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Wilson Borba

Wilson Borba

Sola Scriptura

As doutrinas bíblicas explicadas de uma forma simples e prática para o viver cristão.

“Consolemo-nos uns aos outros com estas palavras”

A Bíblia nunca deu margem para alguém interpretar que os mortos estão com Deus, no céu. Foto: Freepik

Em uma cerimônia fúnebre, o defunto jazia no caixão, enquanto, paradoxalmente, um orador apresentou-o como já desfrutando bem-aventuranças paradisíacas no céu. E acrescentou: “Consolemo-nos, pois ele já está com Deus, no céu, pedindo bênçãos para nós”. Quão estranhas à Bíblia são algumas ideias quanto ao estado dos mortos e à natureza do consolo a ser ministrado em tal ocasião!

O propósito deste artigo é mostrar a coerência do consolo ordenado pelo apóstolo Paulo aos cristãos de Tessalônica, em sua relação com as Escrituras Sagradas, especialmente Gênesis 2:7, o “locus classicus da antropologia veterotestamentária”.[i] Paulo e seus companheiros (1 Tessalonicenses 1:1) não ignoravam a espessa escuridão espiritual que permeava a sociedade grega dos tessalonicenses impregnada dos conceitos pagãos da imortalidade da alma, dualismo[ii], e consequente separação entre corpo e alma por ocasião da morte.[iii] “Os ritos funerários dos gregos atuavam como um rito de passagem para a alma em sua viagem do mundo dos vivos à vida extraterrena”.[iv]

No Areópago grego os atenienses escutaram Paulo até o momento em que ele falou sobre a ressurreição (Atos 17:31, 32). Para os gregos aficionados à imortalidade da alma e ao dualismo, a morte e ressurreição de Cristo era loucura (1 Coríntios 1:21-24), mas estes eventos constituem-se verdades fundamentais da fé cristã, e a certeza da ressurreição dos filhos de Deus. Nesse contexto, além de lamentar seus mortos, os perplexos tessalonicenses sofriam por ignorar o futuro dos falecidos.

Assim, compassivamente, o apóstolo orientou-lhes: “Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem” (1 Tessalonicenses 4:13, 14).

E para não deixar dúvidas sobre a fonte de sua orientação Paulo esclareceu-lhes: “Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor” (verso 15). A autoridade dos ensinos de Paulo, Silvano e Timóteo não provinha do paganismo e suas tradições, mas da segura e fidedigna Palavra do Senhor. Certamente, Satanás, o pai da mentira (João 8:44), espreita oportunidades para semear o erro, e desviar pessoas da Bíblia. Logo, nossa única segurança é a Palavra do Senhor que nos dá firme fundamento e maravilhosa esperança.

O apóstolo afirmou-lhes que: “nós, os vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor; de modo algum precederemos os que dormem” (1 Tessalonicenses 4:15). Segundo as Escrituras, a segunda vinda de Cristo será um divisor na história da humanidade. Naquele dia, os mortos em Cristo, alvo da preocupação dos tessalonicenses, serão mais honrados que os vivos. “Porquanto o Senhor mesmo, dada sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro” (1 Tessalonicenses 4:16).

Leia também: A morte não precisa ser o fim

Assim como Jerusalém não é Atenas, a Palavra de Deus não se fundamenta em pressuposições pagãs. Enquanto o platonismo despreza o corpo como prisão da alma[v], a Bíblia ensina a ressurreição do corpo – “depois nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares (verso 17).

Vale observar que, em sua segunda vinda, Jesus não colocará Seus pés na terra, pois será nos ares o encontro do Senhor com os salvos. Tanto os justos ressuscitados como os vivos serão arrebatados[vi] visível, audível, e gloriosamente, pois “aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória. E ele enviará os seus anjos, com grande som de trombetas, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, e de uma a outra extremidade dos céus” (Mateus 24:30,31).

A volta de Cristo será frustrante e destruidora para os ímpios (Apocalipse 6:15-17), mas, para o povo de Deus, a culminação da bendita esperança (Tito 2:13). Somente então receberemos a imortalidade, pois o Senhor “transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória” (Filipenses 3:21). “Num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade” (1Coríntios 15:54).

“Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras” (1 Tessalonicenses 4:18). Paulo delimita o consolo a “estas palavras”, pois são as que o Céu deu para consolar os vivos em relação aos mortos em Cristo. Nenhum pregador foi autorizado a ir além deste parâmetro.

Dizer que um morto “já está com Deus no céu pedindo bênçãos para nós” é extrapolar o que está escrito, em favor do que gostaria que estivesse escrito.

Nenhum falecido imediatamente vai ao céu. Até mesmo o rei Davi “não subiu aos céus” (Atos 2:34). Nem o filho da viúva de Naim, nem a filha de Jairo, nem mesmo Lázaro, defunto por quatro dias, reclamou após a ressurreição: “Senhor, porque me trouxeste de volta? Eu já estava no céu”. A fé dos primeiros cristãos baseava-se na Palavra do Senhor: “Eu o ressuscitarei no último dia” (João 6:40). E da mesma forma este era seu testemunho representativo: “Eu sei, replicou Marta, que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia” (João 11:24). Enquanto Marta sabia, “os mortos não sabem coisa nenhuma” (Eclesiastes 9:5). Os mortos no Senhor, inconscientemente, “descansam” ou “dormem” (1 Coríntios 15:18; Apocalipse 14:13) até Jesus voltar e os despertar. Este consolo está de acordo com o conceito bíblico a respeito do ser humano.[vii]

A propósito, um estudo sobre o estado dos mortos necessita harmonizar-se à antropologia bíblica. “Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gênesis 2:7). “O hebraico do verbo formar, יׄוצֵר (yaṣar), comumente se refere ao trabalho de um oleiro” (Isaías 45:9; Jeremias 18:6).[viii] O homem foi moldado da terra, para trabalhar com a terra, e, finalmente, voltar à terra (Gênesis 3:18, 19). A relação entre homem e terra é confirmada em Gênesis 2:7, no jogo de palavras “homem”, אָדָם (adam), e “terra”, אֲדָמָה (ʾǎdamah).[ix]

Evidentemente, “a decomposição do corpo humano após a morte dá testemunho disso”. [x] Alguns pensam que Deus soprou uma entidade ou “alma” no homem, mas foi a vida, שָׁמָה (šamah). Outra palavra hebraica traduzida por fôlego e vida é וּחַ (rûach) (Gênesis 6:17; 7:15, 22; Números 16:22, 27:16). Enquanto, em Gênesis 2:7, Deus coloca a vida no homem, em Eclesiastes 12:7, Ele tira o ruach, isto é, a vida.

A expressão hebraica נֶפֶשׁ חַיָּה (nefesh ḥayah) em Gênesis 2:7 tem sido mal traduzida por “alma vivente”. Uma melhor tradução é “ser vivo” ou “ser vivente”. Contrariando a ideia de separação entre corpo e alma, desejada por muitos neste texto, declara Gerhard von Rad: “deve-se notar que não se distingue entre corpo e alma, e sim, de modo mais realista, entre corpo e vida”.[xi] Em Gênesis 1:20, 21 e 24, a mesma designação nefesh ḥayah, ou “ser vivente”, é feita em relação aos pássaros e animais. O homem não tem uma nefesh, mas é uma nefesh. A equação se dá em pó + sopro da vida = ser vivente, pois o homem é unitário e não dual. Em sentido reverso, ser vivente – sopro da vida = morte e completa extinção, pois todas as “almas viventes” são mortais e morrem (Números 6:6; 19:13; 31:19; Juízes 16:30; Ezequiel 18:4).

Roop honestamente declarou: “Agora reconhecemos que nefesh não significa “alma” como a entendemos uma vez. Gênesis 2:7 usa nefesh para se referir a toda a pessoa viva. Na verdade, a Bíblia entende a pessoa como uma unidade”.[xii] O homem era um candidato à imortalidade, mas perdeu esse direito pela transgressão.[xiii] Conforme Veloso: “A morte, que a princípio foi uma tragédia, segundo Gênesis 5, incorporou-se à existência humana como um acontecimento natural. Uma geração gera outra geração e morre”.[xiv] Nossa imortalidade, a ser dada no dia da volta de Cristo, é condicional à aceitação de Cristo como Senhor e Salvador, e à consequente fiel obediência à Lei de Deus, não como base da salvação, mas como resultado dela (João 3:16; Romanos 6:23; Apocalipse 14:12).

