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Heron Santana

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Três dicas para praticar a mansidão na era digital

Se antes a defesa da fé ocorria na esteira da cordialidade, hoje prevalece um evangelismo autoritário, repressivo, teclado em computadores ou smartphones tendo como combustível uma ironia depreciativa.

Se antes a defesa da fé ocorria na esteira da cordialidade, hoje prevalece um evangelismo autoritário, repressivo, teclado em computadores ou smartphones tendo como combustível uma ironia depreciativa.

Precisamos falar sobre a mansidão. Talvez nenhum outro assunto seja tão relevante hoje em dia. A impressão que tenho é que o ódio prevaleceu. É irônico perceber isso agora, quando nunca tivemos tanta oportunidade de aproximação entre as pessoas em qualquer época anterior. A web surgiu como uma chance de confraternização de fato. Barreiras seriam quebradas, preconceitos seriam superados, o respeito e a tolerância ditariam uma nova era. O discurso era incrível. Mas a realidade provou que era apenas uma utopia, uma miragem no deserto de ódio e ressentimento que nos envolveu a todos. E no qual corremos o perigo de achar que esse estado de indelicadeza é normal.

Sinto um certo espanto quando vejo o perfil de amigos antigos em uma ou outra rede social. O trato doce e educado de alguns, que tanto admirava, cedeu espaço ao cinismo. A defesa de ideais, que antes era marcada pela paixão, hoje se manifesta nas redes sociais com a arrogância de quem se imagina ter uma espécie de opinião suprema. Se antes a defesa da fé ocorria na esteira da cordialidade, hoje prevalece um evangelismo autoritário, repressivo, teclado em computadores ou smartphones tendo como combustível uma ironia depreciativa.

A mesma plataforma que definiu a liberdade plena para expressar a minha opinião é a que uso para reprimir uma opinião contrária à minha. Os limites não ficam claros entre a liberdade de expressão e a liberdade de repressão. Em meio a isso, todos parecem ter uma opinião sobre tudo. Todos falam. Pouquíssimos escutam. E os que falam usam as palavras não como argumentos, mas como instrumentos de violência gratuita. “Vivemos um tempo de grande brutalidade, em todos os sentidos, para tudo e para todos”, disse recentemente o ator Lázaro Ramos, comentando ataques racistas nas redes sociais contra sua esposa, Taís Araújo.

Lembro de Walden, livro do escritor Henry David Thoureau. Walden é ensaio biográfico e relato de uma experiência social. Transtornado pela corrosão das relações na sociedade norte-americana, sob imensa influência da industrialização e crescente urbanização, Thoureau, então com 28 anos, decide viver no bosque. Isolado do mundo. Redescobrindo a vida e o sentido de humanidade. “Temos de aprender a redespertar e nos manter despertos, por uma infinita expectativa da aurora”, afirmou. Eu também busco uma aurora. E é no desejo por ela que muitas vezes também prefiro o silêncio.

Acredito que não é preciso uma experiência tão radical para superar esse estado de intolerância. Mas para que a superação aconteça, é preciso viver a mansidão, como fruto do Espírito. O apóstolo Paulo definiu a mansidão como uma vocação cristã, que precisa ser exercida com humildade, delicadeza e compreensão mútua (Efésios 4:2). Como chegar a este modelo de conduta em um mundo dominado pela provocação? A escritora e educadora Ellen White escreveu algo formidável a esse respeito: “O espírito que se conserva manso em face da provocação, dirá mais em favor da verdade, do que o fará qualquer argumento, por mais vigoroso que seja”. – O Desejado de Todas as Nações, pág. 353.

Como praticar a mansidão em plena era digital? Como dito acima, a mansidão é fruto do Espírito, e como tal precisa ser cultivado. Eu tento seguir três atitudes. Mentiria se dissesse que é uma composição fácil. É algo difícil e que precisa ser praticado, até mesmo incluído em momentos de meditação e devoção. Mas quero compartilhar com você, e espero sinceramente, se você também busca viver a mansidão, que o ajude. São eles:

1. Você não precisa ter opinião sobre tudo, muito menos expressá-la na velocidade preconizada pelas redes.
As possibilidades da comunicação digital permitiram que todos nós, repentinamente, tivéssemos opinião formada sobre qualquer coisa. De um momento para outro, viramos todos especialistas. Política, religião, comportamento, ciência, economia, geopolítica, teologia, sexualidade, medicina, direito, criminalidade, justiça, punição, vida, morte. Qualquer que seja o assunto, todos têm uma opinião a respeito. E essa opinião é resultado não de profunda análise, muito menos do estudo, mas do desejo de pertencer, de ser aceito, ou de superar inseguranças com um posicionamento. E também porque a informação é fácil e abundante. E essa é também uma ironia: o excesso de informação leva ao excesso de opinião, e esse é o caminho largo para a desorientação. Não se sentir obrigado a participar de uma conversa pode ajudá-lo a colaborar de forma mais íntegra com esta mesma conversa. Você pode explorar o silêncio para ouvir mais. E pode expor sua opinião com calma, sem o apelo do comentário em “tempo real”.

2 – Você não precisa ter sempre razão.
A base da intolerância é a necessidade de ter razão sempre, de não dar o braço a torcer. Este é um sintoma bem específico desses tempos digitais. As discussões não se cruzam, porque estão em linhas paralelas. Mais do que ajudar o outro, o interesse é superar um embate. Mágoas, remorsos e até mesmo ódio se multiplicam quando o que está em jogo é apenas defender o seu ponto de vista, por melhor que ele seja.
O pastor Donald Miller, autor de Como os pinguins me ajudaram a entender Deus, tomou uma decisão a esse respeito que considero inspirada. Falando acerca de discussões sobre crença, ele escreveu:

“Meu mais recente esforço de fé não é do tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que acreditam em Deus e podem provar que ele existe – e a esse ponto a discussão já deixou há muito de ser sobre Deus e passou a ser sobre quem é mais inteligente; honestamente, não estou interessado nisso.”

3 – Desenvolva uma comunicação compassiva.
Marshall Rosenberg, doutor em psicologia clínica da Universidade de Wisconsin e estudioso da comunicação não-violenta, afirma que grande parte dos desentendimentos entre as pessoas pode ser amenizada ou mesmo evitada com o emprego da “linguagem da compaixão”. Segundo ele, esse é um processo de comunicação que promove o respeito, a atenção, a empatia e gera o mútuo desejo de entrega a uma vida em favor do outro.
Um grande desafio que temos hoje em dia é negligenciar uma cultura que celebra resultados individuais acima da saúde das relações coletivas. A cultura digital é alimentada pela cultura do indivíduo, aquele que consegue mais cliques, mais flashes, mais compartilhamentos, mais capacidade viral. Penso que esse egocentrismo é o alimento para um estado de distorção muito comum hoje em dia, que é a incapacidade de auto-crítica. Uma cultura que apenas aplaude nos deixa tão despreparados para observar nossos erros que censuramos qualquer avaliação de nossas opiniões que não seja a aceitação. A agressão resultante é apenas uma consequência.

Um espírito manso é capaz de progredir em pessoas capazes de negar sua própria importância. Lembro de Paulo, mais uma vez: “Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24).

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