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Vítimas de violência sexual na infância defendem educação para prevenir

Após superarem o trauma, vítimas aceitam contar suas histórias para ajudar a coibir a violência e abuso sexual infantil

Cerca de 70% das vítimas de abuso sexual no Brasil são menores de 18 anos.

Artur Nogueira, SP… [ASN] A paraense Carolina Moreira, 21, carrega um sorriso cativante no rosto e uma simpatia no coração. Quem a vê não imagina as tragédias que já viveu. Ela foi vítima de violência sexual de um familiar em sua própria casa aos 8 anos e de um desconhecido na rua aos 13. Contudo, somente dez anos depois conseguiu falar sobre o assunto. “Para mim, falar, significa refletir sobre o fato, aceitar que infelizmente aconteceu e superar”, confessa.

A grande questão que permeia a vida das vítimas após um crime como este é: como isso poderia não ter acontecido? Para Carolina, não foi diferente. Quase todos os dias depois de viver o horror, na sua mente sempre vêm as lembranças carregadas de perguntas sem respostas.  “É difícil questionarmos sobre a vida do abusador, sobre as causas que o levaram a fazer isso. Seriam fatores psicológicos? Questões culturais? Inconsequência? São tantas as razões”, indaga.

Carolina Moreira é jornalista e superou o passado graças ao diálogo sobre o assunto.

“Para mim, falar, significa refletir sobre o fato, aceitar que infelizmente aconteceu e superar”, diz Carolina. 

Tão comum quanto o estupro é o abuso sexual, em que muitas vezes não há conjunção carnal entre vítima e agressor. Neste ato, que costuma anteceder o estupro, milhares de crianças têm sua inocência roubada por homens que moram em sua própria casa. A universitária M. de A., que prefere não se identificar, conta que sofreu abuso sexual de um primo diversas vezes em seu quarto.

“A gente costumava brincar juntos quase todos os dias, e ele se aproveitava de mim. Tocava meu corpo e me deixava muito constrangida”, relembra. No entanto, como ele era seu primo e mais velho, achava que tinha que respeitar.  A “brincadeira” só acabava quando ele decidia que era hora de parar.

Em sua memória, M. recorda que isso aconteceu duas ou três vezes até que um dia ele ouviu o pai chegando e levantou correndo, ficando na sua frente para escondê-la. “Foi aí que entendi que havia alguma coisa errada. Se era só uma brincadeira, por que ele tinha que fazer aquilo escondido?”, questiona.

M. saiu dali correndo e criou coragem para contar tudo o que havia acontecido para sua mãe. Ironicamente, os pais de seu primo são policiais e, por isso, conhecem muitas leis e histórias sobre violência e abuso sexual. A estudante acredita que seus tios o repreenderam e que a conversa pode tê-lo ajudado a compreender o que fez.

“Às vezes, alguém viveu ou vive uma situação de abuso e nem sabe, por isso, acho muito importante falarmos sobre o assunto”, diz M. de A..

A verdade é que M. levou anos para entender que aquilo havia sido um abuso sexual. Foi em 2015 que ela se deu conta de que, infelizmente, entrara para a lista de crianças abusadas sexualmente no Brasil. “Às vezes, alguém viveu ou vive uma situação de abuso e nem sabe, por isso, acho muito importante falarmos sobre o assunto”, conclui M.. Além disso, segundo especialistas, a mente humana tem a tendência de apagar da memória alguns traumas vividos. É por isso que algumas vítimas demoram anos para ter certeza do que aconteceu.

A exploração sexual também é um crime que passa desapercebido. Nascida em Salvador, a jovem L. O., que também prefere não se identificar, revela que diversas vezes recebia lanches de um idoso – e amigo da família – que em troca acariciava seus seios. Por nascer um uma família humilde, aceitava sem entender a gravidade da situação. Anos depois ela percebeu do que aquilo se tratava: abuso e exploração sexual.

Entenda 

Nos países latino-americanos existem leis severas contra crimes de abuso, violência e exploração sexual para os agressores. No Brasil, por exemplo, o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990, com alterações da Lei 11.829/2008) é esclarecedor quanto aos direitos dos menores. Além disso, existem meios mais fáceis para efetuar uma denúncia, como o Disque 100. Sobretudo, o problema da violência e da exploração sexual está relacionado à cultura sexista e patriarcal em que as brasileiras estão inseridas. Muitas vítimas crescem em famílias cuja abordagem do assunto é banalizada e superficial. Alguns pais chegam a “colocar uma pedra em cima do assunto” para evitar qualquer desgaste.

Contudo, segundo os especialistas e as próprias vítimas, a melhor solução para o problema é a prevenção por meio da educação na escola, na igreja e em casa. De acordo com a doutora em Ciências Humanas e Saúde, Cristiane Brandão, “campanhas de conscientização e políticas públicas educativas são essenciais para que todas as formas de violências sejam gradativamente reduzidas.”

Projetos de apoio

É por isso que a Igreja Adventista criou o projeto Quebrando o Silêncio, em 2002. O objetivo é combater o machismo e a violência sexual, física, psicológica e verbal contra crianças, idosos e mulheres em toda a América do Sul.

Saiba mais: Quebrando o Silêncio

A diretora do projeto no Estado de São Paulo e professora Irene Lisboa afirma que milhares de pessoas foram transformadas graças à iniciativa. “Muitas crianças e famílias são ajudadas durante o ano todo. Nosso papel é oferecer uma oportunidade de recomeço e, principalmente, combater com todas as forças a violência, o abuso e a exploração sexual”, complementa.

As ações são desenvolvidas de acordo com a necessidade da comunidade em que a Igreja está inserida. A cada ano, um tema é definido para o direcionamento da campanha. Em 2017, por exemplo, mais de 270 mil adventistas estão trabalhando voluntariamente contra a exploração sexual de crianças e mulheres em todo Estado. Neste ano, a temática do projeto Quebrando o Silêncio é justamente o estupro, suas causas e consequências.

 Movimento

Na semana do Dia Nacional do Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, instituído em 18 de maio, a Igreja Adventista do Sétimo Dia realiza ações em combate aos crimes em todas as regiões da América do Sul. Com o apoio do projeto Quebrando o Silêncio, os adventistas estão promovendo passeatas, fóruns, palestras, entrega de materiais preventivos e atendimentos às vítimas em alguns templos. As ações estão acontecendo desde o dia 4 e se estendem até o dia 21 de maio. Especialmente no dia 20, sábado, os voluntários se concentrarão nos grandes centros urbanos pelo fim do abuso e da exploração sexual infantil. [Equipe ASN, Jhenifer Costa]

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