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Heron Santana

Heron Santana

Igreja Relevante

Estudos e ações inovadoras que promovem transformações sociais e ajudam a Igreja a ampliar seu relacionamento e interação com a sociedade.

Uma agenda propositiva em meio à crise da indústria de alimentos

Foto: Shutterstock

Para além do escândalo que repercutiu nos meios de comunicação, com o desencadeamento da operação “Carne Fraca”, pela Polícia Federal, surge uma oportunidade de ampliar o debate sobre o cultivo dos próprios alimentos. A utilização de métodos para produzir o que se come é a garantia de uma nutrição sem suspeita. É um plano bíblico, e defendido por pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia desde o seu surgimento. Ellen White, em ocasiões diversas, escreveu sobre as vantagens de se ter uma própria horta. Ela sugeriu que “famílias e instituições devem aprender a fazer mais quanto ao cultivo e aperfeiçoamento da terra. Se o povo tão-somente soubesse o valor dos produtos da terra, que ela produz a seu tempo, mais diligentes esforços seriam feitos para cultivar o solo” – Conselhos sobre o Regime Alimentar, 312.

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No Brasil, onde mais de 80% da população vive nas cidades, cultivar o próprio alimento é um desafio e tanto. Mas é uma bandeira simpática e é uma missão que pode ser abraçada pelos adventistas de modo geral, e vegetarianos em particular. O assunto merece reflexão e permite analisar meios que facilitem a adoção dessa prática.

É fato quente e oportuno, embora não tenha inspirado os meios de comunicação. Em sites e canais de informação sobre cultura vegetariana, tentei encontrar uma associação entre o momento que o país atravessa e a promoção do cultivo de hortas em pequenos espaços urbanos. Sem sucesso. O máximo que consegui foi uma certa celebração com a crise da indústria de carnes. Ironia, cinismo, uma certa vingança contra consumidores de proteína animal. O portal de notícias BuzzFeed, apontado por especialistas como um exemplo do futuro do jornalismo na era digital, chegou a fazer uma lista com memes de vegetarianos explorando a operação da Polícia Federal contra a indústria de carnes. O curioso e irônico é que os vegetais produzidos pelo agronegócio são marcados pela suspeita de abuso de agrotóxicos. Uma nota técnica do dia 23 de janeiro de 2017, da Coordenação de Controle Ambiental de Substâncias e Produtos Perigosos, ligada ao Ibama, salientou que o uso de agrotóxicos na agricultura brasileira mais que dobrou no período entre 2002 e 2012, com crescimento superior a 155%.

No momento em que a sociedade está tão fragilizada com a qualidade e o resultado das políticas de segurança alimentar do país, parece ser a hora apropriada para promover uma agenda positiva sobre o vegetarianismo e sobre um estilo de vida saudável a partir da produção de, pelo menos, parte dos alimentos. Parece também o momento ideal para propor uma pauta propositiva de ações e cuidados com a qualidade dos alimentos consumidos.

A Igreja Adventista pode exercer o protagonismo nesse tipo de instrução.

Acompanhe algumas ideias que poderiam ser desenvolvidas pelas igrejas e instituições adventistas.

  1. Desenvolver cursos sobre o cultivo dos próprios alimentos. Existem práticas que permitem cultivar alimentos em pequenos ambientes. Técnicas como a hidroponia, que permite cultivar plantas sem solo, com uso de água enriquecida com nutrientes essenciais para o desenvolvimento da planta. Ou ainda a difusão de tecnologias que permitam a produção de hortas em pequenos espaços urbanos. Igrejas e escolas podem abrir espaços em sua rotina para levar esse conhecimento à população.
  1. Produzir hortas em igrejas, escolas e instituições. É uma maneira de ensinar pelo exemplo. Em igrejas, escolas e instituições, havendo terra disponível para tanto, é possível cultivar hortas que produzirão alimentos que podem ser distribuídos, inclusive de graça, para vizinhos e amigos da igreja. Seria uma forma criativa de evangelização, e uma maneira de despertar a sociedade para a importância de cultivar alimentos.
  1. Ter uma proposta de comunicação mais positiva e ousada da visão adventista sobre alimentos. Para além do discurso combativo contra o consumo de carne, os meios de comunicação adventistas podem orientar as pessoas sobre o cultivo de alimentos. É possível produzir cartilhas, vídeos, guias e tutoriais sobre técnicas e procedimentos.
  1. Participar do conselho municipal de segurança alimentar. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) é um órgão do governo responsável por coordenar programas ligados à seguridade alimentar e nutricional. Tem representações em muitos municípios, que se reúnem com regularidade. Com uma filosofia e um conhecimento tão distinto sobre a saúde pelos alimentos, os adventistas podem contribuir participando das discussões e das decisões que são tomadas pelo órgão.
  1. Capacitar a Ação Solidária Adventista (ASA) para ensinar sobre o cultivo dos próprios alimentos. Com a ajuda de técnicos agrícolas, é possível desenvolver um programa de capacitação de voluntários que poderão levar para moradores próximos às igrejas informações sobre a importância e a prática do cultivo de alimentos nas casas.

O psicólogo Marshall Rosenberg, ideólogo da teoria e prática da comunicação não-violenta, disse certa vez que estava interessado “na aprendizagem motivada pela reverência à vida, motivada pelo desejo de adquirir competências, de aprender coisas novas que nos ajudem a contribuir para o nosso bem-estar e o dos outros. E o que me enche de tristeza é a aprendizagem motivada pela coerção”. A relevante mensagem da Igreja Adventista sobre os princípios de saúde, da qual o vegetarianismo é apenas um item, não precisa sobreviver apenas de orientações pautadas pelo risco de não adesão a esse estilo de vida. É possível fazer a diferença na vida das pessoas, fazendo uso da boa e velha empatia, que só um interesse genuíno pelo bem-estar do outro pode proporcionar.

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