Igreja Adventista celebra 31 batismos em presidio de Goiás
Entre grades e lágrimas, detentos da Penitenciária Coronel Odenir Guimarães, em Aparecida de Goiânia (GO), foram batizados em uma cerimônia histórica

A água do batismo escorria lentamente enquanto aplausos ecoavam dentro da Penitenciária Coronel Odenir Guimarães, em Aparecida de Goiânia (GO). Em um ambiente conhecido pelo peso das grades e das sentenças, o momento foi marcado pela cena de homens chorando, abraçando voluntários e declarando publicamente uma decisão de fé. Ao todo, 31 detentos foram batizados durante uma cerimônia realizada dentro da unidade prisional, em um momento considerado histórico no atendimento da Igreja Adventista dentro do sistema penitenciário em Goiás.
A celebração reuniu líderes religiosos, representantes da unidade prisional, voluntários e internos que acompanham as atividades realizadas no presídio ao longo do último ano. A programação contou com momentos de louvor, participação de uma orquestra formada dentro do próprio sistema penitenciário, oração de consagração e entrega de Bíblias.
Toda a ação só aconteceu com a liberação do comandante da

Transformado na Prisão
Mas, em meio às dezenas de histórias presentes naquele espaço, uma delas carregava o peso do arrependimento e a esperança de um recomeço. C.H.A. (destacamos apenas as iniciais do nome completo) entrou no batistério emocionado. Pouco antes da cerimônia, ainda tentando conter as lágrimas, falou sobre a própria trajetória. Sem esconder o passado, contou que chegou ao sistema prisional após uma vida marcada pelo uso de drogas, álcool e violência.
“Eu estava usando crack e bebendo pinga. Vim tirar a vida de uma pessoa porque fui roubar o dinheiro dela”, relatou. A frase saiu lentamente, quase interrompida pelo peso da memória. C.H.A. afirmou que o contato com estudos bíblicos realizados dentro da penitenciária mudou sua forma de enxergar a vida.

Encontros de transformação
Segundo ele, os encontros promovidos por voluntários e líderes Igreja Adventista passaram a ocupar um espaço que antes era preenchido por vícios, raiva e vazio emocional. “Hoje eu estou buscando dia após dia o conhecimento da palavra para que jamais eu venha pecar novamente”, disse.
Durante o testemunho, C.H.A. descreveu o batismo como um divisor em sua história. Para ele, mergulhar nas águas representou deixar para trás uma vida marcada pelo orgulho, inveja, mentira e criminalidade. “Eu sinto que todos os meus pecados foram lavados diante desse batismo”, afirmou emocionado. “Jesus Cristo pra mim é a minha vida, a luz que ilumina o meu caminho.”

Ministério Carcerário
A transformação presenciada dentro da penitenciária é resultado de um trabalho que começou há cerca de um ano. O líder de evangelismo da Associação Brasil Central, pastor Odair Alves, explicou que o Ministério Carcerário vem sendo implantado gradativamente em Goiás, principalmente por meio da atuação de voluntários. “O ministério carcerário tem mais ou menos um ano que está sendo implantado aqui no estado de Goiás. As portas foram se abrindo de pouco em pouco e hoje nós tivemos os frutos de todo esse trabalho”, destacou.
Segundo ele, voluntários entram semanalmente nas unidades prisionais para ministrar estudos bíblicos, orar e acompanhar os internos. “Eles vão vendo o trabalho sério que tem sido desenvolvido e vão querendo conhecer mais não só a igreja, mas a Bíblia também”, explicou.

Voluntários
Entre os voluntários, coordenados pelo missionário Sandro Nascimento, está Lomanto Félix, servidor público e fiscal agropecuário. Ele participa das atividades dentro da penitenciária auxiliando nos cursos bíblicos e acompanhando os internos durante os encontros espirituais. Para ele, participar da cerimônia foi a confirmação de que o esforço desenvolvido dentro do sistema penitenciário tem produzido resultados concretos.
“É um sentimento de satisfação completa ver alguém se entregando a Jesus por iniciativa própria e saber que você participou disso”, afirmou. Lomanto também relatou que a experiência dentro do presídio mudou sua própria visão sobre propósito e realização pessoal. “A gente pensa que vai ser realizado em determinada profissão ou lugar. Mas quando passa por isso aqui, parece que aquela sensação de faltar alguma coisa some”, declarou.

Celebração histórica
O presidente da Igreja Adventista para a região da Associação Brasil Central, pastor Fernando Rios, classificou o momento como histórico para a denominação em Goiás. Segundo ele, além dos batismos, a cerimônia representa a consolidação do trabalho espiritual desenvolvido dentro da unidade prisional.
“Hoje foi um momento muito especial porque celebramos a decisão deles. Trinta e uma pessoas entregaram a vida a Cristo aqui”, afirmou. Rios destacou ainda que o projeto vai além das cerimônias religiosas e busca oferecer acompanhamento contínuo aos internos. “Ouvi-los cantando, falando versos bíblicos decorados porque estudaram e acompanharam e isso não tem preço”, relatou emocionado.
Durante a programação, o líder da Igreja Adventista em Goiás contou que foi abraçado por diversos detentos que disseram desejar continuar frequentando a igreja após deixarem o sistema prisional. “Pastor, daqui três meses eu estou saindo e vou estar lá na igreja ajudando a pregar o evangelho”, relembrou Fernando Rios.
Ao final da cerimônia, enquanto os participantes cantavam juntos e seguravam as Bíblias recebidas durante o culto, C.H.A. (relato do detento apresentado no início desta reportagem) permaneceu alguns segundos em silêncio observando o espaço ao redor. Em seguida, voltou lentamente com seus colegas para o corredor que leva às celas. Desta vez, porém, carregando a convicção de que sua história não termina atrás das grades.

Importante: Todas as fotos são reais, porém seguem um rigoroso controle para não expor nenhuma pessoa, respeitando as normas e diretrizes do sistema penitenciário de Goiás.









