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Coluna | Antonio Marcos Alves

Destaques de uma abordagem de liderança alinhada com os ensinos de Cristo

O sucesso, para esse líder, está baseado no sucesso de seus liderados


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liderança
A Bíblia aponta atitudes que caracterizam uma liderança servidora (Foto: Shutterstock)

O conceito de líder como servo teve início bem antes dos tempos modernos, quando Jesus Cristo confrontou a abordagem de liderança predominante de sua época, baseada em poder e autoridade. 

Então Jesus os chamou e explicou: “Vocês sabem que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem poder sobre as nações. Não será assim entre vós. Ao contrário, quem desejar ser líder entre vós será esse o que deva servir os demais. E quem quiser ser o primeiro entre vós que se torne vosso servo. Assim como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como único resgate por muitos” (Mateus 20:25-28, versão King James Atualizada). 

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Essa radical visão sobre liderança foi ignorada por um largo tempo até ser introduzida novamente por Greenleaf (1991) e estabelecida em 1977, com a publicação do livro Liderança Servidora, embora o termo já tivesse sido proposto pelo mesmo autor em uma apresentação feita em 1970, chamada Servant-Leadership (Spears, 2005).  

Expoentes da literatura contemporânea sobre liderança, tais como Lary Spears, Peter Senger, Stephen Covey, James M. Kouzes, Barry Z. Posner, Jim Laub, Ken Blanchard e outros atestam que, desde o final do século passado, começamos a perceber que os modos tradicionais de liderança, hierárquicos e autocráticos, paulatinamente vão cedendo espaço para um novo modelo, baseado no trabalho em equipe, na reciprocidade, na transparência e, basicamente, no cuidado. Um modelo que está voltado a compreender não só a ação eficaz, mas a ação voltada para a felicidade e bem-estar dos indivíduos. Um modelo em que o líder entende que seu papel principal é criar as melhores condições de trabalho, promovendo a integração de ideias, a cooperação, a interdependência, a responsabilidade mútua pelo sucesso e a comunicação aberta entre todos dentro da organização.  

Fatores de sucesso

Os modelos convencionais de liderança enfatizam essencialmente os aspectos relacionados com o comportamento e a personalidade dos líderes como fatores determinantes de sucesso na liderança, mas deixam de explorar mais profundamente o lado dos líderes e seus seguidores como pessoas humanas, com seus valores pessoais, necessidades íntimas e motivos interiores, que, em última instância, determinam quem e o que as pessoas realmente são.  

Nesse contexto, a Teoria da Liderança Servidora apresenta-se como uma resposta a essa lacuna, enfatizando que a própria essência da liderança é o desenvolvimento das pessoas e sua realização pessoal, cujo crescimento e bem-estar são o objetivo último da liderança. Assim, ser líder significa ser uma pessoa a serviço de outras, tendo como satisfação pessoal a satisfação dos companheiros, vendo no crescimento e progresso dos seus seguidores o seu próprio progresso e crescimento, e, no bem-estar de cada um, o seu próprio bem-estar. É assim que o líder com a visão de servir cresce: fazendo os outros crescerem. As pessoas não se lembram de nós por aquilo que fazemos por nós mesmos. Elas se lembram de nós pelo que fazemos por elas e para elas. 

Autores cristãos que falam sobre liderança ensinam que líderes servidores entendem que seu papel é ajudar as pessoas a alcançarem suas metas. Eles estão constantemente tentando descobrir o que seu pessoal precisa para ter um bom desempenho e para colocar a visão em prática. Em vez de quererem que os colaboradores agradem seus chefes, líderes servidores querem fazer a diferença na vida dos colaboradores e, além disso, causar um impacto positivo na organização. Para Covey (2005), líderes servidores enxergam as pessoas como um todo: corpo, coração, mente e espírito – e trabalham para liberar todo o seu potencial criativo. 

Os principais autores sobre Liderança Servidora identificam uma lista de características consideradas indispensáveis para o desenvolvimento de um líder servo. Essas características serão descritas abaixo de forma suscinta e serão aprofundadas na série de artigos intitulada Os Pilares da Liderança Servidora.

