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Heron Santana

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Zygmunt Bauman e o alerta contra a religião fast food

De a toda sua produção literária, 38 de suas obras foram publicadas em português (Foto: re:publica/Jan Zappner)

Zygmunt Bauman, filósofo de origem polonesa que morreu nesta segunda-feira, dia 9 de janeiro de 2017, conduziu-me a um mundo em que o caos triunfou sobre a ordem. Seus estudos e a produtiva literatura que derivou de seu pensamento funcionam como um alerta desses tempos sombrios, em que o interesse do indivíduo está acima de tudo e o sentido de comunidade está a se dispersar no vazio. De suas visões de uma realidade fluída, ambivalente, multiforme, surgiu o conceito de sociedade líquida – a precariedade dominante, a solidez das instituições escorrendo pelos dedos, a vida embalada para consumo e descartável como embalagens de fast food.

Comecei a ler Bauman acompanhado de amigos nos primeiros anos que se seguiram à minha formação no jornalismo. Se tivesse um pouco mais de sagacidade, poderia ter compreendido melhor já naquele tempo o deslumbramento da modernidadade pela fragmentação. Bauman escreveu, em Modernidade e Ambivalência (Jorge Zahar, 1999), um de seus livros que mais gosto, que “a modernidade se orgulha da fragmentação do mundo como sua maior realização. A fragmentação é a fonte primária de sua força. O mundo que se desintegra numa pletora de problemas é um mundo governável”.

Estava tudo ali, sendo anunciado por Bauman, como se fosse um profeta a quem não se dá a devida atenção. Eram os sinais de que a legitimação da política e da religião seria arranhada, de que as ideologias haveriam de se esfacelar, a democracia sofreria o perigo do colapso, a família seria estilhaçada e serviços e produtos culturais se transformariam em commodities na era do mercado.

As relações humanas na sociedade líquida são relações de consumo. Grande perigo para as religiões e para a fé, uma vez que é difícil reconhecer soberania divina quando o que prevalece é a ilusão do homem como centro de todas as coisas. Bauman escreveu, no livro O Mal-Estar da Pós-Modernidade, que “a ideia de auto-suficiência humana minou o domínio da religião institucionalizada, não prometendo um caminho alternativo para a vida eterna, mas chamando a atenção humana para longe desse ponto; concentrando-se em vez disso, em tarefas que o ser humano pode executar e cujas consequências eles podem experimentar enquanto ainda são ‘seres que experimentam’ – e isto significa aqui nessa vida”.

É uma reflexão indispensável e sintomática, que aponta para um tipo de fé alicerçada em um conceito pop da religião, com líderes  obcecados por esportes radicais, atentos a promoções da última estação em alguma filial da Zara, antenados quanto às últimas novidades da Apple, embalando as igrejas como se a vida fosse um imenso outlet, mas incapazes de fazer a leitura de uma ruptura transformacional que multiplica analfabetos digitais, que amplia as carências suburbanas e abafa as esperanças da ampla maioria das pessoas que tentam sobreviver à revelia dos apelos de consumo.

Talvez ajudaria um mergulho na obra de Zygmunt Bauman, para mim uma das últimas vozes a mostrar o declínio dessa experiência humana sem muito tempo e espaço para o Eterno.

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