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Adolfo Suárez

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Muito além do ensino

Reflexões sobre aspectos da vida diária a partir da Teologia, Educação e Ciências da Religião

Você sabe como Jesus lia a Bíblia?

Apaixonar-se pelo texto bíblico envolve ter familiaridade com o Autor, postura de aprendiz e experimentação prática do que a palavra orienta. (Foto: Shutterstock)

Há diversos textos que mostram Cristo como intérprete da Palavra, tais como Mateus 5:17-20 e João 5:46. Porém, um dos textos fundamentais é a perícope de Lucas 24:13-35. Diante da beleza desta passagem, John Drury afirma que esta narrativa é uma mistura de elementos comuns e admiráveis, com um clímax somente comparado às narrativas do Filho Pródigo, do Bom Samaritano e do Natal.

A história de Emaús é uma narrativa clássica que “nos permite focar no assunto da interpretação bíblica”,[i] tendo Jesus como significado e significante. Ou seja, tanto como aquele que é o sentido do texto como aquele que dá sentido ao texto.

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Há várias formas de abordar a Bíblia, e isso vai depender das pessoas e dos interesses. Para usar uma metáfora, aproximar-se da Bíblia compara-se à compra de um carro,[ii] claro, com as limitações devidas que as metáforas impõem. É possível, simplesmente, ficar olhando o carro de forma demorada e amorosa; esta seria a “abordagem (enfoque) estética”. Pode-se fazer um test drive, a fim de conferir o funcionamento do carro; esta segunda alternativa pode ser chamada de “abordagem funcional”.

Para ser mais pessoal, é possível abrir o capô do carro e ler o manual a fim de descobrir as características técnicas da máquina, e entender seu mecanismo; esta familiaridade com o carro pode levar o interessado a conhece-lo de um modo mais específico e especial; esta é a “abordagem genética”.

Para conhecer a hermenêutica de Cristo é necessário “abrir o capô” e “ler o manual”, a fim de descobrir as particularidades de Seu uso da Escritura. Isso requer tempo e cuidado, mas certamente o resultado é compensador. Minha intenção neste curto artigo é focar em Cristo como hermeneuta. Por isso, vamos focar melhor em Lucas 24:27. Entretanto, você pode mergulhar no tema lendo meu livro “Como Jesus lia a Bíblia”, recentemente publicado pela editora universitária Unaspress.

Focando em Lucas 24:27

O texto começa dizendo: “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas”

Livro Como Jesus lia a Bíblia foi lançado em 2019. (Arte: Unaspress)

A cláusula “começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas” pode ser entendida de duas maneiras. Uma delas é que Jesus começou com a lei e os profetas a fim de encontrar coisas escritas a respeito de Si próprio. Todavia, a compreensão mais provável é que Ele investigou em todas as Escrituras, mas – principalmente – começando pela lei e os profetas.[iii] Como afirma Leon Morris, “Jesus começou um estudo bíblico sistemático”.[iv]Sim, aqui Jesus atua como um autêntico teólogo bíblico-sistemático.

O que aprendemos com Jesus é que, para a compreensão de Cristo, e de toda a Palavra, não devemos mutilar a Palavra, selecionando apenas aquilo que nos interessa.

Este exercício feito por Cristo se coloca em direto antagonismo a uma prática comum em nossos dias. Como ressaltam Firth e Jamie A. Grant, “um dos problemas do criticismo histórico foi sua tendência de atomizar o texto e olhar para o mundo por trás do texto, frequentemente privilegiando fontes hipotéticas sobre o texto acabado [final]”.[v]

Cristo, o Hermeneuta, foge dessa prática e une o que hoje é atomizado. A verdade é que, quando Jesus faz uma abordagem de todas as Escrituras, o que temos aqui implícito é a indicação de que a compreensão da Escritura envolve muito mais do que apenas alguns textos selecionados;[vi] devemos estudá-la por completo.

Se Jesus estivesse falando ao leitor de hoje, talvez Ele diria o seguinte: “Vocês, especialistas, não esqueçam do todo, pois é o todo que dá sentido às especificidades. Por isso, não atomizem a Palavra”.

