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Atuação de professores vai além do ensino de disciplinas

Professores mostram que uma relação de amizade com os alunos faz a diferença na hora da aprendizagem

Por Ângelo Bernardes

Professora Lidiana Galindo recebe alunos depois das aulas: dúvidas sobre a matéria e sobre a vida pessoal

Douglas* entra na sala um tanto aflito. Já tentou falar com o professor outras duas vezes e não conseguiu por causa da agenda ocupada do mestre. Parece que dessa vez vai dar certo. Ele senta ao lado do professor e lhe mostra um papel. “É meu novo horário de estudos e eu preciso que o senhor dê sua opinião”, solicita.

O docente examina o esquema e conclui que o rapaz está estudando às custas de sua saúde e paz mental. Algumas poucas perguntas e o professor descobre que ele não está conseguindo dar conta da escola, do cursinho e da vida pessoal juntos, e isso vem minando o equilíbrio do rapaz. Ele gostaria de estudar menos, mas com a pressão dos pais para passar em medicina se vê na obrigação de se impor um ritmo incompatível com sua capacidade emocional.

Cenas como esta se repetem constantemente nos ambientes de ensino. Elas evidenciam que os alunos estão em busca de algo além de conteúdo e dicas para o vestibular. Há cada vez mais uma necessidade de acompanhar o estado emocional dos estudantes.

Reflexos no desempenho

Longe de ser mera impressão de quem ensina, a influência do estado mental do aluno foi citada em pesquisa feita pela McKinsey & Company como o primeiro de cinco fatores que tem alto impacto no desempenho escolar. Segundo a apuração, a motivação e o estado de espírito seriam capazes de afetar os resultados escolares quase duas vezes mais que o contexto socioeconômico.

Vivendo na pele os efeitos destes dados, os docentes estão deixando de ser meros transmissores de conteúdo e estão aceitando a missão extracurricular de tutelar seus alunos no enfrentamento do dia a dia e nas dores do desenvolvimento pessoal.

Lidiana Galindo, professora de redação e português há 18 anos, pontua como essa nova realidade tem se integrado à sua rotina. “Os alunos me procuram muitas vezes. Trazem incertezas em relação à vida, família, relacionamentos. Procuram conselhos e apoio. A carência deles é enorme”, identifica.

Já Ricardo Ferreira, doutor em Geociências, acredita que, interagindo com os alunos fora da sala de aula é possível compreender os dilemas pessoais que interferem no aprendizado e assim dar um suporte que não seria possível se as barreiras entre professor e aluno fossem mantidas. “Ganhando a confiança deles eu posso ajudar em áreas não acadêmicas, mas que prejudicam o desempenho escolar”, afirma.

Professor Ricardo Ferreira em momento de descontração com alunos durante o almoço no refeitório da escola. Para ele, a relação fora da sala de aula fortalece a capacidade de aprendizagem da turma

Ricardo não está sozinho em seu posicionamento. Em recente visita ao Brasil, onde palestrou no evento Educação 360, o filósofo francês Gilles Lipovetsky afirmou que o conhecimento técnico é necessário, mas que é preciso formar seres humanos, e não somente pessoas úteis.

Desde os sofistas gregos, os primeiros a dividir o ensino em disciplinas, até os dias de hoje, as escolas compartimentam o aluno da mesma maneira que o fazem com as matérias escolares. Na contramão desta prática, a Rede de Educação Adventista se esforça para tratar as esferas mental, física e espiritual de seus alunos de maneira integral.

Diferencial

Tal estratégia também faz parte do DNA do Instituto Adventista de Ensino do Nordeste (Iape), internato adventista em Pernambuco. Roberto Lessa, de 18 anos, cursa o 3º ano do ensino médio na instituição é um exemplo disso da importância de receber atenção em outras áreas que não apenas a acadêmica.

Ele foi levado ao internato pela avó, que esclareceu que não tinha esperanças de que o neto passasse de ano. A surpresa veio no Conselho de Classe, quando o aluno conseguiu a aprovação por méritos próprios. Questionado sobre o que haveria provocado a mudança de atitude e resultados, Roberto disparou: “Eu percebi o quanto as pessoas aqui estavam lutando por mim”, sublinha.

Roberto Lessa (direita) ao lado do coordenador de disciplina do Iape: “aqui as pessoas lutam por mim”

Doutor em educação pela Universidade de Houston, o pesquisador George R. Knight foi convidado a dar um diagnóstico e um redirecionamento para a Educação Adventista a partir de 2018. Em suas pesquisas, Knight concluiu que um dos pilares indispensáveis para o sucesso da pedagogia da Rede está em ter profissionais capazes de enxergar o aluno de maneira completa em suas instâncias mental, física e espiritual. “Uma escola adventista que não consiga tratar seus alunos de maneira holística está fadada à irrelevância”, adverte.

*Nome fictício.

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