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Teólogo explica valor prático da carta de Paulo aos romanos

O livro voltado aos cristãos romanos tem ensinamentos para os cristãos hoje, sobre diversos aspectos como lei, graça e o conflito entre o bem e o mal.

Guia de estudos deste trimestre explora o livro bíblico de Romanos.

Brasília, DF … [ASN] Nos próximos três meses, os apreciadores do material conhecido como lição da Escola Sabatina (guia de estudos temáticos), produzido pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, estudarão a carta que Paulo enviou aos romanos. Segundo o Comentário Bíblico Adventista, “parece evidente que a epístola aos romanos foi escrita durante a estada de três meses de Paulo em Corinto, na terceira viagem missionária. Muitos estudiosos datam essa visita no inverno de 57/58, mas alguns optam por uma data anterior”.

Para entender mais sobre o livro e sua aplicação prática na vida cristã, a Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) conversou com o teólogo Clacir Virmes Junior. Virmes é graduado em Teologia pelo Seminário Adventista Latinoamericano de Teologia, sede Bahia, é mestre em Teologia Bíblica pelo mesmo seminário e mestre em Ciências das Religiões pela Universidade Federal da Paraíba.

Quais são os principais pontos de relevância do livro de Romanos para a vida cristã prática?

A maneira como nós entendemos o plano da salvação afeta diretamente a maneira como vivemos. Se pensamos que aquilo que fazemos ou deixamos de fazer garante nossa salvação, o centro de nossa vida está no eu, não em Cristo. Se cremos assim, vivemos uma vida pesarosa, até neurótica, julgando os outros e a nós mesmos por parâmetros auto-impostos. Por outro lado, se só queremos ser salvos sem a interferência divina no nosso estilo de vida, mais uma vez, o que amamos é a nós mesmos e não a Deus. Queremos ser salvos, mas sem compromisso, sem relacionamento, sem transformação do caráter. Por outra perspectiva ainda, se pensamos que o que realmente importa é sermos cidadãos honestos, pessoas de bem, e não em quem cremos, de novo, nossa vida está orbitando outra coisa que não Jesus. Nossos padrões nos bastam. Não precisamos de Deus interferindo e tirando a liberdade que pensamos ter sem ele.

A carta aos Romanos, ao expor o plano da salvação, previne-nos de vivermos a vida cristã que se baseia em nossos atos para obter a salvação. Ela faz com que olhemos para Cristo como o único e exclusivo meio de salvação. Nossos olhos são colocados sobre o que Jesus alcançou na cruz, na esperança da Sua ressurreição e na certeza de Sua intercessão no santuário celestial. Ao mesmo tempo, a epístola nos ensina que nosso viver deve ser uma resposta de amor e obediência a tudo o que Cristo já fez. Nossa vida é vivida pelos ditames da Palavra de Deus, como uma resposta de gratidão ao amor de Deus. A graça, na verdade, nos liberta para vivermos à vontade de Deus em nossa vida. E, além de tudo isso, Romanos nos faz ver que por mais que vivamos princípios éticos universais, se nossa fé não estiver depositada naquele que morreu por nós, nossa vida, no fim será vã. Uma vida ética, de acordo com os padrões divinos, não será vivida em isolamento, mas num constante relacionamento com Deus, reconhecendo Suas bênçãos e Seu cuidado por nós.

Muitos pensam que estudar sobre o plano da salvação é algo abstrato, sem contato com a realidade. Na verdade, ele muda a maneira como nos relacionamos com todos os principais aspectos de nossa existência: nosso relacionamento com Deus, com o próximo e com o mundo no qual vivemos. Romanos mostrará isso a partir do capítulo 12. Ali, Paulo mostra algumas das implicações práticas de tudo aquilo que ele escreveu entre os capítulos 1-11.

O que Romanos nos fala sobre graça e lei? Uma anula ou se contrapõe à outra?

Alguns pensam que Paulo tinha opiniões paradoxas e irreconciliáveis entre lei e graça. Em muitos momentos, na carta aos Romanos, Paulo é taxativo em relação a inutilidade da lei para nos salvar. Em outros momentos, o Apóstolo dirá que a lei é “santa, justa e boa”. Ao que parece, a chave para entender isso está em 1 Timóteo 1:8: “Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo legítimo”. Quando Paulo discute o papel da lei em Romanos, ele está lidando com essa questão. Há usos legítimos e ilegítimos para a lei.

Se a lei é utilizada como ajuda no processo da salvação, esse é um uso ilegítimo. Paulo diz claramente que a graça se manifesta “sem lei” (Romanos 3:21). Se a pessoa confia na maneira como observa a lei para ser salvo, ela decaiu da graça (Gálatas 5:4). A questão por detrás das discussões do apóstolo em Romanos era a má compreensão do papel da lei na vida do cristão converso. A lei não pode mais condená-lo, porque ele está justificado pela graça.

Por outro lado, se a lei é o padrão moral da minha vida, a definição do meu estilo de vida, esse é um uso legítimo da lei. A graça muda o pecador de tal maneira que ele tem prazer na lei de Deus (Romanos 7:21). Cristo livra o cristão da sua condenação para que ela possa ser escrita no coração. Assim, cumprir a lei nada mais é do que viver os princípios celestiais que já estão em sua mente.

Além de tudo isso, Paulo é taxativo sobre a relação entre lei e graça. Em Romanos 3:21, ele diz: “Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei!”.

Duas razões pelas quais você recomenda a leitura e estudo de Romanos?

Romanos é um marco na literatura do Novo Testamento. É a maior exposição sistemática do plano da salvação. Penso que a leitura e o estudo de Romanos é mais do que necessária por duas razões. Em primeiro lugar, o tema da justificação pela fé, o eixo em torno do qual gira todo o livro, é parte fundamental da terceira mensagem angélica de Apocalipse 14.  No volume 3 do livro Mensagens Escolhidas, na página 372, Ellen White faz a seguinte declaração: “Vários me escreveram, indagando se a mensagem da justificação pela fé é a mensagem do terceiro anjo e tenho respondido: é verdadeiramente a mensagem do terceiro anjo”. Se queremos cumprir a missão que temos como igreja, estudar a carta aos Romanos é imprescindível.

Além disso, por mais que já tenhamos estudado várias vezes, ao longo da história da Escola Sabatina, a epístola aos Romanos, ainda não compreendemos sua mensagem. Ela ainda não produziu completamente os frutos que deveria produzir na igreja. Precisamos mais do que nunca compreender o que significa ser salvo e o impacto que isso tem em nossa vida. Ainda em 1889, logo depois da importante Assembleia da Associação Geral de 1888, Ellen White escreveu: “Não compreendemos o assunto da salvação. Ele é tão simples quanto o ABC. Mas não o compreendemos” (Fé e Obras, página 56). Penso que a mesma avaliação ainda é verdadeira hoje. Portanto, estudar Romanos ao longo de mais um trimestre é uma oportunidade áurea para mudar esse quadro e realmente entender as coisas maravilhosas que Deus fez, faz e fará por todos aqueles que aceitarem a Sua oferta de amor. [Equipe ASN, da redação]

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