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Um movimento para seu tempo

Entenda como o contexto histórico dos séculos 15 e 16 colaborou para que a Reforma Protestante abalasse a hegemonia da igreja medieval

24 de outubro de 2017

Porta da igreja do Castelo de Wittenberg, onde Lutero cravou suas 95 teses (Foto: Paulo Rios)

A Reforma Protestante trouxe uma nova perspectiva espiritual para uma sociedade que até a Idade Média não tinha acesso à Bíblia. Sua influência, iniciada por outros reformadores, mas que teve Martinho Lutero como o nome de maior peso em todo o histórico do movimento, não ficou restrita apenas aos condados germânicos e ao território europeu. Ultrapassou barreiras geográficas, culturais e foi fundamental para o surgimento de outras nações, como os Estados Unidos.

No dia 31 de outubro, o protesto de Lutero contra as práticas da igreja medieval completa 500 anos. Diante disso, a Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN), órgão informativo oficial da Igreja Adventista na América do Sul, traz, a partir deste dia 24 de outubro, uma série para explicar os impactos que a Reforma Protestante causou ao longo desse período e que estão visíveis até hoje.

Nesta primeira publicação, entenda o contexto político, social e religioso do século 16, e os motivos que levaram ao surgimento do protestantismo.


Por Elder Hosokawa

Os luteranos e os adventistas “compartilham e afirmam os princípios da Reforma: sola Scripturasolus Christussola fide e sola gratia. Ambas as igrejas se reconhecem como herdeiras da Reforma Protestante”. Essa foi uma das conclusões de um documento assinado por teólogos dos dois lados, após uma série de diálogos interdenominacionais realizados no fim dos anos 1990 (Lutherans & Adventists in Conversation: Report and Paper Presented 1994-1998, p. 8).

Só esses pontos convergentes já justificariam uma série especial sobre os 500 anos da Reforma Protestante. Mas a importância da data vai além disso. A Reforma teve implicações teológicas, éticas, econômicas e sociais. Aspectos que certamente serão explorados pela imprensa secular e religiosa ao longo de 2017. Contudo, para os adventistas, a relevância de refletir sobre os 500 anos da Reforma tem que ver também com sua identidade e missão. Os adventistas se consideram herdeiros e continuadores desse movimento, principalmente no que se refere ao resgate da centralidade da Bíblia na experiência da igreja e no rompimento com a apostasia institucionalizada do cristianismo.

Transição de uma época

Enquanto as ações de reformadores medievais como João Wycliffe (1320-1384) e João Huss (1369-1415) foram localizadas e permaneceram limitadas às suas regiões, o movimento luterano repercutiu em toda a Europa ocidental. Martinho Lutero (1483-1546) protagonizou na Alemanha um movimento de transformação na compreensão da salvação, numa época de significativas mudanças. O verso bíblico “o justo viverá pela fé” (Rm 1:17, NVI) instigou o movimento do reformador que viveu a passagem do século 15 para o 16 e foi testemunha de um intenso período de crise da cristandade.

Porém, as razões da Reforma alemã não são explicadas apenas pelos abusos da igreja medieval. Havia um contexto que favoreceu o surgimento do protestantismo. Por exemplo, a transição do mundo feudal para a modernidade gerou atritos, conflitos e interrogações. Esses tempos foram caracterizados por transformações na economia, com o início do capitalismo comercial e a busca incessante por lucro. Sobre isso, segundo Andre Corvisier, Cristóvão Colombo (1451-1506) teria afirmado: “O ouro é o tesouro e aquele que o possui tem tudo de que se necessita no mundo. Com ele tem, também, o meio de resgatar as almas do purgatório e de as chamar ao paraíso” (­História Moderna, p. 66).

Na política, a soberania dos pequenos principados se dissolvia, dando lugar à centralização das monarquias europeias. Na cultura, em tempos de renascença, surgiu uma nova percepção do mundo, do homem e de Deus. A sociedade teocêntrica cedia espaço para a razão, que, aos poucos, avançou sobre os domínios da fé. No campo do conhecimento, as fronteiras da informação se expandiram e estruturou-se o método científico.

Na geopolítica, os limites foram reconfigurados nas viagens transoceânicas com os “descobrimentos” dos navegadores contemporâneos de Lutero, como Pedro Álvares Cabral (1467-1520), Vasco da Gama (c. 1460-1524) e Cristóvão Colombo (1451-1506). Esses exploradores conquistaram o Novo Mundo e geraram impacto no cotidiano dos nativos e europeus.

