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Carlos Nunes

Carlos Nunes

Ética Prática

Assuntos relacionados à ética sob o ponto de vista cristão e os dilemas enfrentados pelas pessoas no seu cotidiano.

Os judeus pedem sinais. Os gregos, sabedoria

Foto: Shutterstock

O título do primeiro artigo de 2017 é uma frase do apóstolo Paulo dirigida à igreja de Corinto. Com ela, pretendo propor uma análise da experiência religiosa moderna.

Os judeus, ciosos da leitura correta das profecias que se cumpriam ao longo do tempo, aprenderam a vincular sua espiritualidade ao binômio ciência-fé. Em outras palavras: criam, depositando fé, porque, uma vez conhecendo, viam confirmadas suas crencas. A chave para ativar essa experiência se dava por dos sinais. Um quê de misticismo que impunha à sua religiosidade uma vital dependência de milagres do tipo curas, restaurações, ressurreições ou algo do gênero.

Foi assim em muitos momentos. Quando o cordeirinho apareceu milagrosamente para substituir Isaque. Quando a sarca ardeu sem se consumir. No instante em que o monte Sinai fumegou e os céus declararam o poder de Deus anunciando a entrega da Lei. Naquela parede palaciana quando a mão de Deus escreveu a sentença aos babilônios. Quando a voz do Pai reconheceu o Filho e a pomba materializou o Espírito Santo. Enfim, em muitas ocasiões.

O mais paradoxal é notar que, pedindo sinais, não fizeram a leitura correta do mais precioso deles: o Messias era o Cristo, não o rei restaurador terrenal esperado em sua compreensão equivocada. Tanto pediam e tanto Cristo lhes deu sinais! No entanto, foram incapazes de identificar o maior e mais completo deles, o próprio Jesus!

Por outro lado, a experiência grega, ou gentílica, tinha outro pressuposto cognitivo. Vivendo a dicotomia entre corpo e espírito, ou matéria e alma, vinculavam sua religiosidade à lógica racional. Em outras palavras, a religião grega ou gentílica primava pela sabedoria. Eram menos propensos a uma aceitação experiencial, emocional, psicológica de um simulacro espiritual como criam os judeus, no pólo oposto. Assim, o próprio Paulo tentou dissuadi-los discursando no Aerópago, usando da retórica filosófica grega com grande propriedade intelectual, ainda que, frustrado, logo após tenha reconhecido o fracasso espiritual da estratégia.

Essa análise bem se prestaria a muitas outras variantes que vou eliminar por economia de tempo e espaço. Vale, agora, a aplicação moderna. Nos dias de hoje, repete-se o fenômeno. Cristãos espiritualistas seguem pedindo sinais, respostas milagrosas, curas raras, emoções à flor da pele. Sustentam sua fé ao tanto que Deus for capaz de falar-lhes ao coração. E ainda que Deus nao lhes responda enviando sinais, não abandonam o Caminho porque, inconscientemente, seguem esperando e racionalizando a espera, porque, afinal de contas, na hora do silêncio de Deus, todos temos de ser um pouco gregos.

No outro lado, estão os gregos modernos. Aqueles que pedem um Deus cartesiano, capaz de provar-lhes o intelecto, sustentando com premissas a sua tese divina. Considerando bem à parte sua cosmovisão, soa como uma tremenda ousadia pretensiosa querer a criatura justificar o Criador com base no seu ideário lógico-racional. Pudera!

O mais incrível é que, nos dois casos, Cristo deu de sobejo o que pediam. O próprio Paulo reconhece isso no texto em análise! O sinal do Cristo pendurado no madeiro, para os judeus, foi pedra de tropeco, escândalo. A maior sabedoria encontrado nos ensinos de Cristo, para os gregos, foi tida por loucura!

Resumo da ópera: sem o Espírito Santo, como temos estudado nos manuais de Escola Sabatina desse trimestre, a religião moderna carece de poder, sentido e consciência! E é também um aviso para nós adventistas. Nós que dependemos das respostas divinas em algum momento seremos causadores dos escândalos eclesiásticos que tanto se repetem por aí afora. Uma porção de crentes carentes dos sinais de um Deus silente que parece não querer ouvir nosso clamor. Resultado: adventistas vazios, ciosos muitos deles da doxologia das formas em detrimento da essência. Do outro lado, os que querem o Deus coerente, lógico, que terá de se explicar racionalmente e de acordo ao nosso código racional, caso contrário ficará sempre aquém da nossa expectativa religiosa. Há muitos desses pelas igrejas, enquadrando Deus e a leitura que fazem das Escrituras à tabula rasa dos seus parcos conhecimentos proféticos, escatológicos ou linguísticos. Dou por assentado que Deus é bem mais que isso!

Vamos pregar e viver o Cristo crucificado! Ele até pode continuar como escândalo aos “judaizantes” ou loucura para os “racionalistas”, mas estou seguro fará muito maior sentido para cada um de nós, preenchendo o vazio existencial que se completará em nós na experiência do outro, aquele a quem compartilhemos desse Cristo! Os judeus pedem sinais, os gregos sabedoria… Nós, atrevo a me incluir, o Cristo crucificado!

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