O texto continua: “expunha-lhes”

Aqui, claramente, Lucas quer dizer “interpretar”;[vii] ou, “expressar o pensamento em palavras”.[viii] No caminho de Emaús, fica claro que “uma das primeiras atividades do Cristo ressuscitado foi interpretar as Escrituras”.[ix] O que precisamos apreender deste exemplo é que a “interpretação de Jesus de quem Ele era e sua missão à luz das Escrituras Hebraicas é o fundamento da igreja”.

Cristo enfatizou aos dois discípulos não que eles estavam prestes a rejeitar as Escrituras por depositarem confiança em sua própria sabedoria, mas que deveriam entender as Escrituras.[x]

Sua compreensão de Jesus deu-lhes acesso à compreensão da Escritura. Sua compreensão da Escritura capacitou-os para compreender Jesus. Não foi um ou outro, e nem mesmo primeiro um e depois o outro, mas os dois juntos, cada um alimentado e apoiando o outro.[xi]

A partir disso, teríamos a seguinte estrutura:[xii]

Uma das leituras que pode ser feita dessa estrutura acima é que “o que acontece com Jesus pode ser compreendido apenas à luz das Escrituras, e as Escrituras podem ser compreendidas apenas à luz do que aconteceu com Jesus”.[xiii]Os dois aspectos são mutuamente esclarecidos: um ilumina o outro. Este círculo hermenêutico é comumente conhecido como “espiral hermenêutica”. E o interessante desta espiral é que, quanto mais anda-se ao redor dela, mais se aprende, pois nunca se tem acesso meramente às mesmas informações.

Se Jesus estivesse falando ao leitor de hoje, talvez Ele diria o seguinte: “Filhos e filhas: Vocês são formadores de opinião; por isso, precisam ser bons intérpretes. E, para isso, precisam ter total familiaridade com a Palavra e com o Autor da Palavra. Antes de emitir opinião sobre este ou aquele assunto, comecem o dia lendo a Escritura, descobrindo Cristo na Escritura, e o Cristo descoberto lhes dará condições de entender a Palavra”.

O texto continua: “o que a Seu respeito constava”

Há uma pergunta que vem à minha mente: que temas do Antigo Testamento Jesus deve ter mencionado? Qualquer resposta não é suficiente para responder esta pergunta. Entretanto, considerando os momentos e símbolos que a Ele se referem no AT, estes podem ser algumas dos prováveis textos/temas que Cristo deve ter citado aos dois discípulos, os quais tratam a Seu respeito:[xiv]

  • Gênesis 3:15, a promessa a Eva;
  • Gênesis 22:18, a promessa a Abraão;
  • Êxodo 12, o cordeiro pascal;
  • Levítico 16:1-34, o bode expiatório;
  • Números 21:9, a serpente de bronze;
  • Deuteronômio 18:15, o Grande Profeta;
  • Isaías 7:14, Emmanuel;
  • Malaquias 4:2, o Sol da Justiça etc.

Com sua abordagem, Cristo não apenas ajustou a compreensão dos dois discípulos de algumas passagens particulares, mas também lhes possibilitou uma ampla reorientação de sua visão de toda a Escritura.[xv] Podemos dizer, juntamente com o teólogo David Tiede, que temos aqui o início de um tipo de “exegese messiânica,” ou uma espécie de “leitura pós Páscoa”.[xvi]

Aprendemos, portanto, que toda a Escritura aponta para Jesus, e que nosso crescimento como cristãos depende tanto de nossa experiência com Ele como de nosso engajamento com a Escritura; não é apenas de um ou outro, mas sim de um outro.[xvii]

Se Jesus estivesse falando ao leitor de hoje, talvez Ele diria o seguinte: “Filhos e filhas: Eu quero que estejam em constante relacionamento comigo. Ao ensinarem, escreverem, ou fazerem qualquer tipo de trabalho, sejam profissionais; mas ao se relacionarem comigo, Eu não quero profissionalismo; Eu quero amadorismo. Eu quero que me procurem com amor tal, que fuja do padrão de quem apenas quer cumprir uma tarefa.”

