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Heron Santana

Heron Santana

Igreja Relevante

Estudos e ações inovadoras que promovem transformações sociais e ajudam a Igreja a ampliar seu relacionamento e interação com a sociedade.

Igreja e cultura de paz

Stephen Killelea é um empresário australiano que alcançou sucesso com tecnologias de informação numa era pré-startups. Um de seus negócios foi responsável pela gestão de sistemas para gigantes do sistema financeiro internacional – inclua nessa lista Visa, Mastercard, American Express e as bolsas de valores de Nova Iorque, Londres e Hong Kong. Ele também é o fundador do Instituto para Economia e Paz, uma organização sem fins lucrativos que se propõe a analisar o impacto da paz na economia mundial, o custo alto da violência para as nações e fazer pesquisas sobre experiências de sucesso das sociedades pacíficas.

As consequências econômicas da violência resultaram na criação do Índice Global da Paz. É uma pesquisa impressionante e uma iniciativa que conta com a boa vontade de influenciadores internacionais como Desmond Tutu, Jimmy Carter e Dalai Lama. O último estudo, divulgado na semana passada, traz os indicadores de 2015 da violência e dos esforços pela paz executado pelas nações. Vale a pena gastar um tempo com o estudo, que pode ser baixado em pdf nesse link.

Os dados trazem uma má notícia para o Brasil. Nós caímos 11 posições no ranking dos países mais pacíficos do mundo. Hoje estamos atrás de nações com recente história de conflitos sociais e instabilidades econômicas, como Haiti e Serra Leoa. O estudo considera variáveis como atividade terrorista, crimes violentos, encarceramento da população, acesso a armas, desigualdades sociais, desigualdade de gêneros e o Produto Interno Bruto. Vale a pena ler a análise que o El País fez do estudo.

A alta taxa de homicídios ajudou a derrubar o Brasil no ranking. São mais de 25 por 100 mil habitantes, a 12a maior do mundo. São mais de 50 mil mortes por ano. O custo da violência leva a cada ano R$ 765 bilhões do orçamento público, o equivalente a 8% do PIB.

Ódio nas mídias sociais

Em tempos de Operação Lava-Jato e Copa América, houve pouco espaço para repercutir o estudo da instituição australiana. Uma pena, porque se tem algo que precisa ser observado com atenção pela sociedade é a explosão da violência e as motivações para esse grave contexto social. Há um sentimento em curso capaz de enfraquecer os esforços pela cultura de paz. O ódio parece despontar como sentimento dominante, e basta participar das redes e mídias sociais para chegar a esta conclusão. Foi o que fez a pesquisadora Mônica Stephens, da Humboldt State University, na Califórnia. Autora da Geografia do Ódio (hiperlink http://users.humboldt.edu/mstephens/hate/hate_map.html), ela analisou centenas de milhares de tweets para identificar o mapa do ódio nos Estados Unidos. São dados tristes. Um deles revela que as maiores ofensas ocorrem na região americana conhecida como “Cinturão da Bíblia”, no sudeste americano predominantemente protestante.

É um estudo revelador sobre como o ódio está invadindo as novas mídias por meio de posts, mensagens, comentários, impropérios dirigidos aos segmentos de sempre, preconceitos distribuindo traumas inicialmente para negros, religiosos, homossexuais e pobres e atualmente sendo dirigidos a todos em uma manifestação de massa do poder de odiar.

A impressão é de que há um sentimento vitorioso na era da web 2.0, das mensagens instantâneas, da revolução das redes sociais, da incrível facilidade de acesso a tecnologias variadas, e esse sentimento é o ódio. Há ódio para todos, em abundância, majoritariamente gratuito, quase integralmente nas trincheiras do anonimato virtual, unindo uma espécie de Klu Klux Klan cibernética, neonazistas do ciberespaço, facínoras arrancando nacos de reputação de pessoas e instituições por meio de bytes. Da política a cultura, do comportamento a ciência, da educação a religião, não resta dúvida: o ódio prevaleceu.

Uma reflexão pertinente sobre esse assunto foi feita pelo antropólogo e crítico literário francês René Girard, de quem li um ensaio que me sensibilizou – o livro “Eu via Satanás cair como um relâmpago” – em que ele faz uma leitura da violência a partir da antropologia bíblica. Segundo Girard, o homem está marcado por um desejo de imitação, ao qual se refere como desejo mimético, e por esse motivo está envolvido em um circuito de comparações e rivalidades com o outro. O caráter violento desse comportamento seria um fenômeno metaforicamente “oculto desde a fundação do mundo”, daí o fato de Caim ter usado de violência contra seu irmão Abel.

Para Girard, como o ser humano não sabe o que desejar, imita o que os outros desejam. Uma tese simples e de angustiantes consequências. Primeiro, descobrimos que não somos indivíduos autossuficientes como quer nos fazer crer a mídia e a cultura do consumo. Segundo, nossa inveja por um objeto, pessoa ou ideia do outro acarreta em conflitos que resultam em ódio capaz de levar a sacrifícios, como o assassinato de Abel. Por trás desse pensamento está a cultura do narcisismo contemporâneo, baseada na imitação de estereótipos variados que nos levam à busca pela felicidade permanente ou pelo corpo perfeito ou pela prosperidade fácil ou pela celebridade instantânea. As pressões que resultam daí explicam o crescimento de ansiedades, depressões, suicídios, violências recorrentes manifestadas por meio do ódio político, religioso, ideológico, sexual, social e racial.

Igreja como contraponto

A igreja precisa ser o contraponto a essa explosão de sentimentos ruins que se manifesta em forma de ódio físico e virtual extremo, contra o semelhante ou contra instituições. É um esforço que precisa ser institucional e pessoal. Existem formas de levar esta ideia adiante. Basta as igrejas dedicarem tempo a criar uma cultura de paz, no bairro onde estão inseridas, com representantes participando ativamente do debate com governos e sociedades e com fiéis evitando a cultura de ódio que prolifera nas redes sociais.

Essa é a grande responsabilidade do cristianismo, inspirar os cristãos a não incorrerem neste mapa de ódio, mas apregoar o amor pelo outro, subverter as cadeias da violência, oferecer a outra face como um ato de contracultura e demonstrar a pessoas esmagadas por opressões diversas que é possível, sim, viver em paz e com esperança. Segundo a escritora americana Ellen White, as manifestações de ódio provocadas “pelos muros de preconceito ruirão por si mesmos, como aconteceu com os muros de Jericó, quando os cristãos obedecerem à Palavra de Deus, a qual recomenda que tenham supremo amor a seu Criador e amor imparcial ao próximo” (Review and Herald, 17 de dezembro de 1895).

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