newton. (Foto: Youtube/Amazin Prophecies)

Como aponta Collins, poucos livros têm influenciado tanto a história do Ocidente como o livro de Daniel o faz.[1] Evidentemente isso deve tanto à sua beleza quanto à riqueza e desafios literários, mas, também, a sua abrangência profética. O conteúdo do livro é de todo cativante e envolvente, marcado por narrativas e profecias e, em alguns momentos mesmo, a combinação desses gêneros em episódios específicos como é o caso do capítulo 2. Mesmo em um primeiro contato, é comum ao leitor da Bíblia ser atraído pela habilidosa combinação existente entre o drama narrativo e sonho apocalíptico no referido texto.

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Este artigo pretende salientar os meios da revelação de Deus à Nabucodonosor, o monarca pagão. Ou seja, pretende analisar o fenômeno do sonho profético e a forma de sua linguagem a fim de destacar a intenção de salvação divina em relação ao referido rei. Serão levantadas informações que demonstrarão o ambiente da revelação familiares ao monarca e que apontam, assim, o objetivo essencial de Deus para com Nabucodonosor, seu público alvo em primeira instância, e semelhantemente à humanidade posterior a ele.

Contexto do sonho

O conteúdo do capítulo como um todo foi provocado por causa de um sonho comunicado a Nabucodonosor. A agitação inicial já evidencia o caráter de como os sonhos eram considerados quanto a comunicações dos deuses na cultura antiga. É sabido que babilônios e egípcios habitualmente os registravam nos chamados livros dos sonhos,[2] estes já agregados com algumas diretrizes interpretativas.

Combinadas as informações referentes ao sonho em Daniel 2 nota-se que este se tratou de um sonho ocorrido pelo menos duas vezes na mesma noite.[3] Os versículos 1 e 2 informam o sonho nas formas singular e plural, enquanto o versículo 29 sugere o sonho como algo de uma ocasião, isto é, enquanto o rei estava no seu leito. O fato da exigência de Nabucodonosor quanto à revelação e significado do sonho testifica da impressão de mal presságio que ele provocou em sua mente. Portanto, o quadro como um todo pressupunha tanto o envolvimento quanto a inescapável necessidade de divindades para a resolução do fato ocorrido.

Daniel é introduzido a Nabucodonosor e passa a fazer a exposição do sonho enigmático de uma estátua constituída de múltiplos metais. A imagem é atingida em seus pés de modo fulminante por uma rocha, a qual, por sua vez, torna-se uma montanha ocupando toda a terra. Segundo Festugière, o uso de uma estátua para designar o destino de uma nação era algo natural principalmente no Egito[4], o que implica Nabucodonosor já estava familiarizado com o tipo de informação. Isso torna mais significante a observação “dizei-me o sonho e saberei que me podeis da a interpretação”. Tal exigência sugere ele lembrava parte do sonho, mas não o suficiente para uma clara compreensão do sentido e, também, o seu receio de ao mencionar suas parcas recordações receber uma interpretação enganosa e mesmo conspiradora por parte dos seus interpretes, conforme o versículo 9.

Veja estudo completo em vídeo sobre Daniel 2:

Interpretação do sonho e suas implicações hoje

A exposição do sonho por Daniel é imediatamente seguida pela interpretação. O conteúdo, portanto, é explicado para descrever a história do mundo em uma sucessão de reinos. Estes reinos que, ao seu fim, serão totalmente destruídos e substituídos por um reino de origem celeste que jamais passará. O conteúdo elabora uma exposição e interpretação profética da história desde os dias de Daniel até o estabelecimento do reino de Deus na segunda vinda de Jesus. Tendo, deste modo, a sucessão de metais cumprimento histórico na sequência imperial: Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. Esta é uma proposta tradicionalmente percebida por intérpretes judaicos[5], rabinos e pais apostólicos[6]. E da mesma forma, a interpretação o foi na reforma protestante[7] como, também, o tem sido por teólogos adventistas e outros conservadores[8].

Algo também digno de nota é o conceito de apresentar a história em termos de quatro impérios ou eras. Isto constituía prática familiar nas literaturas clássicas e antigas. Neste segmento, é interessante perceber a similaridade da distribuição metálica que se acha em Daniel 2 e a que se nota em Erga kaí Hemérai (“Trabalhos e os Dias”), um poema épico de Hesíodo, escritor grego, datado do oitavo século a. C. Nele, são apontadas cinco eras, sendo que quatro são representadas por ouro, prata, bronze e ferro[9]. Desde o acadiano podemos encontrar a chamada Profecia Dinástica[10] material, que permeia do segundo ao terceiro século a. C. Nela, tem-se a disposição da história como sendo regida por quatro reinos sucessivos: a Assíria, Babilônia, Pérsia e Grécia.

