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Deus ordenava Israel fazer guerras? Teólogo explica a questão

Em entrevista, Edson Nunes falou da suposta contradição nas guerras no Antigo Testamento

Edson Nunes conversou com a ASN sobre as guerras protagonizadas pelo povo de Israel

Edson Nunes conversou com a ASN sobre as guerras protagonizadas pelo povo de Israel

Engenheiro Coelho, SP… [ASN] Desmond Doss foi o primeiro soldado americano a rejeitar matar durante um conflito armado por questão de consciência. A postura do adventista durante a Segunda Guerra Mundial salvou 75 pessoas e o fez ser considerado um heroi, o que inspirou o filme Hacksaw Ridge (Até o último homem), dirigido por Mel Gibson. No entanto, a mesma Bíblia que apresenta o mandamento para não matar e que inspirou a postura pacifista de Doss, também relata diversas guerras protagonizadas pelo povo de Israel, algumas ordenadas por Deus. Para falar sobre a suposta contradição, a Agência Adventista Sul-americana de Notícias (ASN) conversou com o teólogo Edson Nunes, mestre pela USP em Estudos Judaicos e professor de Hebraico e Antigo Testamento no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp).

As guerras não eram empreendidas pelo povo de Deus para estabelecer Sua religião Edson Nunes

Agência Adventista Sul-americana de Notícias: O Antigo Testamento está cheio de histórias de guerras protagonizadas pelo povo de Israel, que observava os dez mandamentos, entre eles, o de não matar. Existe contradição nisso?

Edson Nunes: Êxodo 20:13 é uma das estipulações da aliança entre Deus e Israel que ocorrem nesse capítulo. Um dos fatores diferenciadores dessa estipulação de um corpus legal típico do Antigo Oriente Médio é a ausência de explicação do assunto bem como da pena para a transgressão. Além disso, o termo usado na passagem específica é o verbo ratsah (רצח) que, de acordo com estudiosos do hebraico, traz a ideia de matar com uso de força. é importante notar que esse verbo não aparece em contexto de mortes em batalha ou em defesa própria, muito menos em suicídio. O verbo é usado em diversos contextos, mas o que parece ser sua tônica é um crime contra a vida de alguém dentro da comunidade (mesmo que não povo). Ou seja, as mortes ocorridas em guerras não pertencem a esse mandamento.

ASN: Todas as mortes em guerras eram ordenadas por Deus?

Nunes: É importante entender que as guerras que Israel empreendia eram dirigidas por Deus e conduzidas do Seu jeito. Mas nem todas as guerras foram assim. Um exemplo de quando isso não aconteceu pode ser encontrado em 1 Sm. 4, quando Israel atacou os Filisteus sem a aprovação divina e foram derrotados enfaticamente. O que temos na Bíblia sobre guerras é que a ordem deveria vir unicamente de Deus. Sem a aprovação dEle, a guerra era proibida.

ASN: A religião pode legitimar uma guerra?

Nunes: O que é importante de se notar é que as guerras não eram empreendidas pelo povo de Deus para estabelecer Sua religião, para julgar a maneira vil com que os povos viviam. Os comportamentos canaanitas são vastamente conhecidos pelos historiadores. Eles podem não ter sido o povo mais violente e promíscuo da face da terra, mas com certeza não eram vítimas inocentes. A respostas simples aqui é: uma religião não legitima uma guerra, a justiça divina sim.

Israel deveria sempre propor a paz antes de sitiar a cidade – Edson Nunes

ASN: Algum dia conseguiremos a paz mundial absoluta?

Nunes: A Bíblia fala claramente que em virtude do pecado, do egoísmo, da maldade e da injustiça, a paz mundial será um sonho que não se realizará. Grande parte das guerras ditas religiosas tinham motivações políticas e econômicas. As guerras bíblicas, perpretadas por Israel, tinham por objetivo trazer juízo aos povos através de Israel. Nada pode ser comparado a isso hoje. Também é importante notar que as guerras bíblicas aconteceram num contexto histórico e cultural completamente diferente do que temos hoje.
Algumas considerações importantes:
1) Nas leis de guerra dadas a Israel em Dt. 20, Israel deveria sempre propor a paz antes de sitiar a cidade. (Dt. 20:10-12);
2) O maior número de batalhas que encontramos no Antigo Testamento são batalhas de defesa e não de ataque (Ex. 17:8; Nm. 21:1; 21:21-32; Dt. 2:26-30; etc).
3) O narrador bíblico descreve a lei da guerra em Dt., e deixa para que o leitor julgue as guerras de acordo com isso, ou seja, muitas guerras que acontecem fora desses padrões, embora não sejam condenadas pelo narrador (como a poligamia), estão em desacordo com a ordem dada por Deus.
4) Deus proíbe Israel de conquistar terras para além daquilo que Ele havia prometido. Israel não deveria invadir territórios vizinhos como Edom, Moab e Ammon (Dt. 2:9, 19; 2:4-5; 23:7).
5) Descrever as guerras de Israel como Dawkins faz (“banhos de sangue”, “genocídio”) é desconsiderar o contexto das guerras antigas. E mesmo a maneira como os outros povos (Hititas, Asssírios, Egípcios, etc) descrevem suas guerras e vitórias colocam as descrições bíblicas de eventos semelhantes numa categoria de “peso pluma”.

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