Notícias Adventistas

Em 24% dos casos, estupro é cometido por pais ou padrastos

Vítimas devem contar situação para pessoas de confiança. Agressores precisam ser responsabilizados

Dos agressores de crianças e adolescentes, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada revela que 24,1% são pais biológicos ou padrastos, e 32,2% são conhecidos ou amigos (Foto: Shutterstock)

Curitiba, PR…[ASN] Para Ana*, é difícil relembrar o que passou em um período de sua adolescência. Ela estava se tornando uma mulher, cheia de sonhos e, até então, não havia se deparado com nada que pudesse interrompê-los. Mas foi aos poucos que seu demonstrou um interesse que ia além da relação família, algo que Ana demorou a perceber. “Eu não conseguia ver malícia nas pessoas. Pensei que poderia ter com ele o mesmo relacionamento que eu tinha com meu pai biológico na infância, e ele se aproveitou dessa proximidade”, relata.

As conversas tinham segundas intenções. O abuso, de todas as formas, começou a ser evidente, e o estupro aconteceu. Ela se via num beco sem saída, até segredar a conhecidas o que estava acontecendo. “Comecei a pegar nojo. Quando resolvi contar para uma vizinha e uma amiga minha, foi aí que o abuso parou. Elas marcaram uma reunião comigo, com o meu padrasto e minha mãe, mas ele (padrasto) negou e disse que não se lembrava disso”, destaca Ana, hoje com 36 anos.

Leia também:

Falar o que está acontecendo, segundo o psicólogo Christofer Valenço, é uma das formas de interromper o ciclo do abuso. “Normalmente, os abusadores se valem do poder que têm por conta do silêncio da vítima. Se o silêncio acaba, ele perde esse controle. Quando o agressor sabe que tem alguém observando, em cima da vítima, protegendo, isso traz um processo de inibição”, explica.

Apesar da quebra do silêncio ser uma solução para a vítima, no Brasil, de acordo com um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apenas 10% dos estupros são notificados. A estimativa é de que, anualmente, o número de vítimas chegue a 527 mil.

Valenço acredita que isso se dá pelo fato do medo da exposição e julgamento. “Muitas vezes, a vítima tem medo do que vão falar e vergonha pelo que aconteceu. Ela se sente culpada. Chegam até a se perguntar se ela demonstrou algum tipo de interesse para que aquilo tivesse acontecido”, esclarece o psicólogo.

No caso de Ana, a coragem de denunciar à polícia se esvaiu devido à desmotivação de sua mãe, que afirmou que ninguém acreditaria nela, além da defesa ferrenha que dedicava ao então marido. Os anos se passaram, Ana se casou, teve uma filha, mas até hoje carrega as marcas do episódio. “Queria poder falar para as pessoas não deixarem isso continuar. Não se acanhe ou se intimide de falar, porque vai chegar um nível que você não vai mais conseguir viver assim”, assegura emocionada.

Apesar de cada pessoa reagir de forma diferente às situações de abuso, Valenco admite que sempre existirão marcas. Entretanto, a diferença está em como aprender a lidar com elas. “Essas marcas acompanharão a vida dela, mas não que seja necessariamente uma marca para ser sempre relembrada. Muitas vezes, seja por terapia, busca da pessoa, ou até mesmo de características de personalidade, [pode ser que] ela consiga passar por isso como uma parte da história dela que ficou para trás”, analisa.

Em alerta

O 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2014, registra que a cada 11 minutos uma pessoa foi estuprada no Brasil. Sem contar o estupro coletivo, que faz vítimas a cada duas horas e meia, segundo pesquisa do Ministério da Saúde divulgada em 2016.

Já o levantamento feito pelo Ipea mostra que 70% dos casos de estupro acontecem com crianças e adolescentes. Infelizmente, Júlia* faz parte dessa estatística. Quem praticou o ato contra ela foi seu padrasto, o mesmo que na época também molestou seus dois irmãos: uma menina de dois anos e um bebê de 11 meses.

