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Coluna | Carlos Magalhães

Geração Z e sua relação com a igreja 

O movimento crescente de jovens frequentando igrejas gera questionamentos entre os pesquisadores e releva um interesse incomum


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Jovens têm buscado na espiritualidade respostas para diversas questões, valorizando cada vez mais experiências autênticas de adoração e encontro com Deus (Foto: Shutterstock)

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos revelou que a Geração Z é a mais frequente nas igrejas do que qualquer outra faixa etária1. Embora esta notícia seja muito positiva, surgem algumas perguntas: “O que está acontecendo?” e “O que isso representa?”.  

Para o escritor Luke Lefreve2, o que explica esse fenômeno é que a “Geração Z passou da desesperança para o desespero, e isso tem levado muitos a Jesus.”  

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As novas gerações, em diferentes regiões do mundo, estão sendo pressionadas com as demandas de uma realidade cada vez mais exigente e caótica. A pressão pelos estudos, carreira profissional, relacionamentos, aparência física, além de preocupações globais com guerras, crises econômicas e ambientais têm gerado ansiedade e vários prejuízos na saúde mental e emocional. Consequentemente, muitos desses jovens estão buscando na religião e na espiritualidade uma alternativa ou um propósito que o racionalismo, as drogas, festas e diversões não conseguem entregar.

Para o sociólogo Manuel Castells, “a religião e outras formas de espiritualidade estão se tornando cada vez mais importantes. […] A necessidade de algo espiritual além do que nos aprisiona diariamente está crescendo, e as pessoas estão encontrando soluções diferentes”3

Objetivo incomum: muito além da fé 

Infelizmente, o fato de atualmente muitos jovens estarem abertos a religiosidade e espiritualidade não significa que esteja acontecendo um reavivamento ou que eles estejam automaticamente abertos a tudo que as igrejas oferecem. Eles estão buscando experiências transcedentais, respostas existenciais e interações saudáveis. E cabe a cada igreja se adaptar e saber como transformar esse fenômeno em oportunidade.  

Segundo Carey Nieuwhof, estamos testemunhando uma mudança radical na cultura da igreja: a morte da "adoração hype" e o nascimento de um desejo profundo por autenticidade real e tangível4

Adoração performática 

A partir da década de 2000, houve um movimento em muitos lugares para tornar as igrejas mais relevantes para os jovens. Em algumas, os órgãos e pianos foram trocados por bandas completas e baterias. A doxologia do culto foi alterada, o tempo de sermão foi reduzido e adicionado mais tempo para o louvor.  

Mais tarde, com o advento dos cultos online no YouTube e outras plataformas digitais, as igrejas começaram a ver o que as outras estavam fazendo em tempo real. Isso gerou uma "fase de cópia": se um grande templo usava um determinado estilo de culto, então todos sentiam que precisavam ter o mesmo. Como resultado, o que antes era único e inovador tornou-se padrão; muitas igrejas tornaram-se cópias umas das outras, cantando as mesmas músicas e oferecendo a mesma estética visual. 

Insensibilidade digital da Geração Z 

O problema atual não é a tecnologia em si, mas a saturação do público. A Geração Z e os Millennials estão sobrecarregados de conteúdo e abordagens de marketing na Internet. Consequentemente, eles estão entorpecidos com a produção visual. Quando tudo é polido e produzido, o "alto nível" deixa de impressionar. Eles não estão em busca de mais informações sobre Deus, pois a internet e a IA já fornecem informações infinitas. Eles não buscam apenas uma apresentação impecável. O que eles desejam desesperadamente é saber se Deus é real; eles buscam algo transformacional e uma experiência de "presença, não apenas apresentação5

Necessidades diferentes 

Essa mudança cultural exige alterações na adoração e na pregação. Não se trata de jogar fora todo o equipamento audiovisual, mas de mudar o foco. 

  1. Sensibilidade acima do espetáculo: líderes de louvor não devem apenas ensaiar para ter músicas perfeitas, mas cultivar uma sensibilidade ao que o Espírito Santo está fazendo na igreja em tempo real; 
  1. Espaço para o silêncio: antigamente, o objetivo era eliminar o silêncio com uma programação contínua. Hoje, em um mundo barulhento em que as pessoas usam máquinas de ruído branco até para dormir, a igreja pode ser o único lugar onde elas encontram silêncio e espaço para respirar; 
  1. A diferença do "ao vivo": embora o culto online seja valioso, a internet não consegue facilitar um encontro da mesma forma que a presença física. Há uma qualidade na interação humana e na adoração coletiva presencial que o digital não consegue replicar, e é isso que as novas gerações estão buscando. 

A verdadeira base da fé 

Embora as novas gerações procurem nas igrejas experiências espirituais e emocionais, é crucial diferenciar a espiritualidade da emoção e manipulação. O papel da igreja não é fabricar um avivamento ou manipular sentimentos, mas sim apresentar a Palavra de Deus como a única regra de fé e prática capaz de transformar o caráter. O verdadeiro avivamento é obra do Espírito Santo, que atua na mente e na consciência, levando ao arrependimento genuíno e à obediência aos princípios divinos. Assim, a adoração torna-se um culto racional, fundamentado no “assim diz o Senhor”, gerando uma fé sólida que subsiste mesmo quando as emoções oscilam. 

O propósito se mantém 

O modelo de igreja focado em ser "a mais legal da região", com o melhor programa e a melhor música, perdeu sua vantagem competitiva porque, na era digital, o entretenimento de nível mundial está disponível na tela de qualquer smartphone.  

Sua igreja pode ser pequena e simples, mas se ela oferece o que o celular não oferece, como uma presença real, o toque humano e o espaço sagrado para o silêncio e o encontro divino, ela tem tudo que os jovens mais precisam nesse momento. 

A nova geração está faminta por uma refeição espiritual caseira, feita à mão. Sua igreja pode não ter a embalagem brilhante ou o marketing agressivo de outras, mas se oferece uma nutrição bíblica e uma interação com pessoas reais à mesa, ela conseguirá satisfazer a fome espiritual de muitos jovens.  


Referências:

1 New Barna Data: Young Adults Lead a Resurgence in Church Attendance. Disponível em: <https://www.barna.com/research/young-adults-lead-resurgence-in-church-attendance>. Acesso em: 23 jan. 2026.

2 LEFEVRE, L. Luke LeFevre. Disponível em: <https://lukelefevre.org>. Acesso em: 23 jan. 2026.

3 Welcome To Zscaler Directory Authentication. Disponível em: <https://ihu.unisinos.br/661627-o-mundo-esta-em-processo-de-autodestruicao-entrevista-com-manuel-castells>. Acesso em: 23 jan. 2026.

4 NIEUWHOF, C. 7 Disruptive Church Trends That Will Rule 2026. Disponível em: <https://careynieuwhof.com/church-trends-2026>. Acesso em: 23 jan. 2026.

5 CHURCHFRONT. Hype Worship is DEAD! || Carey Nieuwhof. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WFEiLoKM82s>. Acesso em: 23 jan. 2026.

Carlos Magalhães

Carlos Magalhães

Igreja Conectada

Como levar a mensagem de Cristo ao maior número possível de pessoas usando a tecnologia digital

Graduado em Publicidade e Propaganda, é mestre em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e por anos atuou no segmento de e-Health. Tem se dedicado ao desenvolvimento de estratégias de evangelismo na internet há mais de 10 anos, e atualmente é o gerente de Marketing Digital da sede sul-americana da Igreja Adventista.