E o texto termina: “em todas as Escrituras”

William Shedd explica que o vocábulo “Escritura” refere-se à “coleção de escritos conhecidos como os livros sagrados do povo judeu”.[xviii] É importante ressaltar que as referências “todos os profetas” e “todas as Escrituras” enfatizam que Jesus incluiu toda a Escritura em sua explicação”.[xix]

Se Jesus estivesse falando ao leitor de hoje, talvez Ele diria o seguinte: “Filhos e filhas, conheçam toda a Palavra, desde o Gênesis até o Apocalipse, incluindo 1 e 2 Crônicas”.

Eis a conclusão

Que tremenda aula! Mais do que uma aula, foi um grande sermão, “onde as profecias relacionadas à encarnação, nascimento, ensino, milagres, sofrimentos, morte e ressurreição do abençoado Jesus foram todas apresentadas, ilustradas e aplicadas a ele próprio, com um apelo para os bem conhecidos fatos que tinham acontecido durante sua vida!”[xx]

A perícope de Lucas 24:27 nos coloca diante de pelo menos cinco dilemas atuais em relação à Palavra:[xxi]

(1) Há demasiado domínio profissional sobre a leitura leiga da Bíblia. Precisamos um apego menos profissional e mais apaixonado ao texto. Um apego que não prescinda do conhecimento técnico, mas que, acima de tudo, nos leve à Bíblia com a disposição de quem vai ter um encontro especial com alguém Especial, pela primeira vez.

(2) Não devemos restringir a leitura da Bíblia a uma postura meramente interpretativa e, muito menos, a uma interpretação particular. A pura interpretação nem sempre produz vida e esperança. Precisamos de familiaridade com o grande Intérprete. E isto exige uma abordagem também aplicativa.

(3) Às vezes gasta-se muita energia focando no gênero literário em vez de aplicar a Palavra à vida pessoal. Precisamos de uma boa intepretação que nos conduza sempre a uma boa aplicação e uma boa experimentação.

(4) Ignora-se frequentemente o fato que a Grande Literatura demanda um grande leitor, devotos na piedade. Precisamos ir ao texto não inicialmente como intérpretes, mas como aprendizes, como carentes de orientação, deixando de lado nossas certezas, demonstrando sede e fome.

(5) Há uma assustadora ausência de uma cultura de leitores da Bíblia, tal como havia no passado”.[xxii] Precisamos voltar a ser o povo da Bíblia. A Palavra precisa exercer a mesma ou superior força que exercia na vida de nossos pioneiros. E os Seminários têm um papel preponderante em instaurar esta cultura.

Concluo minhas reflexões refletindo no verso 24:19: “Ele lhes perguntou: Quais? E explicaram: O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo”.Interessante perceber que Jesus era poderoso em obrase em palavras– em fatos e ditos, ergo kai logo– nessa sequência. Coincidência? Talvez não. Jason Boyd nos lembra que a sequência ação/palavra, no grego, que ocorre em relação a Cristo, “sugere que há algo significativo em curso, mesmo que seja uma agenda teológica não reconhecida”.[xxiii]

A reversão dessa sequência – para palavra/ação – poderia indicar abordagens teológicas que compreendem a verdade como algo inicialmente teórico para, então, ser colocado em prática. Seria uma sequência natural para a teologia bíblica ou sistemática, que dão “prioridade à palavra em relação à ação”.[xxiv] Seja qual for a motivação que conduziu à sequência apresentada por Lucas, constitui-se numa “lente fundamental através da qual devemos ler esta história”.[xxv]

Jesus Cristo ter sido “um profeta poderoso em obras e palavras nos alerta para o fato de que as ações definem o que nós dizemos”. Pensemos no seguinte: o nosso fazer é a definição de nossa doutrina.[xxvi] Ou seja: o que praticamos esclarece o que falamos.

Já pensaram no impacto que a sequência “ação-palavra” teria sobre nossa vida cristã pessoal e sobre as comunidades eclesiais? Afinal, palavras boas são baratas e fáceis; enquanto que boas ações não têm preço, e são difíceis.[xxvii] Que o nosso modo de agir esclareça nossos conceitos e ideologias.


Referências:

[i]Richard S. Briggs, Reading the Bible Wisely: An Introduction to Taking Scripture Seriously(Eugene, Oregon: Cascade Books, 2011).9.

