Podcast propõe um olhar mais acolhedor para pessoas neurodivergentes nas igrejas
Transmissão feita em Porto Alegre reuniu líderes e especialistas para tratar da rotina das congregações, apresentar ferramentas de inclusão e convocar membresia a auxiliar na conscientização

O avanço no diagnóstico de condições neurodivergentes tem gerado profundas transformações e reflexões na sociedade e, de forma direta, na rotina das comunidades de fé. Para discutir a inclusão de famílias e o desenvolvimento espiritual de crianças e adolescentes atípicos, as áreas da Igreja Adventista do Sétimo Dia correspondentes ao ensino e cuidado com crianças e adolescentes no centro do Rio Grande do Sul (ACRS), em parceria com o Ministério Adventista das Possibilidades (MAP), promoveram um podcast especial focado no tema "Famílias Atípicas e Neurodivergência na Igreja". O debate, ocorrido na última quinta-feira, 28, reuniu líderes de ministérios, profissionais de saúde mental e defensores dos direitos das famílias atípicas com o objetivo de conscientizar e oferecer ferramentas práticas para líderes e membros de igrejas.
A apresentação foi conduzida por Samara Zabel, líder dos Ministérios da Criança e do Adolescente da Igreja Adventista no centro do RS. O painel contou com a participação de Jamile Zinn, psicóloga clínica e escolar, pedagoga e palestrante; Monie Braga, líder dos Ministérios da Mulher e da Recepção na mesma região; e Keiny Goulart, jornalista e fundadora da Rede de Apoio Adventista à Família Autista (RAAFA).
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O desafio diário e a dor da invisibilidade
A falta de conhecimento sobre o que caracteriza a neurodivergência — que engloba condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, dislexia e superdotação — ainda é a principal barreira para a inclusão eclesiástica. Por se tratarem de manifestações invisíveis aos olhos, o cotidiano dessas famílias é marcado por uma rotina exaustiva de hipervigilância e previsibilidade, onde pequenas quebras de padrão podem gerar crises intensas de sobrecarga sensorial. No contexto da igreja, a incompreensão pode agravar o cenário: comportamentos desregulados em momentos de crise são, muitas vezes, mal interpretados por fieis e confundidos com falta de limites ou indisciplina.
Essa exposição constante ao julgamento gera um desgaste que vai além do cansaço físico. A psicóloga Jamile Zinn alertou que a incompreensão e a falta de pertencimento geram marcas profundas. "Os impactos são para a vida inteira. Esse sentimento de inadequação pode desencadear quadros de ansiedade, depressão e isolamento severo, tanto nas crianças quanto em seus pais", explicou a especialista. Muitas vezes, por medo dos olhares recriminatórios ou pela falta de um suporte mínimo para os filhos nas classes, os pais acabam optando pelo afastamento definitivo das atividades comunitárias.
Ao mesmo tempo, o isolamento social faz com que muitas outras famílias atípicas recorram à igreja como seu último refúgio espiritual. A jornalista Keiny Goulart compartilhou que, após terem portas fechadas em múltiplos ambientes sociais, as atividades eclesiásticas e os clubes de Desbravadores e Aventureiros representam, muitas vezes, a única oportunidade de convívio comunitário que resta a essas mães e pais. "Essa família atípica deposita em você aquilo que ela tem sobre Deus; é o que ela está vendo em você. A sua atitude vai fazer muita diferença", relatou Keiny, reforçando a responsabilidade da liderança local.
Novo currículo Vivos em Jesus
Para reverter esse quadro, o debate pontuou a necessidade urgente de migrar da mera "integração" física para um "pertencimento real", onde o indivíduo atípico participa ativamente da vida comunitária. Foi destacado que a igreja não precisa ser composta por especialistas em diagnósticos, mas por membros dispostos a praticar a equidade — oferecendo a cada um o suporte necessário para que tenha oportunidades reais de desenvolvimento.
Nesse processo de engajamento prático, Samara Zabel enfatizou o papel pedagógico do novo currículo Vivos em Jesus, adotado pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. Desenvolvido com foco no modo como o aluno processa a informação, o material orienta os professores a utilizarem ferramentas inclusivas bem específicas. Entre os recursos sugeridos estão os cronogramas visuais estruturados com velcro, que oferecem a previsibilidade necessária para a segurança emocional de alunos autistas, e a implementação de recursos práticos como a "caixa da calma" — equipada com massinhas de modelar e quebra-cabeças que auxiliam na autorregulação de crianças em momentos de sobrecarga sensorial.
A nova metodologia também foca em lições bíblicas fortemente ilustradas, na utilização de objetos concretos e na flexibilização das atividades. A orientação pedagógica é simplificar conceitos e adaptar dinâmicas para evitar o estresse extremo, como não forçar a leitura ou a escrita em público de uma criança que enfrente dislexia ou disgrafia, direcionando-a, em vez disso, para suas áreas de hiperfoco e talentos naturais. As palestrantes lembraram que esses suportes multissensoriais beneficiam a classe como um todo, expandindo o conhecimento de todos os alunos.
"Receber uma criança atípica em nossa classe não é apenas um desafio, é um chamado de amor. O céu também fala diferentes linguagens de amor, e uma criança jamais esquecerá o olhar sem julgamento e o espaço seguro onde pôde ser ela mesma", destacou a apresentadora.
O papel da recepção e as diretrizes práticas
Monie Braga evidenciou que a cultura de acolhimento deve começar logo na entrada do templo, por meio de uma equipe de recepção preparada. "Nosso papel envolve amar, respeitar e orar. Precisamos apoiar esses pais, evitando comentários que gerem culpa ou afastamento", afirmou. Ela ressaltou a importância de envolver crianças e adolescentes atípicos em funções ativas na igreja, explorando seus hiperfocos e talentos musicais ou organizacionais.
Para orientar a membresia, a psicóloga Jamile Zinn desmistificou preconceitos comuns que impedem a empatia. "A gente precisa entender que uma criança neurodivergente não faz birra, ela está em crise. Não é frescura, é seletividade. Não é que ela não gosta de você, é que ela tem dificuldade de socializar. São conceitos que precisamos compreender, porque costumamos julgar quando, na verdade, se trata apenas de uma forma diferente de ver o mundo", explicou.
Durante o programa, também foram apresentados guias de estudos bíblicos ilustrados voltados especificamente para o público neurodivergente (infantil e universitário). A iniciativa faz parte de um projeto pioneiro fruto de parcerias entre a Rede Novo Tempo de Comunicação, o Ministério Adventista das Possibilidades (MAP) e a RAAFA, consolidando o compromisso da denominação com a acessibilidade espiritual.
Um movimento contínuo
Diante da relevância do assunto e da necessidade de aprofundamento, a liderança informou que este primeiro debate abre as portas para um projeto contínuo, com a previsão da transmissão de um segundo episódio em breve, focado em novas orientações práticas. O objetivo principal da organização é transformar este conteúdo em uma ferramenta viva de estudo e transformação cultural nas congregações.
Os detalhes pedagógicos, os estudos de caso e as experiências compartilhadas pelas convidadas podem ser acompanhados assistindo ao podcast na íntegra. A liderança incentiva todos os membros, professores e oficiais de igreja a visualizarem ao vídeo completo e a compartilharem o link com outros fiéis.
O programa completo produzido pela sede adventista para o centro do RS – Associação Central do Rio Grande do Sul (ACRS) – está disponível no YouTube para ser assistido e compartilhado: