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Adolfo Suárez

Adolfo Suárez

Muito além do ensino

Reflexões sobre aspectos da vida diária a partir da Teologia, Educação e Ciências da Religião

Jesus Cristo e a Bíblia

Imagem: Reprodução

Como Jesus Cristo via as Escrituras?

Como argumenta Brad Young, Jesus era um teólogo que baseou sua teologia no Judaísmo.[1] Sim, “Jesus é um teólogo. Seu rico gênio e humor afiado impregnam Suas parábolas coloridas e criativos ensinamentos preservados nas histórias do Evangelho”.[2]

Como teólogo, Jesus valorizou narrativas bíblicas que, para a maioria dos críticos atuais, são inaceitáveis. Por exemplo: o dilúvio de Noé (Mt 24:37-39; Lc 17:26, 27), Sodoma e Gomorra (Mt 10:15; 11:23, 24), a história de Jonas (Mt 12:39-41; Lc 11:29-32), etc.[3] No mínimo, isso demonstra que há algo de intrigante na teologia de Jesus, razão pela qual é necessária uma reflexão nessa temática. Além do mais, “a explicação do Novo Testamento sobre o ministério de Jesus sustenta que Ele mesmo instruiu Seus seguidores de que Sua vida e ministério se cumpriam nas Escrituras”.[4] Ou seja, Ele é um teólogo cuja teologia encontra significado nEle mesmo.

Cristo e as Escrituras

É certo que Jesus veio ao mundo “para salvá-lo e não para pontificar sobre crítica bíblica”.[5] Por outro lado, ao revisarmos o modo como lidou com as Escrituras, facilmente concluímos que Ele “não é apenas o criador-autor destas; é também o seu intérprete mais proeminente”.[6] De fato, “é preciso lembrar que Jesus não é apenas o ‘autor’ da Bíblia através do poder do Espírito, mas Ele próprio é um ‘leitor’ e intérprete das Escrituras”.[7] Deste modo, a correta compreensão e aplicação da Bíblia depende da aceitação de Cristo como a “Estrela Norte integradora para a doutrina e prática cristã”.[8] Neste sentido, “o principal objetivo da hermenêutica é o relacionamento do texto para com a pessoa e trabalho de Jesus Cristo”.[9]

A Escritura é divinamente inspirada

Jesus claramente considerou que a Escritura é divinamente inspirada, oferecida através de instrumentos humanos. Isto pode ser ilustrado pelo fato de Ele atribuir ao Espírito Santo (Mc 12:36) as palavras de Davi no Salmo 10:1. Além disso, compreendeu a profecia de Daniel 9:27 como uma predição inspirada que se cumpriria (Mt 24:15). O exemplo mais conhecido, provavelmente, é o que ocorreu quando Ele visitou a Sinagoga em Nazaré; ao ler a passagem de Isaías 61:1-2, Ele declarou que seu cumprimento acabara de ocorrer diante dos ouvintes (Lc 4:21). Outros exemplos da inspiração da Escritura e da participação humana estão em Mateus 26:54, João 13:18 (em que cita Salmo 41:9) e Mateus 27:46 (em que cita Salmo 22:1).[10]

A Escritura é autoritativa

O modo como Cristo usa as Escrituras nos mostra que Ele a considerava autoritativa. Um claro exemplo disso é Mateus 4: “Está escrito”. A respeito desta natureza da Bíblia, conforme revelado em Mateus 4, Henry Holloman afirma que a “Bíblia tem autoridade derivada porque revela a Deus, a Sua vontade, e as Suas expectativas. Jesus enfatizou a autoridade da Escritura. Esta autoridade é absoluta na medida em que os intérpretes discernem corretamente o seu significado, pois a Bíblia é diretamente inspirada por Deus, que trabalha através de autores humanos (2 Tm 3:16-17; 2 Pe 1:19-21). Porque a Bíblia é a verdade de Deus (Jo 17:17), os cristãos estão sujeitos à sua autoridade”. [11]

Como decorrência da autoridade bíblica, diante de uma discussão ou disputa, Jesus Cristo claramente apelou às Escrituras para embasar Seu posicionamento:

  • “Nunca lestes?” (Mt 12:3, 5; 21:16, 42; 22:31)
  • “O que está escrito na lei?” (Lc 10:26; João 10:34)
  • “Está escrito” (Mt 4:4, 7, 10; 26:24, 31; João 8:17)

Entretanto, provavelmente a maior evidência de que Jesus via a Escritura como autoritativa é quando Ele atribuiu plenitude a elas, visão que também é sustentada pelos judeus (Jo 12:34). Ao sustentar que “a Escritura não pode ser anulada” (Jo 10:35), Cristo ensina que a sua autoridade não poderia ser negada ou resistida. “Claramente, a atitude uniforme de Jesus para com as Escrituras era de completa confiança e segurança em sua autoridade”.[12]

A Escritura é um registro objetivo de fatos

Ainda, Jesus considerava as narrativas como registros objetivos de fatos. Ele se refere a Abel (Lc 11:51), a Noé (Mt 24:37-39; Lc 17:26,27), a Abraão (Jo 8:56), à circuncisão instituída (Jo 7:22; v. Gn 17:10-12; Lv 12:3), a Sodoma e a Gomorra (Mt 8.11; Lc 13:28), ao maná (Jo 6:31,49,58), à serpente no deserto (Jo 3:14), a Davi, quando este tomou os pães da Presença e os comeu (Mt 12:3,4; Mc 2:25,26; Lc 6:3,4), a Davi como salmista (Mt 22:43; Mc 12:35; Lc 20:42), a Salomão (Mt 6:29; 12:42; Lc 1:31; 12:27), a Elias (Lc 4:25,26), a Eliseu (Lc 4:27), a Jonas (Mt 12:39-41; Lc 11:29,30,32) e a Zacarias (Lc 11:51).[13]

Nosso dever hoje

Jesus Cristo, O Teólogo, compreendia e aceitava a Escritura como divinamente inspirada, autoritativa e registro objetivo de fatos. Se Ele, sendo o seu autor, via a Palavra dessa forma, não faz o mínimo sentido nós querermos diminuí-la ou menosprezá-la. Nosso dever é lê-la, refletir nela e seguir os seus ensinamentos. Dessa forma, poderemos viver de modo sábio e manter comunhão com o seu Autor.

 

 

Referências

[1] Brad Young, Jesus the Jewish Theologian (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2011). xxi.

[2] Ibid. xxxiii.

[3] Henry Virkler, Hermenêutica Avançada: Princípios E Processos De Interpretação Bíblica. 23.

[4] David S. Dockery, Hermenêutica Contemporânea À Luz Da Igreja Primitiva (São Paulo: Vida, 2005). 27.

[5] James Barr, Fundamentalism (London: SCM Press, 1977). 73.

[6] Christopher Peppler, “The Christocentric Principle: A Jesus-Centred Hermeneutic,” Conspectus (Sourh African Theological Seminary) 13 (2012). 127. Academic Search Complete, EBSCOhost. Acesso em 9 de Janeiro de 2014.

[7] Ibid. p. 122. O autor está citando Ray Sherman Anderson, The Shape of Practical Theology : Empowering Ministry with Theological Praxis (Downers Grove: IVP Academic, 2001). 54.

[8] Peppler, “The Christocentric Principle: A Jesus-Centred Hermeneutic.”119.

[9] Graeme Goldsworthy, Gospel-Centered Hermeneutics : Foundations and Principles of Evangelical Biblical Interpretation (Downers Grove, Ill.: IVP Academic, 2006). 312.

[10] Adaptado Dave Miller, “Jesus’ Hermeneutical Principles,”  Apologetic Press (2007), https://www.apologeticspress.org/apcontent.aspx?category=11&article=2307.

[11] Henry Holloman, Kregel Dictionary of the Bible and Theology : Over 500 Key Theological Words and Concepts Defined and Cross-Referenced (Grand Rapids, MI: Kregel Academic & Professional, 2005).

[12] Ibid.

[13] John W. Wenham, “Jesus E as Escrituras,” in A Inerrância Da Bíblia: Uma Sólida Defesa Da Infalibilidade Das Escrituras, ed. Norman Geisler (São Paulo: Vida, 2012). 19. Embora este pesquisador não concorde com a tese central do livro aqui citado, a inerrância da Bíblia, aqui faço uso de versos bíblicos organizados e citados nessa obra.

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