Desde que o erudito alemão Oscar Cullmann (1902-1999), escreveu o clássico a respeito da incompatibilidade entre imortalidade da alma e ressurreição[xv], um número significativo de teólogos tem se posicionado contra o ensino pagão da imortalidade da alma. Sem ser exaustivo, mas apenas sugestivo, Cairus cita E. Brinner, R. Niebuhr, J. W. Wenham, J. R. W. Stott e Clark H. Pinnock, lamentando que mesmo “depois do ensaio clássico de Oscar Cullmann, os leigos depositam sua esperança na alma imortal, ainda quando um coro crescente de eruditos bíblicos e teólogos estão dizendo, principalmente entre eles, que é uma doutrina pagã”.[xvi]

Há mais de cem anos Ellen White já advertia que o erro da imortalidade da alma seria “quase universal”.[xvii] Não obstante o vasto alcance deste engano, enquanto esperamos o retorno de Jesus, os mortos continuarão inconscientemente descansando em suas tumbas. Até lá, consolemo-nos uns aos outros com a fiel Palavra do Senhor.

 

REFERÊNCIAS:

[i]Gerhard von Rad, El libro del génesis, 2ª ed. (Salamanca: Ediciones Sígueme, 1982), 92. A seguir: Gerhard von Rad.

[ii]“Na metafísica grega, o dualismo é a crença de que há dois princípios co-eternos em conflito um com o outro, tais como matéria e forma (ou espírito) como ensinava o platonismo”. Norman Geisler, Enciclopédia apologética (São Paulo: Editora Vida, 2001), 291.

[iii]Para Platão: “A alma humana é simples, indivisível, imortal e indestrutível…A alma procede de outro mundo, é de outro mundo, e retorna para outro mundo”. Raúl Kerbs, El problema de la identidad bíblica del cristianismo: las presuposiciones filosóficas de la teologia cristiana: desde los pré-socráticos al protestantismo (Libertador San Martin, Argentina: Universidad Adventista del Plata, 2014), 113. A seguir Kerbs.

[iv]Jan N. Bremmer, El concepto del alma en la antigua grecia (España, Ediciones Siruela, s.d.), 61.

[v]Kerbs, 113.

[vi]Dwight K. Nelson, Ninguém será deixado para trás: o que a Bíblia realmente diz sobre o arrebatamento e o fim do mundo, 1ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004).

[vii]A parte da teologia que estuda o ser humano é a antropologia bíblica.

[viii]R. G. Hoeber, Concordia self-study Bible. “Lutheran edition of the NIV study Bible” –Foreword. (electronic ed.) (Ge 2:7) St. Louis: Concordia Pub. House, 1997, c1986.

[ix]P. J. Kissling, Genesis: The College Press NIV commentary. (Joplin, Mo: College Press Pub. Co, 2004), 152.

[x]Francis D. Nichol, ed. Comentario Bíblico Adventista del Séptimo Día, 1ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012, 205.

[xi]Gerhard von Rad, 92.

[xii]E. F. Roop, Genesis. Believers church Bible commentary (Scottdale, Pa: Herald Press, 1987), 39.

[xiii]Ellen G. White, Patriarcas e profetas, 16ª ed.(Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013), 60.

[xiv]Mario Veloso, O homem uma pessoa vivente, 2ª ed. (São Paulo: Seminário Adventista Latino Americano de Teologia, 1984), 133.

[xv]Ver Oscar Cullmann, Imortalidade da alma ou ressurreição dos mortos, 1ª ed. (Artur Nogueira, SP: Centro de Estudos Evangélicos, 2002), 1.

[xvi]Aecio E. Cairus, “Hombre”, em Tratado de teología adventista del séptimo día, editado por Raoul Dederen, 1ª ed. (Buenos Aires: Asociación Casa Editora Sudamericana, 2009), 256, 257.

[xvii]Ellen G. White, Evangelismo, 3ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012), 247.

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