[ii]A metáfora está em Duane L. Christensen, The Unity of the Bible: Exploring the Beauty and Structure of the Bible(New York: Paulist Press, 2003).1, 2

[iii]I. Howard Marshall, The Gospel of Luke  A Commentary on the Greek Text, 1st American ed., The New International Greek Testament Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1978).897. Nesta mesma referência pode ser conferida uma breve explicação para a dificuldade sintática que há em entender que “Escrituras” (final do verso 27) se refere, apenas, à terceira parte do cânon do AT. Como diz Ron Du Preez, Jesus colocou sua conversa dentro de um contexto.Ron Du Preez, Warriors of the Word: Methods of the Messiah for Searching Scripture(Berrien Springs, MI: Omega Media, 2006).83.

[iv]Leon Morris, Luke – an Introduction and Commentary, Revised ed. (Leicester, England; Grand Rapids, MI: Inter-Varsity Press; Eerdmans, 1988).370.

[v]David G. Firth and Jamie A. Grant, Words & the Word: Explorations in Biblical Interpretation & Literary Theory(Downers Grove, Ill.: IVP Academic, 2008).14.

[vi]Robert C. Tannehill, Luke, Abingdon New Testament Commentaries (Nashville: Abingdon Press, 1996).356.

[vii]Ceslas Spicq and James D. Ernest, Theological Lexicon of the New Testament, 3 vols. (Peabody, Mass.: Hendrickson, 1994).312.

[viii]Ibid.313. De acordo com Louw e Nida, “essa palavra significa “explicar num nível mais extensivo e formal o significado de algo que é particularmente obscuro difícil de compreender”. Louw, Johannes P. and Eugene A. Nida, eds. Greek-English Lexicon of the New Testament Based on Semantic Domains. 2 vols. New York: United Bible Societies, 1988, p. 33.

[ix]Steve Bond, “Bible Hermeneutics,” in Holman Illustrated Bible Dictionary, ed. C. Brand, et al. (Nashville, TN: Holman Bible Publishers, 2003).203.

[x]John Calvin and H. Beveridge, Institutes of the Christian Religion, vol. 1 (Edinburg: The Calvin Translation Society, 1845).113.

[xi]Ibid.16.

[xii]Ibid.17.

[xiii]Ibid.17.

[xiv]Spence-Jones., St Luke, 2.p. 271.

[xv]Arthur A. Just, Luke 9:51 – 24:53, 23 vols., vol. 17, Concordia Commentary – a Theological Exposition of Sacred Scripture (Saint Louis: Concordia Publishing House, 1997).976.

[xvi]David Lenz Tiede, Luke, Augsburg Commentary on the New Testament (Minneapolis, Minn.: Augsburg Pub. House, 1988).436.

[xvii]Briggs, Reading the Bible Wisely: An Introduction to Taking Scripture Seriously.19.

[xviii]William Greenough Thayer Shedd, Dogmatic Theology, ed. A.W. Gomes, 3a ed. (Phillipsburg, NJ: P & P Publishing, 2003).138.

[xix]Just, Luke 9:51 – 24:53, 17.976.

[xx]Adam Clarke, The New Testament of Our Lord and Saviour Jesus Christ – Matthews to the Acts(Nashville: Abingdon Press, 1938).501.

[xxi]James M. Houston, “Toward a Biblical Spirituality,” in The Act of Bible Reading: A Multidisciplinary Approach to Biblical Interpretation, ed. Elmer Dyck (Downers Grove, Il: InterVarsity Press, 1996).167.

[xxii]James M. Houston, “Toward a Biblical Spirituality,” in The Act of Bible Reading: A Multidisciplinary Approach to Biblical Interpretation, ed. Elmer Dyck (Downers Grove, Il: InterVarsity Press, 1996).167.

[xxiii]Jason Boyd, “Clearance Sale in the Talking Shop: Luke 24.13-35,” International Congregational Journal 11, Número 2 (2012).41.

[xxiv]Ibid.41.

[xxv]Ibid.41.

[xxvi]Ibid.41.

[xxvii]Ibid.42.

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