Fé e esperança na luta contra o câncer de mama
Outubro Rosa reforça que a fé também é parte do tratamento e da cura

Em uma madrugada, uma dor na axila acordou Jéssica Guedes, 34 anos. Era um incômodo forte, latejante, que parecia pulsar junto com o coração. Naquele instante, ela sabia que algo não estava bem.
“Eu senti que era algo sério. Nunca havia sentido nada igual”, recorda.
O que parecia apenas uma inflamação se revelou um sinal de alerta. Ao se olhar no espelho, Jéssica percebeu que uma das mamas apresentava o mamilo invertido, e a diferença entre os seios chamou sua atenção. Mesmo assustada, ela orou, pediu orientação a Deus e seguiu o dia.
Naquela mesma manhã, recebeu uma mensagem convocando-a para uma entrevista de emprego. “Eu estava preocupada, mas aceitei o conselho de um amigo e fui”, conta. O que ela não imaginava é que Deus já havia preparado alguém para ser instrumento de cuidado.
Durante a entrevista, o futuro patrão, percebendo sua aflição, insistiu que ela buscasse atendimento médico e, sensibilizado com a história, pagou a consulta e os exames particulares. “Foi uma resposta direta de Deus. Eu orei pedindo ajuda, e Ele usou alguém que eu nem conhecia”, relembra emocionada.
O diagnóstico veio logo depois: câncer de mama, grau 3.
“Eu saí da clínica com lágrimas nos olhos, sentindo como se o mundo tivesse parado. Pensei que tudo havia acabado para mim”, descreve.
Quando a fé se torna parte do processo de cura, o coração encontra paz antes mesmo do corpo se recuperar”, ressalta o pastor Helbert Gama, líder de Mordomia Cristã da Igreja Adventista do Sétimo Dia no Sul da Bahia. “A confiança em Deus ensina que a verdadeira saúde começa na alma”.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de mama é o tipo mais comum entre as mulheres brasileiras, com mais de 70 mil novos casos estimados para 2025. Na Bahia, o número de diagnósticos também cresce a cada ano, reforçando a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.
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Fé que cura a alma antes do corpo
O tratamento foi longo e desafiador: 16 sessões de quimioterapia, cirurgia para retirada do tumor e 26 sessões de radioterapia. Mas em cada fase, Jéssica encontrou em Deus o alívio que a medicina não podia oferecer.

“A fé em Deus é a arma mais importante que qualquer pessoa deve buscar nesse momento. Era na oração que eu encontrava força, coragem e esperança. Às vezes, o simples cantar dos passarinhos me lembrava que Deus estava comigo”, relata.
Mesmo enfrentando dores, enjoo, queda de cabelo e medo, Jéssica jamais desistiu de crer. Para ela, a fé não substituiu o tratamento, ela o completou. “Sem fé, tudo se torna um fardo pesado. Com fé, até o sofrimento ganha propósito”, diz.
Pesquisas da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia e da Fiocruz apontam que o apoio espiritual e emocional tem impacto direto na recuperação de pacientes com câncer. Mulheres que recebem acompanhamento psicológico e mantêm vínculos religiosos apresentam menor índice de ansiedade e depressão durante o tratamento.
O abraço da igreja e o poder do amor
Durante o tratamento, Jéssica contou com o apoio da família e de amigos da igreja. Mesmo desempregada, viu o cuidado de Deus se manifestar de diversas formas. A Igreja Adventista do Sétimo Dia de Nelson Costa, em Ilhéus, foi uma das principais redes de apoio. “A igreja foi acolhedora. Desde o primeiro dia, fui abraçada com carinho. Eles chegaram a criar uma campanha para ajudar na minha reconstrução mamária. Não consegui fazer a cirurgia ainda, mas o amor que recebi fez toda diferença”, comenta.
Para a psicóloga Raquel Santana, líder do Ministério da Mulher na IASD Sul da Bahia, a fé atua como um ponto de equilíbrio emocional. "Quando a mulher se conecta com Deus e sente o cuidado da comunidade, ela desenvolve mais resiliência e esperança para enfrentar o tratamento”, explica.
A jovem aprendeu, nesse processo, que o amor é o maior instrumento de cura. “Cristo morreu para que o amor fosse o elo entre nós. E esse amor é o que me faz continuar acreditando, mesmo diante das perdas”, diz com voz serena.
Embora ainda não tenha realizado a reconstrução mamária, ela garante que a esperança segue intacta. “Perder o seio foi muito difícil. Senti como se uma parte de mim tivesse sido arrancada, mas Deus me ensinou a olhar além da dor. Ele aquieta a alma e me lembra que a vida é preciosa”.
Um testemunho de coragem e gratidão
Após vencer todas as etapas do tratamento, Jéssica compreendeu que o câncer mudou sua forma de ver o mundo. “O câncer me ensinou que viver é bom e que ter saúde é um presente de Deus. Apesar das circunstâncias, aprendi a valorizar detalhes, como ouvir os passarinhos, sentir o vento, poder andar, falar, respirar. Tudo é graça".
Ela acredita que as doenças não atingem apenas o corpo, mas também o emocional. “Mágoas, raiva e falta de perdão adoecem a alma. Por isso, manter o coração leve é essencial para viver bem”, aconselha.
Sua mensagem para outras mulheres é direta e cheia de fé: “Se toquem, façam seus exames de rotina. Quanto mais cedo descobrir, mais fácil é vencer. O câncer vence quem tem medo. Não tenha medo, tenha fé. Diga a Deus que você quer viver e lute até o último instante".
Em diversas regiões do país, a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem se engajado no movimento Outubro Rosa com ações voltadas à conscientização e ao cuidado integral da mulher. Por meio do Ministério da Mulher e do Ministério da Saúde, são realizadas palestras, rodas de conversa, momentos de oração e campanhas solidárias que unem fé e prevenção. As iniciativas reforçam a importância do autocuidado e da confiança em Deus como parte do processo de cura, oferecendo apoio físico, emocional e espiritual a pacientes e familiares.
Hoje, ao olhar para trás, Jéssica enxerga a presença de Deus em cada detalhe da jornada. “Nos dias em que eu só queria dormir para esquecer, Ele me lembrava que eu não estava sozinha. Tudo passa, e o amor de Deus permanece”.