De acordo com P. A. Larivaille, Nicolau Maquiavel (1469-1527) escreveu em 1517 que, “em virtude dos maus exemplos que vêm da corte de Roma, a Itália perdeu toda a devoção e todo o sentimento religioso, o que dá origem a uma infinidade de desregramentos e de desordens”. Maquiavel atribuiu ao clero católico a responsabilidade pelos italianos terem perdido toda a devoção religiosa e se tornado maus (Itália no Tempo de Maquiavel: Florença e Roma, p. 87).

Na Espanha, os reis Fernando de Aragão (1452-1516) e Isabel de Castela (1451-1504) passaram a exercer intolerância ao tentar unir a Península Ibérica, criando o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição em 1478. Nessa época, cresceu também um sentimento nacionalista em regiões sob o domínio dos imperadores do Sacro Império Germânico, que criticavam o peso de tributos e contribuições compulsórias das autoridades seculares e eclesiásticas.

Crise moral

Os anos que antecederam Lutero foram caracterizados pela venda de ­cargos eclesiásticos, prática conhecida como simonia, que atingiu diferentes níveis hierárquicos da igreja romana. Um exemplo que chama a atenção é o da família Bórgia, que estendia seu poder da Espanha até a Itália. Em 1492, Alexandre VI (1431-1503), tornou-se o papa que dividiu o Novo Mundo entre portugueses e espanhóis. O historiador Oliver Thomson referiu-se a ele como “pretenso construtor de um estado pontifício na Itália, modelo de sadismo e manipulação política […]; foi um assassino, torturador trapaceiro e maníaco pelo poder” (A Assustadora História da Maldade, p. 330).

Seu sucessor, em plena Renascença, o papa Júlio II (1503-1513), ficou conhecido por proteger e financiar artistas como Rafael, Bramante e Michelângelo. Esbanjador, acabou envolvido com disputas e escândalos para a ampliação do território do Vaticano. Deixou os cofres da igreja vazios e uma enorme dívida decorrente da reforma da Basílica de São Pedro. O volume de gastos com essa obra foi tão absurdo que o papa sucessor, Leão X (1475-1521), resolveu criar o comércio de indulgências para cobrir o déficit de recursos (História Moderna, p. 67, 68).

Na opinião de Justo L. González, historiador protestante contemporâneo, Leão X, que se tornou pontífice em 1513, foi “um dos piores papas daquela época de papas indolentes, avarentos e corrompidos”. Para González, “a grande basílica que hoje é orgulho da igreja romana foi uma das causas indiretas da Reforma Protestante” (A Era dos Reformadores, p. 53).

Diante de um caixa negativo, o papa Leão X escolheu seu representante na Alemanha, João Tetzel (1465-1519), para levantar fundos para o erário romano. Tetzel era um frade sem escrúpulos, preocupado com o lucro, que fazia afirmações absurdas para vender indulgências. Ainda segundo González, ­anunciava-se que “a cruz do vendedor de indulgências tinha tanto poder quanto o da cruz de Cristo” e que, no caso de alguém comprar uma indulgência para um parente falecido, “tão pronto a moeda caísse no cofre, a alma saía do purgatório”. Foi esse mesmo papa, Leão X, que condenou Lutero em 1520 por meio da bula Exsurge domine e criticou 41 das afirmações luteranas. No ano seguinte, o líder alemão foi excomungado da Igreja Católica.

Outra prática medieval condenável que gerou muita insatisfação foi o culto às relíquias: restos mortais ou materiais dos chamados santos. Segundo o pesquisador Renato Cymbalista, ainda no século 16, a crença nesses objetos como canais de curas milagrosas incentivou solenes procissões pelas ruas e sacralizou altares de igrejas. O culto às relíquias foi combatido pelos reformadores, que rejeitavam a ideia de objetos como mediadores na relação entre os fiéis e Deus (“Relíquias sagradas e a construção do território cristão na Idade Moderna”, em Anais do Museu Paulista, 2006, v. 14, no 2, p. 15).