Dentre outros exemplos é ainda válido mencionar os Oráculos Sibilinos (4:49-104), os quais remontam provavelmente ao segundo século a.C. em que se encontra proposta semelhante de quatro impérios, os assírios, medos, persas e macedônios. Referindo-se ao ambiente cultural que girava em torno de Nabucodonosor, ainda se pode refletir o elemento a grande pedra que atinge os pés da estátua destruindo-a de todo. É possível que o rei tenha entendido isto como uma realidade semelhante ao que se acha no épico de Gilgamés.

Em tal épico, num dado momento, é informada a vinda de Enkidu representado como um meteoro. No entanto, ele aterrissa aos pés de Gilgamés e se torna como que um companheiro de regência. Só que a manifestação da rocha no sonho de Nabucodonosor não viria para sugerir regência conjunta, mas o estabelecimento de um reinado independente e eterno.

Embora Nabucodonosor tenha reagido de modo imediatamente favorável à Daniel no final do capítulo 2, o desafio ao reino de Babilônia fora estabelecido e este reino passaria conforme propôs o profeta de Deus. Como tem sido apontado por alguns, o monarca babilônico pode ter alimentado seu ego e expectativas e reagido contrário à esta revelação, mesmo baseado na Profecia de Uruk. A profecia fala de um rei sábio e justo que sucederia a quatro com lamentáveis administrações e seria um rei favorável à Uruk levando de volta para ela a estátua de Istar que se encontrava em Babilônia. Este rei teria um filho cujo reinado se estabeleceria para sempre e este filho tem sido visto como Nabucodonosor.[11]

Que o conhecimento disso pode ter motivado a Nabucodonosor a reagir em oposição ao revelado por Deus é uma considerável possibilidade. De qualquer modo, sua reação contrária ao revelado no sonho é notória no capítulo 3, no erguer de uma estátua toda de ouro, visto ser esse o metal referido ao seu reino no sonho. A reação fica de todo óbvia, Babilônia não seria só a cabeça, mas todo o corpo também.

Reconhecer soberania de Deus ou não

Estes dados de modo claro revelam versões paralelas àquela disposta pelo profeta Daniel em seu livro, versões que o povo pagão ser apegava como sendo verdades. Restava, portanto, a Nabucodonosor fazer uma escolha entre o caldeirão de crenças e culturas pagãs comuns de seus dias ou reconhecer a soberania do Deus de Daniel. O modo como a revelação chega a Nabucodonosor demonstra um Deus que vai ao humano em seu próprio ambiente, e o faz avidamente intentando alcançá-lo.

O sonho de Daniel 2 não apela apenas a Nabucodonosor por um decisivo posicionamento de fé à revelação do Deus bíblico, mas a todo aquele que independente de sua época se defronte com esta revelação. Deste modo, o conteúdo bíblico, mesmo o de caráter apocalíptico, como é o caso de Daniel 2, revela a natureza salvífica e de defesa de sua mensagem, seu conteúdo constitui a apresentação não de uma opção da verdade ao lado de tantas outras, mas a manifestação absoluta da verdade em sua essência, realidade que se revela infalível ao longo da história.


Referências:

[1] Collins, John Joseph, Peter W. Flint, and Cameron VanEpps. The Book of Daniel: Composition and Reception. Vol. 1. Leiden: Brill, 2002.

[2] Walton, John, Mark W. Chavalas, and Victor Harold Matthews. Old Testament. Leicester: Inter-Varsity, 2000.

[3] Doukhan, Jacques. Secrets of Daniel: Wisdom and Dreams of a Jewish Prince in Exile. Hagerstown, MD: Review and Herald Pub. Association, 2000.

[4] André J. Festugière, La révélation d’Hermès Trismégiste (Paris, 11950), t. 1. pág. 92-93.

[5] Josefo (Antiquites X. 208-10 ); 4 Esdras 11:1-35; 12:1-30; 2 Baruque 39:3-7.

[6] Irineu, Against Heresies, livro 5, cap. 26, em ANF, 1:553-55; Holbrook, Frank B. Symposium on Daniel: Introductory and Exegetical Studies. Washington, D.C: Biblical Research Institute, 1986.

[7] LeRoy Edwin Froom, The Prophetic Ftíith of Our Fathers vol. 2, (Washington, DC, 1940): p.267-68

[8] Joyce Balwin, Daniel (Downer’s Grove, IL, 1978), p. 93; John Walvoord, Daniel (Chicago, 1971), p. 76; e Leon Wood, Daniel (Grand Rapids, 1973), p. 74.

[9] Hesíodo (os trabalhos e os Dias pág. 109-180)

[10] Edição com comentários por A. K. Grayson, Babylonian Historical-Literary Texts, Toronto Semitical Texts and Studies 3, Toronto 1975.

[11] Walton, John, Mark W. Chavalas, and Victor Harold Matthews. Old Testament. Leicester: Inter-Varsity, 2000.

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