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Heron Santana

Heron Santana

Igreja Relevante

Estudos e ações inovadoras que promovem transformações sociais e ajudam a Igreja a ampliar seu relacionamento e interação com a sociedade.

A crise econômica, a fome e o papel da Igreja

A fome tem sido um tema cada vez menos explorado na mídia, que está cada vez mais metropolitana, cada vez mais concentrada e cada vez mais pautada pelas redes sociais.

A fome tem sido um tema cada vez menos explorado na mídia, que está cada vez mais metropolitana, cada vez mais concentrada e cada vez mais pautada pelas redes sociais.

A crise ocupa manchetes e noticiários e se transformou mais uma vez em palavra da moda. Decisões estão sendo tomadas considerando o impacto da crise. O peso já é sentido no bolso: redução do poder de compra, aumento explosivo de impostos, enfraquecimento de programas sociais, inflação dando passeio, alerta para o crescimento da pobreza.

Em décadas recentes, o Brasil conseguiu conquistas sociais e econômicas que chamaram a atenção do mundo. Uma delas foi a redução da fome. Do início do século até agora, o país conseguiu reduzir em 82% o número de subalimentados em seu território. Os dados são da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Programas de transferência de renda e de segurança alimentar contribuíram para esse resultado expressivo. O medo agora é ver um retrocesso nessas conquistas. Segundo a mesma organização, a luta contra a fome tem bloqueios claros: catástrofes naturais, conflitos, mudanças no clima – e crises econômicas, como esta agora.

A fome tem sido um tema cada vez menos explorado na mídia, que está cada vez mais metropolitana, cada vez mais concentrada e cada vez mais pautada pelas redes sociais. A FAO apresentou relatório este ano, pouco divulgado, mostrando que cerca de 800 milhões de pessoas passam fome no mundo. É quatro vezes a população brasileira. E muitos desses que estão com fome ou mal alimentados estão bem aqui, perto da gente.

Eu pesquiso e leio sobre a fome desde a faculdade, há quase 20 anos. Reflexo de uma descoberta: foi lá que conheci um médico conterrâneo, e seus escritos e ideias sobre a fome local e a fome global. Eu me refiro ao pernambucano Josué de Castro. Era médico, sociólogo, nutricionista, antropólogo, humanista. Era também um retirante nordestino. Saiu da região, fugindo da seca, como tantos outros, para se aventurar em terras que não eram suas.

Formou-se em Medicina aos 21 anos, no Rio de Janeiro. Três anos depois apresentou a tese “O problema fisiológico da alimentação no Brasil”. Um sinal de que estava à frente do seu tempo, colocando a nutrição em destaque no interesse sociológico do assunto principal de sua obra, a fome. Dois livros de Josué de Castro são essenciais e recomendo a leitura: “Geografia da Fome” e “Fome: Um Tema Proibido”.

Josué de Castro descobriu a fome nos manguezais de Recife. Vendo o homem ali, mergulhado na lama, catando caranguejos para sobreviver, ele escreveu:

“Não foi na Sorbonne, nem em qualquer outra universidade sábia que travei conhecimento com o fenômeno da fome. A fome se revelou espontaneamente aos meus olhos nos mangues do (Rio) Capibaribe, nos bairros miseráveis do Recife – Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite. Esta foi a minha Sorbonne. A lama dos mangues de Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo. São seres anfíbios – habitantes da terra e da água, meio homens e meio bichos. Alimentados na infância com caldo de caranguejo – este leite de lama -, se faziam irmãos de leite dos caranguejos. Cedo me dei conta desse estranho mimetismo: os homens se assemelhando em tudo aos caranguejos. Arrastando-se, acachapando-se como caranguejos para poderem sobreviver. A impressão que eu tinha, era de que os habitantes dos mangues – homens e caranguejos nascidos à beira do rio – à medida que iam crescendo, iam cada vez se atolando mais na lama. Foi assim que senti formigar dentro de mim a terrível descoberta da fome” – Prefácio do livro Homens e Caranguejos.