Apesar do trauma, a adolescente logo foi salva da situação graças à mãe, que flagrou o abuso. Ela imediatamente levou a menina à delegacia, para denunciar o agressor, e ao hospital, para a coleta de exames. “Falar tudo para a polícia seria a melhor forma, porque eu sozinha não poderia fazer nada. Num momento desses precisa de muita fé para passar por isso. Logo depois que eu sai do hospital com a Júlia, expliquei que a culpa não era dela. Tive muito apoio da assistente social para saber lidar com a situação”, conta a mãe.

Foi neste processo que a violência contra as duas crianças veio à tona. A mãe já havia notado que os filhos tinham comportamentos sexualizados, mas não havia associado a um possível abuso.

Em relação à mudança de comportamentos, o psicólogo orienta que alteração de sono, sociabilidade, comportamentos erotizados ou até problemas físicos, sendo mudanças bruscas para a criança e adolescente, exigem atenção. “As mudanças são percebidas até em crianças mais quietas. Elas podem apresentar até mesmo dor de cabeça, de estômago, irritação de certas pessoas e situações. Tudo isso mexe muito com a vítima”, explica o psicólogo.

Para ajudá-los a se reerguer, a Igreja Adventista acolheu a família, que há pouco tempo estava se aproximando da denominação por meio de um conhecido. Os voluntários de uma congregação local no Rio Grande do Sul, em parceria com a Ação Solidária Adventista (ASA), deram todo o suporte para suas necessidades básicas. Inclusive, construíram uma pequena casa para abrigá-los, uma vez que foram desalojados do imóvel onde residiam anteriormente.

Júlia começou a frequentar o Clube de Desbravadores e ingressou na Educação Adventista, graças a um projeto de Recolta que levantou fundos e deu a ela a oportunidade de ingressar em uma unidade educacional. Com todo esse suporte, a garota tem progredido e encontrado forças para superar o trauma. A família tem acompanhamento da assistente social e auxílio de roupas e alimentos da ASA. “Se não tivéssemos a Igreja, e se não existisse Deus na nossa vida, a gente não teria superado. Foi bem complicado”, ressalta a mãe de Júlia.

Arte: Tálassa Pires

Quebrando o Silêncio

A campanha do Quebrando o Silêncio, promovida pela Igreja Adventista do Sétimo Dia há 15 anos, tem o objetivo de combater a violência doméstica e motivar a denúncia, a fim de ajudar pessoas a vencer a dor. Neste ano, a ênfase do projeto tem como temática o estupro.

A diretora do projeto para o Sul do Brasil, Denise Lopes, ressalta a importância de a Igreja não apenas divulgar a iniciativa, mas também preparar e formar agentes de esperança e transformação, além incentivar a participação de profissionais para ajudar os que sofrem.

“A Bíblia fala que nós temos que ser a voz daqueles que não têm voz. E as pessoas que são vítimas perdem a voz, e a gente não pode recriminá-las. É muito comum a vítima se calar, porque ela tem medo do julgamento.  Nós precisamos, como Igreja, continuar trabalhando com isso de forma um pouco mais intencional. Nós não podemos ser coniventes com aquilo que distorce a imagem de Deus, o amor, e destrói o ser humano, porque é isso que o abuso faz”, alerta.

Embora seja realizada ao longo de todo o ano, as principais atividades do projeto, como passeatas e fóruns, ocorrem neste dia 26 de agosto em cidades de oito países da América do Sul. Para participar ou receber mais informações, visite um templo adventista (clique aqui para encontrar o mais próximo de seu endereço) ou acesse quebrandoosilencio.org [Equipe ASN, Jéssica Guidolin]

*Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados.

Abaixo, vejo o vídeo promocional da campanha contra a violência voltada ao público infantil:

Veja Também


Comentários

WordPress Image Lightbox