A venda de indulgências e o comércio de relíquias motivaram o protesto e a revolta do frade agostiniano com a divulgação das 95 teses. Segundo Jean Delumeau, a tradição protestante afirma que o estopim da Reforma ocorreu em 31 de outubro de 1517, véspera do “dia de todos os santos e finados”, quando peregrinos afluíram à Allerheiligenkirche (Igreja de Todos os Santos) do castelo de Wittenberg para tocar numa das 17 mil relíquias de Frederico III (1486-1525), princípe da Saxônia e um dos membros eleitores do Sacro Império Germânico (Nascimento e Afirmação da Reforma, p. 89). De acordo com o historiador austríaco Rudolf Zinnhobler, em 1545, numa nota autobiográfica, Lutero mencionou que foi no quarto da torre do convento desse castelo que ele teve sua experiência libertadora com a graça de Cristo (História da Igreja Católica, p. 104).

O poder da imprensa

Mudanças culturais, crise moral e exploração por parte da igreja. Tudo isso gerou um clima de grande insatisfação favorável à Reforma, mas as ideias de Lutero não teriam a mesma repercussão se não fosse a contribuição de outro alemão: João Gutenberg (c. 1398-1468). Considerado o inventor dos tipos móveis, foi a inovação tecnológica de Gutenberg que ajudou a disseminar com grande velocidade as afirmações críticas sobre o valor das indulgências e também propagou os hinos compostos por Lutero, como “Castelo Forte”.

Jean François Gilmont definiu a Reforma como “filha de Gutenberg” e afirmou que Lutero interpretou o surgimento da imprensa como providência de Deus para pregação do evangelho. O reformador chegou a escrever: “A imprensa é o último dom de Deus e o maior. Efetivamente, por meio dela Deus quer dar a conhecer a causa da verdadeira religião a toda a Terra, até os confins do mundo” (História da Leitura no Mundo Ocidental, p. 47).

O acesso à Bíblia na língua alemã ajudou o povo a ter acesso aos conteúdos antes disponíveis apenas ao clero (Foto: Paulo Rios)

Na Idade Média, a Bíblia era acessível apenas aos eruditos em latim. Foi só no fim do século 14 que João Wycliffe (c. 1320-1384) e seus colaboradores a traduziram para o inglês. Nessa época, segundo André Biéler, surgiu um visível esforço de colocá-la no idioma do povo. Estima-se que “de 1457 a 1517 foram publicadas mais de 400 edições da Bíblia” (O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 44). No fim do século 15, o livro sagrado estava traduzido em 35 línguas. Em 1516 foi dado outro importante passo: a impressão da primeira edição do Novo Testamento em grego, de Erasmo de Roterdã, que serviu de base para a maioria das traduções realizadas após a Reforma Protestante. O próprio Lutero, entre 1521 e 1522, traduziu o Novo Testamento no castelo de Wartburg, em Eisenach, a partir do texto grego de Erasmo. Com a ajuda de outros colaboradores, a Bíblia completa em alemão foi publicada em 1534.

Como efeito colateral e positivo dessa ênfase protestante na leitura e na mídia impressa, foi preciso investir na alfabetização de uma sociedade até então em grande parte iletrada. Conforme Arlete Menezes, em sua dissertação de mestrado defendida na Universidade Estadual de Maringá, Lutero contribuiu para o despontar de uma educação de crianças e jovens acessível a todos e de competência dos governantes. Para ele, o principal tema de estudo nas escolas deveria ser o conhecimento bíblico. O reformador tinha em mente a formação de líderes para a igreja e de cidadãos aptos a participar da esfera pública. A maioria de suas concepções educacionais está contida em cinco de seus livros (“Sobre o Papel da Educação na Concepção Religiosa de Martinho Lutero”, p. 12).

Na opinião de Ellen White (1827-1915), pioneira adventista que morou dois anos em Basileia (Suíça) e visitou de trem os lugares históricos da Reforma na Alemanha, a influência de Lutero não apenas iluminou a igreja, mas o mundo. “Preeminente entre os que foram chamados para dirigir a igreja das trevas do papado à luz de uma fé mais pura, acha-se Martinho Lutero. […] foi o homem para seu tempo. Por meio dele, Deus efetuou uma grande obra” (O Grande Conflito, p. 117).

Lutero deixou o legado de uma nova compreensão da Bíblia, com base no amor e na fé em Jesus Cristo. Portanto, lembrar os 500 anos da Reforma não é uma questão de apego à tradição eclesiástica e à história. Significa, acima de tudo, reafirmar os fundamentos bíblicos redescobertos e confessados pelos reformadores, sem os quais ficaríamos à deriva no oceano de incertezas que caracteriza o tempo atual. 


ELDER HOSOKAWA é mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da licenciatura em História no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), campus Engenheiro Coelho

(Artigo publicado originalmente na edição de fevereiro de 2017 da Revista Adventista)

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