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Campos Belos comemora 80 anos da chegada dos primeiros adventistas na cidade

Campos Belos tem a Igreja Adventista do Sétimo Dia mais antiga da região do Planalto Central

Igreja de Campos Belos comemora presença adventista com passeata no dia 18 de novembro

Campos Belos, GO… {ASN} Neste ano, a cidade de Campos Belos, GO,  comemorou os 80 anos de presença adventista na região. E o advogado camposbelense Luiz Eduardo Costa contou como foi  a chegada dos pioneiros em sua cidade natal. Confira:

“Nas duas últimas décadas do século XIX chegava ao sul do Brasil, por meio de navios mercantes oriundos da Europa, literatura Adventista em língua alemã para as comunidades germânicas de Santa Catarina.

A forte mensagem sobre a breve volta de Jesus encontrou leitores e rapidamente se espalhou pela região do Porto de Itajaí.

Exatamente na mesma época, por volta de 1883, Círiaco Antônio Cardoso, Maria Tavares, Maria Prima Gasparino, Claro da Costa Madureira, Pacífico Oliveira e outros fazendeiros com terras próximas a um vale cercado por cinco grandes montanhas em Goiás, doavam recursos e terras e assinavam a certidão de nascimento da Vila de Almas dentro do Município de Arrayas.

Nos anos seguintes, enquanto a pequena vila crescia, a mensagem do advento de Cristo e da santidade do sábado, o sétimo dia, subia desde o sul até alcançar todo o país.

Cinco décadas depois dos primeiros tijolos serem colocados na base da capela que deu origem à nossa cidade, um jovem casal vindo da Bahia se instalaria no já crescido distrito de Campos Belos e causaria espanto nos locais.

O ano era 1937 e os ventos de maio começavam a esfriar as noites anunciando o começo do inverno no cerrado.

Não havia ainda sido dado o primeiro tiro na Segunda Grande Guerra, o país mais poderoso do mundo ainda era a Inglaterra, o rádio era o mais moderno meio de comunicação e o Brasil vivia os dias de Getúlio Vargas.

Ao se apresentarem à comunidade de algumas centenas de moradores que se avizinhavam nas proximidades da centenária Rua 07 de Setembro e da Praça da Matriz, os jovens Agripino e Liciria Almeida, ele com mais de 20 e ela com apenas 15 anos, tinham que explicar os motivos de não serem vistos nas missas aos domingos.

Os dois cultuavam a Deus no sábado, não comiam certos alimentos e seguiam os cinco solas da Reforma de Lutero. O protestantismo havia fincado os pés em Campos Belos.

No dia 19 de novembro foi realizada uma Feira de Saúde

Talvez se estivéssemos falando de outros lugares a recepção não teria sido a mesma que nossos avós proporcionaram ao casal recém chegado.

Mas Campos Belos já mostrava ser um local acolhedor desde os primeiros tempos. Liciria e Agripino carregavam em si diferenças cruciais em relação aos demais moradores do pequeno distrito.

Se em 2017 assistimos uma guerra santa ser travada entre grupos distintos na arena das redes sociais, da televisão e nas ruas, como imaginar a mente daqueles que residiam em uma Campos Belos tão diferente da de  hoje.

Certamente houve estranhezas.

Difícil imaginar que ao menos algum vizinho não tenha questionado os hábitos daqueles novos baianos, mas de forma geral, a integração foi muito melhor que o esperado.

Até a década de 40 com a chegada do Missionário estadunidense da Igreja Batista, Blonnie Holmes Foreman, Dr Foreman como ficou conhecido, Liciria e Agripino não teriam com quem compartilhar sua fé.

Quando BH Foreman pousou seu avião no atual Setor Aeroporto, uma nova fase do protestantismo foi inaugurada na cidade.

Dr Foreman trouxe professoras piauienses e estabeleceu, ali nos fundos do atual prédio dos Correios, a primeira escola confessional da cidade. Com hinos protestantes cantados antes das aulas de português, matemática e educação moral e cívica, uma geração de crianças pode sair do analfabetismo e ter uma formação.

Ao longo de todo ano, a igreja comemorou a data

A comunidade Batista criada por BH Foreman recebia o casal adventista em todos os cultos onde a fé e a doutrina eram a mesma. Páscoa, natal e outras celebrações eram feitas em conjunto e de certa forma, havia uma identidade entre os grupos.

Liciria era uma mulher inteligente. Seguindo o princípio protestante de que a leitura diária da Bíblia é essencial na formação do indivíduo, ela dominava a forma culta da nossa língua. Tinha o hábito de ler e mantinha sua pequena biblioteca como um tesouro. Eu mesmo, quando ainda criança, fui presenteado por ela com um livro desse acervo e o guardo até hoje e confesso que ouvi-la falar, na igreja ou em sua casa, era um prazer e me influenciou fortemente em minha formação.