Manguezais de Recife

E foi a partir dos manguezais de Recife que Josué de Castro percebeu que a fome está em todo o lugar. Sua obra é leitura de doer o estômago. E é leitura que me leva a outra, da escritora Ellen White, apontando crianças como vítimas principais desse flagelo:

“Há nas grandes cidades multidões que recebem menos cuidado e consideração do que os que são concedidos a mudos animais. Pensai nas famílias amontoadas como rebanhos em miseráveis cortiços, sombrios porões muitos deles, exalando umidade e imundícia. Nesses sórdidos lugares as crianças nascem, crescem e morrem. Nada veem das belezas naturais que Deus criou para deleitar os sentidos e elevar a alma. Rotas e quase morrendo de fome, vivem elas entre o vício e a depravação, moldadas no caráter pela miséria e o pecado que as rodeia. As crianças só ouvem o nome de Deus de maneira profana. A linguagem suja, as imprecações e os insultos enchem-lhes os ouvidos. As exalações da bebida e do fumo, nocivos maus cheiros e degradação moral pervertem-lhes os sentidos. Assim se preparam multidões para se tornarem criminosos, inimigos da sociedade que os abandonou à miséria e à degradação” – A Ciência do Bom Viver, 189 e 190.

Ao estudar a fome, Josué de Castro se tornou um indispensável agitador social e político. Com ele aprendi que a fome é multifacetada. Existe a fome individual e coletiva. A fome total e parcial. A fome específica e a fome oculta. A fome tabu. A fome estabelecida em cadeias de subnutrição. O grande objetivo era denunciar a fome como algo presente no cotidiano das pessoas. Mostrar que era um crime, e era inaceitável.

Eu entendo que um lugar bom para a Igreja estar é em meio a crise, cuidando das pessoas e apontando um caminho diferente para sair da situação infeliz a que estão sujeitas. A Igreja do século 21 precisa de profetas, mas profetas mais preocupados em estar em meio às pessoas, denunciando a corrupção e apontando caminhos de esperança, como Jeremias, e menos preocupados em defender seu status quo religioso, como Jonas. Pessoalmente, acredito que a Igreja pode servir como uma rede de assistência a pessoas com carências de segurança alimentar.

Isso pode ser feito de duas maneiras:

1) Fortalecendo o Mutirão de Natal: A campanha adventista de doação de alimentos é uma das mais importantes mobilizações do país pela segurança alimentar. A Igreja pode ampliar ainda mais esta relevância, fortalecendo as iniciativas de cada congregação para estimular a participação dos seguidores nesta campanha. Eu me lembro de um tempo em que assessorei pastores e líderes religiosos voluntários do Mutirão de Natal a tomar duas medidas importantes. A primeira, tentar conhecer nas cidades se havia conselhos de segurança alimentar, e participar ativamente dessas reuniões, em nome do Mutirão de Natal. A segunda, visitar e conhecer entidades municipais que poderiam ser beneficiadas pelo programa voluntário de coleta de alimentos.

2) A segunda sugestão é levar conhecimento para as comunidades sobre reaproveitamento de alimentos. O desperdício de alimentos é um problema crônico de segurança alimentar. Há registro da FAO mostrando que o desperdício de alimentos no mundo chega a 1,7 bilhão de toneladas por ano – um terço de tudo o que é produzido. Só aqui teríamos o suficiente para alimentar as cerca de 925 milhões de pessoas que passam fome todos os dias. Seria o verdadeiro fome zero.

No Brasil 26,3 milhões de toneladas de comida são jogados no lixo a cada ano. Se aproveitadas, daria para alimentar todos os brasileiros que sofrem pela fome. Esse é um papel que poderia ser assumido por muitas igrejas. Há igrejas que fazem cursos de culinária vegetariana, natural e saudável. Em comunidades pobres, esses cursos ganhariam ainda mais relevância, ao incluir o reaproveitamento de alimentos na receita. Uma medida simples, mas que faria a diferença no problema de desperdício de alimentos.

Se tem algo que me deixa feliz é perceber que a Igreja pode ser uma bênção para as pessoas, por meio do ministério e do magistério. A Igreja tem essa vocação de salvar e ensinar – para agora e para a eternidade. Não consigo saber a extensão dessa crise, quando ela vai passar e se ela vai passar. Mas consigo entender que estar atento às necessidades humanas e demonstrar o acolhimento cristão genuíno é uma obra missionária das mais relevantes que podem ser realizadas nesses tempos sombrios.

 

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