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Carlos Nunes

Carlos Nunes

Ética Prática

Assuntos relacionados à ética sob o ponto de vista cristão e os dilemas enfrentados pelas pessoas no seu cotidiano.

Profissões altruístas x tempos modernos

Das belas profissões, tenho duas das mais incríveis e complicadas: sou jornalista e pastor! E quero dizer que admiro a todas por seu valor intrínseco, serviço social e natureza de ofício. Todavia, talvez nenhuma das demais “sofra do mal” do altruísmo! Explico: um médico, um contador, um engenheiro, um dentista ou outros tantos profissionais ditos “técnicos” têm, por natureza de ofício, uma chamada reserva de mercado natural. Ninguém se arvora ao direito de exercer sob pena, de acordo com a lei, de ser responsabilizado por exercício ilegal da profissão.

Antes que de início seja mal-interpretado e, diz um ditado que “cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça”, esclareço que este artigo não trata de reserva de mercado! Trata de defender que o altruísmo do pastorado e do jornalismo dá direitos a todos, mas o pacote tem excluído os deveres dos “praticantes”.

Direito todos temos de opinar, escrever, contraditar, informar e, em Jornalismo, com o advento das redes sociais, se fortaleceu ainda mais o conceito de “Jornalismo Cidadão”… Todos instantaneamente são não somente a fonte como, muitas vezes, o próprio canal da informação com seus posts, fotos e vídeos. O Jornalismo é cada vez mais plural, amplo, irrestrito e incondicional. No entanto, poucos se dão conta de que a via é de mão dupla. Quem exerce o direito, tem de cuidar com o dever! O dever da isenção, da apuração irrestrita, de minimizar ao máximo o erro, de ampliar o espectro da informação ou da opinião embasada, estudada e confirmada. O “achismo” não tem lugar no Jornalismo.

Tempos atrás li um artigo da reconhecida jornalista Eliane Brum, do qual extraio a citação: “é, também, de condomínios e de muros que se trata quando, nas redes sociais da internet, torna-se impossível escutar o argumento do outro, porque o lado de cá, seja ele qual for, tem o privilégio das certezas ou do bem e da justiça e da crítica”. No fundo, porque todos têm direitos, deveres nem todos.

Quanto ao pastorado, igualmente se “sofre do mal do altruísmo”. Ainda que existam diferenças interpretativas quanto ao significado de sacerdócio e pastorado. Mas o ponto é que, para além da dúvida exegética, o senso comum permite que todos tenham a sua opinião, seu viés bíblico, espiritual e religioso. O direito ao ministério de todos os crentes não é livre, vai bem mais além, porque pressupõe condição sine qua non para o estabelecimento do Reino, daí que não se trata de negar o direito, mas exaltar o dever!

E qual é o dever? Estudar! Opinar com base escriturística, respaldo acadêmico, fontes confiáveis, critérios objetivos e não suscetíveis a tendências subliminares de conduta. Talvez, tanto no Jornalismo como no pastorado, seria utopia imaginar que, mesmo em um mundo ideal, com todos preparados, habilitados e capacitados nao houvesse diferenças salutares ao bom convívio. Ocorre que vivemos distantes desse chamado “mundo ideal” e penso que faria bem ao nosso convívio aqui um pouco mais de interesse por cavar mais fundo nas possibilidades de conhecimento.

O jornalismo e o pastorado são ofícios de dores. Dói quando se recebe crítica. Dói quando se é mal-interpretado. Dói quando não se dá o benefício in dubio pro reu. Dói quando se dá margem a uma possível intenção subliminar que nunca esteve na consciência. Dói quando se imagina que do outro lado não se queira construir. Por outro lado, o Jornalismo e o pastorado sao ofícios de prazer. Dá prazer escrever e pregar, investigar e aconselhar. Dá prazer ser lido e ser ouvido. Dá prazer construir e, às vezes, desconstruir também por meio de um texto de TV, internet, rádio e jornal ou, quem sabe, um sermão, uma visita, uma capacitação teológica.

Convido a todos que já compartilham comigo desses belos ofícios que o façam, que experimentem as alegrias, mas que, por favor, não esqueçam de considerar os deveres. O mais bonito delas, eu creio, é que propiciam protagonismo. Não o protagonismo egocêntrico que nos afasta de Deus, diante do qual somos todos coadjuvantes, mas o protagonismo da ação, da atitude e do risco. Não abro mão disso. Ainda que doa, o prazer é maior. Sou jornalista e pastor. Ofícios de dores e prazeres, eles se doam porque são altruístas! E talvez por aí me ajudem a ser um ser humano melhor.

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