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Adolfo Suárez

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Muito além do ensino

Reflexões sobre aspectos da vida diária a partir da Teologia, Educação e Ciências da Religião

Características essenciais da Bíblia

A Bíblia tem atributos que comprovam a sua veracidade e autoridade. Foto: Shutterstock

Parece que a maioria dos cristãos lê a Bíblia numa perspectiva devocional, à procura de bênçãos e de alimento espiritual; na verdade, espera-se que a Bíblia cumpra essa função. Como afirma o teólogo Bernard Ramm, a ênfase devocional e prática do ensino da Bíblia é absolutamente necessária, afinal, o propósito da pregação é mais do que a comunicação doutrinária ou exposição do significado das Escrituras; “deve alcançar a vida e experiência, e essa é a função do ensino devocional das Escrituras. O vital, pessoal e espiritual deve estar presente em todo ministério da Palavra”. [1]

Se a Bíblia tem função vital na vida do cristão, é necessário pensar na sua natureza ou características. A seguir, alguns esclarecimentos essenciais a esse respeito. [2]

1. A Bíblia é revelação inspirada

Não há dúvidas de que “a Bíblia é um livro sobrenatural, a revelação escrita de Deus ao seu povo dada por meio de porta-vozes preparados e selecionados, pelo processo de inspiração”.[3] De fato, esta tem sido o entendimento da Igreja cristã ao longo de sua história.[4] A argumentação bíblica a este respeito é clara em textos como 2Tm 3:16 e 1Pd 1:20-21.

Entretanto, é evidente que a Bíblia é um livro escrito por seres humanos, que a compuseram “no meio de suas próprias culturas e circunstâncias, escrevendo de suas próprias experiências e com as suas próprias motivações para os seus leitores”. Porém, “Deus supervisionou sua escrita de modo que o que eles escreveram compôs a sua mensagem com precisão. A Bíblia é a Palavra de Deus, e o Espírito Santo fala através dela”.[5]

2. A Bíblia é autoritativa e verdadeira

Se aceitarmos que a Bíblia é revelação inspirada, vinda de Deus, então segue-se que ela é autoritativa e verdadeira, constituindo-se em padrão para a crença e comportamento humanos. De modo que rejeitá-la equivale a rejeitar a vontade de Deus.[6] Os aspectos autoritativo e verdadeiro da Bíblia falam-nos de sua confiabilidade: o que ela comunica é confiável e, portanto, adequado para o viver humano. Neste sentido, entendemos que a felicidade humana é do pleno interesse de Deus; por isso, Ele não revelaria como autoritativo e verdadeiro algo que conflitasse com a segurança e plena realização humanas. Afinal, como diz o profeta Jeremias, “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais” (Jeremias 29:11).

3. A Bíblia é um documento espiritual

Diferente de qualquer outro livro, a Bíblia é a Palavra de Deus, sendo, portanto, um documento espiritual, que pode ser usado para diversos propósitos: devoção, nutrição, adoração corporativa, pregação, ensino, guia ética, etc. Devido à sua autoridade e abrangência, seu papel não se limita apenas a orientar no sentido humano, mas a servir de guia transcendental, pois o Espírito Santo pode explicar e aplicar seu conteúdo à vida do leitor. Isto significa que a Bíblia tem um poder único e especial que influencia o leitor espiritualmente,[7] poder este que não encontra em nenhum outro livro.[8]

4. A Bíblia caracteriza-se pela unidade e a diversidade

O tema da unidade e diversidade na Escritura já foi amplamente abordado na literatura especializada.[9] De fato, seus livros apresentam uma sequência cronológica coerente, cada um construindo sobre o que o precede em uma forma aparentemente consciente e direta. Os quatro grandes períodos da narrativa geral da Bíblia retratam a criação, a queda, a redenção e a consumação de todos os propósitos de Deus. Em consonância com isso, as porções não-narrativas da Bíblia – a Lei, os Profetas, a Sabedoria e a Literatura Epistolar – descrevem como o povo de Deus deve se conduzir.[10]

Equilíbrio

É mister enfatizar que “religião bíblica não é meramente experiência religiosa; nem são seus ensinamentos especulações religiosas. A religião bíblica está fundamentada no conhecimento objetivo de Deus”.[11] Ou seja, a religião bíblica não é puramente relacional, mas também não é puro intelectualismo. De maneira que, se é verdade que devemos fugir da frieza que transforma a Escritura em pura literatura e teoria, devemos também evitar a irresponsabilidade de um cristianismo superficial, puramente emotivo, que transforma a Bíblia num manual de autoajuda. Se vivermos como autênticos discípulos, nossa leitura bíblica deverá ser interpretativa, com efeitos transformativos.

 

 

Referências

[1] Bernard Ramm, Protestant Biblical Interpretation: A Textbook of Hermeneutics. p. 62.

[2] Esta seção é uma síntese da sólida explicação apresentada em Klein, William W., Craig Blomberg, Robert L. Hubbard, and Kermit Allen Ecklebarger. Introduction to Biblical Interpretation.  Nashville, TN: Thomas Nelson, 2004, pp.143-150.

[3] Ibid., p. 143.

[4] A defesa da Bíblia como revelação inspirada pode ser conferida em obras como: J. D. Woodbridge, Biblical Authority (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1982).; Millard J. Erickson, Christian Theology, 2a ed. (Grand Rapids, MI: Baker, 1998)., especialmente as págs. 196–259; David S. Dockery, Christian Scripture: An Evangelical Perspective on Inspiration, Authority and Interpretation (Nashville: Broadman & Holman, 1995).; C.F.H Henry, “The Authority of the Bible,” in The Origin of the Bible, ed. P.W. Comfort (Wheaton: Tyndale House, 1992)., especificamente as págs. 13–27; e C.F.H. Henry, God, Revelation, and Authority, 6 vols. (Waco: Word, 1976-1983).

[5] Klein et al., Introduction to Biblical Interpretation. 145.

[6] Ibid. 145.

[7] Ibid. 147.

[8] Textos como os de Isaías 55 e Hebreus 4:12-13 aludem a este poder.

[9] C. L. Blomberg, “Unity and Diversity of Scripture” in New Dictionary of Biblical Theology, ed. T. D. Alexander, and Brian S. Rosner (Downers Grove: InterVarsity, 2000), 64–72; H. H. Rowley, The Unity of the Bible (Philadelphia: Westminster, 1953); J. Goldingay, “Diversity and Unity in Old Testament Theology,” VT 34 (1984): 153–168; and J. D. G. Dunn, Unity and Diversity in the New Testament (London: SCM; Philadelphia: Fortress, 1977.

[10] Klein et al., Introduction to Biblical Interpretation. 148.

[11] Bernard Ramm, Protestant Biblical Interpretation: A Textbook of Hermeneutics.163.

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