Não demorou para que sua inteligência se somasse à liderança de Mariano Barbosa, de Seu Xavier e outros fortes nomes dos primeiros líderes daquele tempo e ela ganhasse um lugar na casa de leis da cidade. Uma mulher, dona de notável saber, entre os homens representantes da cidade.

Liciria foi nossa primeira vereadora mulher e seu projeto de lei sobre merenda escolar para as crianças de nossas escolas em Campos Belos foi pioneiro em terras goianas e um dos primeiros do Brasil, motivo de orgulho para nossa história, afinal estamos falando do Brasil agrário e atrasado dos anos 60.

Décadas mais tarde outro adventista ocuparia um lugar na Câmara Municipal quando Elton Modesto foi eleito vereador.

Agripino, que não tinha o refinamento da esposa mas era altivo e também inteligente, colaborou com a comunidade sendo por muitos anos nomeado delegado.

Aqueles que tiverem mais um pouco de idade vão se lembrar que o casal fabricou por muitos anos, mantendo segredo industrial quanto aos procedimentos, um remédio antiofídico feito com raízes de plantas que moradores vinham de longe adquirir contra eventuais picadas de cobras.

Olhar para trás e ver que a integração entre diferentes confissões religiosas só fez crescer nossa cidade nos faz pensar sobre tolerância e urbanidade.

Depois dos adventistas e batistas chegaram os presbiterianos, os assembleanos, os testemunhas de jeová, os pentecostais e por fim os neo-pentecostais.

Como imaginar nossa cidade sem pessoas que professam todos esses credos? Ao longo dos anos tivemos prefeito, vereador, médicos, enfermeiros, empresários, advogados, profissionais liberais, funcionários públicos e diversos outros importantes cidadãos que se agregaram à nossa comunidade professando a fé protestante.

Como imaginar a história de Campos Belos sem o socorro humanitário que Dr Foreman fazia com seu avião, numa época em que não haviam estradas.

Como pensar na educação de Campos Belos, a melhor do Norte de Goiás hoje, segundo dados do IBGE, sem a influência protestante dos batistas na primeira escola e depois dos adventistas donos do grande Colégio Carlos Drummond de Andrade, criado por Marilene Almeida, filha de Liciria e seu esposo Domingos e dirigido por Inês Bressiani, também adventista, e que ajudou a formar uma leva de atuais profissionais e líderes camposbelenses, até encerrar suas atividades.

Nesse último fim de semana (18 de novembro) muitos dos nossos conterrâneos assistiram o desfile feito pelos adventistas nas ruas do centro de Campos Belos, talvez os espectadores não podiam imaginar que estavam vendo o fruto de uma história iniciada de forma tão frágil há longínquos 80 anos e que deu certo e contribuiu para que nossa Campos Belos fosse um lugar melhor, mais avançado e a líder natural de nossa região.

Os adventistas de Campos Belos somam-se a outros 20 milhões espalhados por mais de 200 países e territórios em todo o mundo, dos quais 1,6 milhões estão no Brasil.

Ajudam a manter em todo o mundo a 2ª maior rede educacional do planeta com mais de 1 milhão de alunos em escolas e universidades. Também possuem a maior rede de saúde espalhada pelo globo, com diversos hospitais e clínicas de vida saudável aqui no Brasil, inclusive.

Ajudam também a manter a ADRA, Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais, que atua em catástrofes e ameniza a dor e a fome em todo o mundo e pelo seu tamanho foi convidada pela ONU a fazer parte das missões humanitárias das Nações Unidas, tendo atuado em Campos Belos também.

Nas emissoras de rádios de Campos Belos já foi transmitido, por muitos anos, o programa A Voz da Profecia, que teve início em 1943, aqui no Brasil, sendo o primeiro programa religioso do rádio brasileiro.

O estilo de vida, a dieta e a profissão de fé dos adventistas são apontados pelo governo dos EUA como responsáveis por fazer de Loma Linda, cidade localizada na Califórnia e que possui mais de 70% da população como adventista, ter a maior expectativa de vida de todos os Estados Unidos e ser uma das 4 blue zones – locais onde mais se vive no mundo.

No Brasil, a USP realiza o Estudo Advento, que busca entender porque os adventistas brasileiros têm menos cânceres, doenças cardiovasculares e também vivem mais que nossa população.

Em tempos obtusos onde mitos têm surgido prometendo ser o messias que resgatará o Brasil para a moralidade perdida, a comunidade adventista de Campos Belos olha para o futuro e continua crendo e pregando que o verdadeiro messias virá em breve e, como há 80 anos faz em nossas terras, une-se em bom som e declara, “Ora, Vem, Senhor Jesus!”

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