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Heron Santana

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Igreja Relevante

Estudos e ações inovadoras que promovem transformações sociais e ajudam a Igreja a ampliar seu relacionamento e interação com a sociedade.

A Igreja e o drama (invisível) da estiagem

Foto: Shutterstock

Morte e Vida Severina é a obra prima do escritor pernambucano João Cabral de Melo Neto. O poema contextualiza a jornada de um migrante sertanejo que sai do interior do Estado, fugindo da seca, em busca de vida mais favorável na capital pernambucana. É obra fundamental para compreender essa trajetória, tão comum na vida nordestina. É a arte fazendo o que faz de melhor: sensibilizando e conscientizando para dramas humanos, e nesse caso um drama negligenciado pela geração surgida com a cultura digital. Morte e Vida Severina foi publicado há 62 anos e, desde então, é um alerta para a indiferença a esse sofrimento. O tema que causou empatia suficiente em João Cabral de Melo Neto para produzir alta literatura não está, hoje em dia, nos Trend Topics, não viraliza no Facebook, não desperta mobilizações por meio de uma hashtag inspirada. Não gera debate e nem mesmo mobilização, até quando uma outra expressão criativa como Mad Max: Estrada de Fúria, de 2015, trouxe como pano de fundo social de sua história a distopia de um mundo em plena crise hídrica.

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Em abril desse ano, uma extensa reportagem do portal G1 apontou que quase 80% dos municípios do Nordeste decretaram estado de emergência ou de calamidade, nos últimos 5 anos, devido a estiagem. A seca castiga os canaviais pernambucanos e gera incerteza para famílias que vivem da cultura da cana de açúcar. A barragem de Jucazinho, que abastece 800 mil pessoas de 15 municípios pernambucanos, convive com insuficiência de reservatório devido a pouca chuva. Rio Grande do Norte lamenta a pior estiagem em 100 anos. Em Sergipe, a seca mata o gado e gera perdas na bacia leiteira, base econômica importante. Na Paraíba, dados do Programa de Ação Estadual de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca apontam o dado alarmante de que 93,7% do Estado está em processo de desertificação. No Maranhão, dos 217 municípios do estado, 94 tiveram decretos por seca ou por estiagem entre 2012 e 2016, o que representa 43,3% do total. No Piauí, esse percentual chega a 98,2%. No Ceará, a pior seca dos últimos 100 anos traz prejuízos irrecuperáveis para os agricultores. Na Bahia, a estiagem afeta a vida de mais de 4 milhões de pessoas. Em cidades de Alagoas, moradores percorrem durante seis horas, todos os dias, para encontrar água para a família.

Indiferença?

Como ficar indiferente a todo esse sofrimento? Há uma lógica urbana centrada nas grandes metrópoles, no discurso e prática de empresas e instituições, conduzida pela lógica econômica, que consegue enxergar os dramas dos grandes centros. Mas a igreja precisa estar atenta para não restringir seu discurso e atenção apenas para os grandes centros urbanos, porque sua lógica não é econômica. O desafio é ter uma preocupação para um problema quase invisível, como o da estiagem e da desertificação, que se arrasta há décadas, e tem piorado nos últimos cinco anos. Estamos falando de um problema que afeta, direta ou indiretamente, mais de 53 milhões de brasileiros que vivem no Nordeste do país. E que afeta você, de uma forma ou de outra, onde quer que você esteja, como mostrou o jornalista Thomas Friedman no essencial livro Quente, Plano e Lotado. Friedman, colunista do The New York Times e um entusiasta da globalização, mostra como a internet interligou mercados e ampliou o poder de consumo de bilhões de pessoas, criando uma nova classe de consumidores antes à margem do poder de compra. São mais pessoas exigindo produto e conforto, que se traduz em mais carros, casas, eletrodomésticos, refrigeradores, condicionadores de ar. E mais matéria-prima e mais energia para esta produção.

O resultado disso? Mais biodiversidade explorada, mais dependência de combustíveis fósseis, mais emissões de CO2, mais desmatamentos e mais impactos de mudança climática no mundo todo. Afeta do que você come ao que você respira. Deixar de prestar atenção a este assunto que provoca dor e sofrimento na vida de tanta gente não parece uma decisão inteligente para quem tem a missão de anunciar o Reino de Deus nesta terra.

E que tal se a igreja dedicasse um dia para orar e para atender as pessoas do Nordeste impactadas pela estiagem? Que tal uma ação nacional que permita chamar a atenção para este assunto, e para esta calamidade silenciosa? E se de repente uma rede de inteligência e inovação fosse proporcionada pelos adventistas para garantir tecnologias baratas e sustentáveis, que conseguissem ser desenvolvidas pelas próprias igrejas dessa região? Lembro de um tempo que a ADRA, agência humanitária adventista, desenvolvia um projeto de policultura no sertão da Bahia, ensinando novas maneiras de plantio e de cuidado com a terra, permitindo o desenvolvimento de várias culturas, mesmo na estiagem. E se a ADRA voltasse a desenvolver um projeto desse tipo, com o apoio da igreja? Ou de repente prestar atenção em iniciativas comoventes, como o projeto de “bioágua”, da ONG Caatinga, uma tecnologia que reaproveita a água usada no chuveiro e na pia da cozinha, no sertão de Pernambuco, para a irrigação de plantas frutíferas e hortaliças?

Cuidar da Terra e da biosfera é um imperativo divino desde o Jardim do Éden, e que, ao que parece, insiste em reclamar a responsabilidade do homem, ainda nos dias de hoje. Talvez seja um exercício de empatia que revolucionará uma igreja que vive um ciclo extraordinário de crescimento nessa terra cuja natureza tem sido tão castigada e que parece implorar por cuidado e atenção para um mundo cada vez mais conectado e contraditoriamente distante dos desafios enfrentados por sua população.

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