Os líderes servidores:  

  • Usam o poder da persuasão: Apoiam-se mais na persuasão do que na autoridade hierárquica ao tomar decisões. O líder servo é hábil em promover o consenso dentro de um grupo. 
  • Promovem o trabalho em equipe: Juntas, as pessoas agem criativamente, assumem riscos, inventam, consolam, inspiram e produzem. 
  • Escutam o coração: Os líderes sempre foram valorizados pela capacidade de comunicação e de tomar decisões. O líder-servo, além de utilizar esses importantes atributos, entende que é preciso reforçá-los pela profunda disposição de ouvir atentamente o que os outros têm a dizer. 
  • Possuem consciência de si: A consciência por si só não é um consolo. Muito pelo contrário. Ela perturba e faz despertar. Os líderes mais capazes tendem a ser sempre plenamente despertos e um pouco incomodados. Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta. A busca por uma liderança começa por uma busca interna para descobrir quem você é. 
  • Visualizam o futuro (conceitualização): Capacidade de pensar além das realidades do dia a dia e focar grandes sonhos. O administrador que deseja ser um líder-servo deve alargar o seu pensamento de forma a incluir nele o pensamento conceitual de bases mais amplas. Os líderes-servos são chamados a buscar um delicado equilíbrio entre o pensamento conceitual e a concentração no cotidiano. 
  • Compromisso com o crescimento das pessoas: O líder-servo se compromete a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para estimular o crescimento pessoal, profissional e espiritual dos empregados. Eles se interessam mais pelo sucesso alheio do que pelos seus próprios. Suas maiores realizações são os triunfos das pessoas a quem eles servem. 
  • Promove o senso de comunidade: Nenhum de nós existe independentemente das nossas relações com os outros. O poder nas organizações é a capacidade gerada pelos relacionamentos. Os seres humanos têm uma capacidade inata para a inteligência coletiva. Podem aprender e pensar juntos, e esse pensamento colaborativo pode levar a uma ação coordenada. 

Em suma, líderes servidores entendem que o sucesso na liderança, o sucesso nos negócios e o sucesso na vida foram, são e continuarão a ser função da capacidade de trabalhar e agir em conjunto com os outros. O êxito na liderança dependerá inteiramente da capacidade de construir e manter relacionamentos que permitam que as pessoas realizem seguidamente coisas extraordinárias. Líderes servidores entendem que as pessoas podem esquecer o que falamos e o que fizemos, mas jamais esquecerão o que as fizemos sentir. Essas ideias se coadunam com os princípios do evangelho e reverberam insights do modelo de liderança difundido por Jesus Cristo.


Referências:

Blanchard, K. (2018). What is Servant Leadership? In K. Blanchard & R. Broadwell (Eds.), Servant Leadership in Action: How You Can Achieve Great Relationship and Results (pp. 07-13). Berrett-Koehler Publishers.  

Covey, S. R. (2005). O 8o Hábito: Da Eficácia a Grandeza. Rio de janeiro: Campus. 

Greenleaf, RK (1991). Servant Leadership: A journey into the nature of legitimate power greatness. Paulist 

Kouzes, J. M & Posner, B. Z. (2008). O Novo Desafio da Liderança. (2ª Ed.). Rio de Janeiro, RJ: Campus. 

Kouzes, J. M. & Posner, B. Z. (2007). Líder Mestre. Rio de Janeiro, RJ: Campus. 

Laub, J. (2017). 40 Days Toward a Servant Leader Mindset. Printed in the United States of America. 

Senge, P. M. (1994). A Quinta Disciplina: A Arte e a Prática da Organização que Aprende. 21a Edição. Rio de Janeiro: Best Seller 

Spears, L. C. (1994). O Líder-Servo: Rumo a uma Nova Era de Dedicação e Amor ao Próximo. Em Renesch, J (Editor). Liderança para uma Nova Era– Estratégias Visionárias para a Maior das Crises do Nosso Tempo. (pp 209-220). (9ª Ed.). São Paulo, SP: Cultrix.

Antonio Marcos Alves

Antonio Marcos Alves

Liderança cristã

Princípios para inspirar pessoas a refletir o caráter do Mestre.

Formado em Ciências Contábeis e Pedagogia, concluiu o curso de Teologia e possui um MBA em Administração e Marketing. Também é mestre e doutor em Liderança pela Universidade Andrews, nos Estados Unidos. Trabalha na Educação Adventista desde 1993 e atualmente é diretor do departamento de Educação da sede sul-americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia.